José Mujica sobre Síria: "Único bombardeio admissível seria de leite em pó e biscoitos"
September 9, 2013 9:50 - no comments yetÉ impossível cessar uma guerra com mais guerra, disse o presidente uruguaio sobre possibilidade de intervenção militar.
Em meio ao clima de tensão no Oriente Médio com a possibilidade de intervenção militar na Síria, José Mujica ironiza: “o único bombardeio admissível seria de leite em pó, biscoitos e comida”,disse.
O presidente uruguaio defende que uma ação militar não é o melhor caminho para solucionar o conflito civil no país. “Isso seria tentar apagar uma fogueira colocando mais combustível”, argumenta em referência ao plano norte-americano de intervenção. “A guerra não se resolve introduzindo mais guerra. Isso leva a situação para um caminho de conflitos intermináveis que promove um profundo ressentimento que vai transformar em luta e resistência “aqui e ali”, reitera em entrevista a uma emissora local do Uruguai.
Citado pela imprensa espanhola neste sábado (07/09), o presidente uruguaio fez referências na história contemporânea para argumentar os impactos negativos da guerra. “Cada uma das tentativas nos últimos 30 anos de impor a democracia ocidental - da forma como conhecemos –, na Ásia ou no mundo Árabe, teve o resultado semelhante de sacrifício e dor”, analisou ao El Pais.
Na contramão de Mujica, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu hoje (7) aos membros do Congresso que não fechem os olhos ao uso de armas químicas na Síria. "Nós somos os Estados Unidos. Não podemos ficar cegos diante das imagens da Síria. É por isso que peço aos membros do Congresso, dos dois partidos, que se unam e ajam para promover o mundo onde nós queremos viver, o mundo que queremos deixar aos nossos filhos e às futuras gerações", disse Obama, que procura o apoio do Congresso para ataques militares à Síria. O presidente falou à população em um programa semanal de rádio.
O Congresso norte-americano deve começar, na segunda-feira (9), a debater os ataques defendidos por Barack Obama como reação ao uso de armas químicas no dia 21 de agosto, nos arredores de Damasco, capital síria, pelo qual responsabiliza o regime do presidente Bashar Al Assad.
Fonte: Opera Mundi
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Sem as guerras a potência não seria potência
September 8, 2013 20:07 - no comments yetA Síria será atacada pelos Estados Unidos? Como o país tem que esperar até segunda-feira (9) para que, no Capitólio de Washington, o Congresso dê luz verde ao gerente geral – quer dizer, ao presidente norte-americano – legitimando a verdadeiramente repudiável e ilegal intervenção militar, desde um ponto de vista jurídico internacional, e na ordem ética e moral, lhes propomos percorrer os caminhos de por que ocorreria o ataque anunciado.
Por Oscar Sánchez Serra, no Granma
Brasil, Rússia – que renasce como incômoda superpotência –, Índia e China (Bric), são economias emergentes, que já atuam como protagonistas principais do cenário geopolítico mundial. Destas duas últimas, entre as nações mais povoadas do mundo, se diz que marcarão o ritmo do desenvolvimento no futuro do século 21. Em outras palavras, os EUA teria que se preparar para a transição de poderes no planeta. Não seria o atual império o mais poderoso.
Para Víctor Burbaki, da Fundação da Cultura Estratégica, os modelos matemáticos da dinâmica geopolítica global concluem que uma vitória em grande escala, em uma guerra realizada por meios convencionais, seria a única opção de os Estado Unidos conseguirem reverter o rápido colapso de seu status geopolítico. Burbaki afirma que, se a atual dinâmica persistir, a mudança na liderança global poderia ser esperada para 2025 e a única maneira dos norte-americanos descarrilharem o processo, seria desenvolvendo uma guerra em grande escala.
A Iugoslávia em 1999, o Afeganistão em 2001 e o Iraque em 2003, já sofreram as investidas imperiais, sob a mesma rede de mentiras. A tática do gendarme nunca fez frente aos Estados que puderam disputar a supremacia global, pela qual o próprio Burbaki considera que o Irã, a Síria e os grupos xiitas, tais como o Hezbolá no Líbano, enfrentariam o perigo de serem golpeados em nome de uma nova redistribuição mundial. O especialista não disse isso ontem, senão há mais de um ano, em fevereiro de 2012.
Quer dizer, desfazer-se do Irã e da Síria, que interferem no caminho da dominação global dos Estados Unidos, deve ser o próximo passo natural de Washington.
Paul Farell, colunista e analista financeiro, declarou em abril deste ano que os Estados Unidos precisam de uma nova guerra, do contrário o capitalismo morrerá. Ele mesmo ironizou em uma nota do Russia Today: “A Segunda Guerra Mundial não nos tirou da grande depressão?”. Isso embasa a sua tese de que as guerras beneficiam sobretudo os capitalistas. A lista da Forbes de multimilionários do mundo disparou de 332, no ano 2000, para 1426, na sua última edição. Destes multimilionários, 31% são norte-americanos.
Neste sentido o intelectual argentino sentencia explicando que, hoje, o poderio se baseia nas guerras, sempre dos outros, nunca no seu próprio território. De qualquer maneira a guerra é o eixo: sua economia doméstica é alimentada, em uma alta porcentagem, pela indústria da guerra e sua hegemonia planetária (apropriação de matérias-primas e imposição de regras do jogo econômico e de políticas mundiais com o primado do dólar) também depende delas. Hoje em dia Washington necessita das guerras. Sem as guerras, a potência não seria potência.
O que vivemos agora com a Síria sitiada, o que leva o Oriente Médio a uma guerra de consequências imprevisíveis – com o verdadeiro alvo por trás, o Irã, e com Israel, que está esperando, pressionando e chantageando o amo do Norte para que acabe de cumprir com o castigo ao país persa – não é obra do acaso.
A primeira vítima de uma guerra é a verdade. Se no Iraque as falácias mais obscenas estavam relacionadas com a posse de armas de destruição em massa e seu estreito vínculo com a Al Qaeda e, no Irã, a fabricação de um poderoso armamento nuclear, agora na Síria, são as supostas armas químicas empregadas por Al-Assad contra seu próprio povo – ainda que ninguém com o mais elementar senso comum acredite nisso, porque seria inconveniente para o próprio governo criar um pretexto como esse.
Contudo, a mentira é parte do plano e este não nasceu ontem, nem foi improvisado em um bar com algumas cervejas, mas na Casa Branca, lá pelo ano de 1997, quando um grupo de mentes febris, de alienação ultradireitista, criaram o Projeto para o Novo Século Americano, com o objetivo de manter os Estados Unidos como a superpotência hegemônica do planeta a qualquer preço.
A abertura, a estabilidade, o controle e a globalização mundial dos mercados; assim como a segurança e a liberdade do comércio; o acesso irrestrito aos lugares onde se encontrem fontes energéticas e de matérias-primas necessárias para dinamizar sua economia e a de seus aliados; o monitoramento e controle em tempo real das pessoas e de todos os movimentos políticos e sociais importantes contrários a seus interesses; a expansão e consolidação do domínio do capital financeiro e industrial de suas empresas e corporações transnacionais, e a garantia do controle sobre os meios de comunicação e de informação mundial, são os objetivos do projeto.
Para isso não pouparam nem os mercenários sírios – bem pagos e armados –, nem o emprego de seu poderio militar. Tampouco deixaram de criar situações de conflito interno nas nações, como a fabricação e implantação da chamada Primavera Árabe, no norte da África, que culminou com o assassinato de Muamar Kadafi.
Quem pensou e armou esta loucura baseada na indústria da morte, o verdadeiro suporte da economia dos EUA? Pois foram os “ilustres” neoconservadores que desempenharam altos cargos nas administrações de Ronald Reagan e George Bush (pai e filho), leia-se Dick Cheney, Jeb Bush, Paúl Wolfowitz, Donald Rumsfeld, Dan Quayle, Lewis "Scooter" Libby, Eliott Abrams, John Bolton, Richard Perle, entre outros.
Quem os amparou politicamente? O Partido Republicano, o Partido Democrata, o Comitê de Assuntos Públicos entre Estados Unidos-Israel (Aipac) – lobby pró-Israel na nação estadunidense – e muitas organizações de poder com influência em Wall Street, nos meios de comunicação e no poderoso complexo militar-industrial. Para bom entendedor, não importa quem é o presidente.
As torres gêmeas foram derrubadas, mas se ergueram as bases para a implantação do projeto, difundindo a “divina” ideia fundamentalista de que os Estados Unidos são o único capaz de combater os terríveis males do terrorismo islâmico, do narcotráfico e do crime organizado – ainda que seu próprio território seja o que abriga mais terroristas, o maior consumidor de drogas ou onde os criminosos gozam de impunidade. Desencadearam uma cruzada midiática implacável que fixou nas mentes dos cidadãos do mundo: o medo e o perigo.
Tanto que até a própria ONU, na sua investigação sobre as armas químicas na Síria – a mentira angular para a agressão –, disse que sua pesquisa é somente para comprovar se usaram ou não tal recurso, e não para apontar o responsável.
Na Síria, o Projeto já provou sua variante da “Primavera Árabe”, mas não pode desestabilizá-la. Agora lhes toca o recurso de destruí-la e deixá-la sem governo, sem ordem, porque anarquia social ali é justificar sua presença e a de seus aliados com todas as suas tropas e até de uma coalizão. É também uma porta de entrada ao Irã, além disso, com vigilância sobre o perigo do Hezbolá no Líbano, e o cumprimento de uma obrigação com Israel, que desde a sua derrota em 2006 perante essa força, não pode cicatrizar as suas feridas.
Quem pode ter duvidas de que tudo isso é um plano orquestrado, e que nem aos Estados Unidos, nem aos seus aliados, importa se houve ou não uso de armas químicas? O que interessa é a situação geoestratégica de Damasco e o poder do império, ainda que banhem de sangue esse povo heroico e a paz mundial volte a ser pisoteada pela nação e pelo governo que permanece como paradigma dos direitos humanos. Mas veja bem, quem com ferro fere, com ferro será ferido.
Tradução: Théa Rodrigues, da redação do Vermelho
Fonte: Vermelho
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O Irã defenderá a Síria com todo o seu poder
September 8, 2013 11:50 - no comments yetMédio Oriente. A administração estado-unidense lançou o processo de obtenção da aprovação do Congresso para um ataque contra a Síria. O comité de negócios estrangeiros do Senado votou pela resolução de apoio à ação planeada. O próximo passo é levar a moção ao plenário do Senado e a seguir à Câmara dos Deputados para receber apoio bipartidário. Deste modo Washington está a tentar fazer com que a decisão de atacar a Síria pareça legítima, ainda que esteja a contornar o Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Por Nikolai Bobkin
A previsão de que a guerra se espalhará para abarcar todo o Médio Oriente caso os Estados Unidos ataquem a Síria está a tornar-se verdadeira. Como era de supor, o primeiro ator externo a ser envolvido é o Irã. O alistamento está em curso, jovens iranianos estão desejosos de envergar o uniforme e defender a Síria. O número de voluntários é de aproximadamente 100 mil. Eles enviaram uma carta ao presidente da Síria a pedirem sua permissão para serem posicionados na área das Alturas do Golan... Eles querem que o seu governo providencie uma ponte aérea para a Síria através do espaço aéreo iraquiano. O Iraque é o país com maior população xiita; é alta a probabilidade de que milhares de xiitas venham a juntar-se aos voluntários iranianos. Se Obama queria que as brigas inter-religiosas no Oriente Médio se transformassem numa carnificina de âmbito universal, agora ele pode conseguir isso, ou, para ser mais exato, ele pode provocar o seu arranque na Síria com o lançamento dos mísseis Tomahawk contra este país.
É a Síria que está à vista, mas o alvo principal é a República Islâmica do Irã. A política do recém-eleito presidente Rouhani está voltada para a normalização das relações com o Ocidente e a travar o isolamento internacional. Isto provoca preocupação entre os círculos dirigentes dos Estados Unidos e Israel. Desde há muito os americanos têm estado a culpar o Irã por todas as perturbações no Médio Oriente, mesmo quando era claro que o Irã nada tinha a ver com o que aconteceu. Pode soar como um paradoxo, mas a disponibilidade de Teerã para começar as conversações sobre o programa nuclear foi percebida pela administração Obama como uma ameaça aos seus interesses. De acordo com a lógica da Casa Branca, os EUA podem perder o seu principal argumento na confrontação com Teerã. Portanto as sanções dos EUA não instilarão mais medo. A Europa já está a enviar sinais não ambíguos a demonstrar que espera um progresso real a ser alcançado nas conversações. Os EUA não têm laços comerciais e veem as sanções como uma alavanca eficaz no impasse ao passo que os europeus enfrentam perdas de muitos milhares de milhões.
O argumento da "ameaça nuclear iraniana" tornou-se uma obsessão para Washington após a saída de Ahmadinejad. Ele cumpre plenamente a intenção de encontrar um pretexto para a guerra. A fase síria da operação militar está para arrancar em breve.
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| Mohammad Javad Zarif |
O Irã não precisa de guerra. Os iranianos, ao invés, querem que Obama pondere seriamente as consequências de tal ação deixando-o saber que não há nenhuma maneira para que possa ocultar-se por trás do Congresso. O ministro iraniano dos Estrangeiros, Mohammad Javad Zarif said, disse: "O sr. Obama não pode interpretar e mudar o direito internacional com base na sua própria vontade". E acrescentou que "Só o Conselho de Segurança da ONU, sob circunstâncias especiais, pode autorizar uma ação coletiva, e isso será sob o Capítulo 7 da Carta da ONU, e esta questão precisa da aprovação do Conselho de Segurança". De um modo geral isso coincide com a posição da Rússia.
Teerã não vê intriga no fato de que o Congresso acabará finalmente por sancionar a guerra contra a Síria, apenas está curiosa por ver como os legisladores dos EUA farão isso sob o pretexto de "punir" a Síria por utilizar armas químicas enquanto contornam a questão iraniana. Os membros do Congresso inevitavelmente considerarão o "fator iraniano". Ao apelar pela guerra contra a Síria, o secretário de Estado John Kerry tenta convencer os legisladores de que, se nenhuma ação for tomada contra a Síria, é mais provável que o Irã avance no seu programa nuclear. Kerry não discute sobre a disponibilidade de ligação direta entre os eventos na Síria e o programa nuclear iraniano, ele simplesmente declara a posição da Casa Branca. O secretário da Defesa Chuck Hagel diz que não efetuar ação contra a Síria minará a capacidade de Washington para conter os esforços nucleares iranianos. O Congresso dos EUA está sob forte influência do lobby judeu e os argumentos funcionam porque, sendo hostil à Síria, Israel sempre teve o Irã em mente. Onde exatamente é desenhada a "linha vermelha" representa uma questão de importância menor para os políticos israelenses. Alguns republicanos no Congresso não só apoiam a ação contra a Síria como clamam por uma intervenção de maior escala dizendo que um ataque limitado não será suficiente para assustar seriamente o Irã. Um ataque contra a Síria é provável que faça Teerã incremente a sua segurança, incluindo a aquisição de armas nucleares como um dissuasor universal... Isto é uma advertência razoável à qual não se presta atenção. Tendo o Irã em vista, uma provocação militar contra a Síria destina-se também a aumentar o desacordo nas fileiras da liderança iraniana. Washington espera que políticos voltados para a guerra venham a prevalecer e o governo iraniano terá de ceder e abandonar abordagens equilibradas à questão. Na verdade, apenas há poucos meses tais ameaças abertas de Washington teriam alimentado uma tempestade de respostas, o antigo presidente Ahmadinejad costumava dar o tom. Agora o Irã parece estar extremamente contido. Falando a Obama na sua ausência, o ministro da Defesa do Irã, Brig. Gen. Hossein Dehghan, utiliza linguagem diplomática adequada e insiste em que todos os problemas deveriam ser resolvidos por meios políticos.
Contudo, a contenção pública do novo governo iraniano não deveria dar ilusões aos americanos. Não é com burocratas do governo que eles terão de tratar casos comecem ações de combate, mas sim com as forças armadas da República Iraniana - o garante da retaliação no caso de o país ser atacado.
O chefe dos assessores do Irã, Hassan Firouzabadi, foi citado a declarar que se os EUA atacarem a Síria, Israel será atacado. Não é casual que voluntários iranianos que estão a ir defender a Síria, não tenham interesse em serem posicionados nas áreas adjacentes às fronteiras com a Turquia ou Jordânia. Não, eles querem estar nas Alturas do Golan - a linha da fronteira síria-israelense disputada desde há muito. Um ataque potencial feito pelo Irã contra Israel em retaliação pelo ataque dos EUA à Síria é o pior cenário de todos; este será o caso em que é impossível evitar uma guerra em grande escala no Oriente Médio. Ao invés de tomar uma decisão para recuar de uma ação militar contra a Síria, Obama está a empurrar o Irão contra a parede ao encenar provocações incessantes. Como esta, por exemplo: o recente teste de demonstração israelense como preparação para o ataque retaliatório iraniano.
06/Setembro/2013
O original encontra-se em www.strategic-culture.org/...
Fonte: Pravda
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Obama: "EUA não precisam de autorização da ONU para atacar a Síria"
September 6, 2013 18:48 - no comments yetDisplante: EUA não precisam de autorização da ONU para atacar
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse nesta sexta-feira (6) que não depende de autorização da Organização das Nações Unidas (ONU) para o provável ataque que vai desferir contra a Síria. Segundo Obama, os Estados Unidos "já têm" provas de que foram usadas armas químicas em ataques na Síria e atribuiu essa responsabilidade ao governo do presidente sírio, Bashar al-Assad.
Desprezando o papel da ONU, Obama insinua que a organização está paralisada e que o caso demanda "uma resposta internacional", que não deve vir de decisão do Conselho de Segurança.
Segundo interpreta Obama, ele preferiria trabalhar por meio de canais multilaterais e ONU, "mas acredito que a segurança mundial e dos EUA demandam [decisões por outros meios]”, opinou o presidente durante coletiva de imprensa em São Petersburgo, na Rússia, onde ocorre a cúpula do G20.
Obama informou que fará na próxima terça-feira (10) um pronunciamento aos cidadãos norte-americanos, depois que o Congresso o autorizar a atacar a Síria, o que deve acontecer na segunda-feira (9). Indagado se o ataque pode ser feito sem a autorização do Congresso, ele disse que, um dos motivos da consulta é apenas de o Congresso dar alguma satisfação ao povo americano “de que esta é a coisa certa” a fazer.
Democracia burguesa
“Há várias decisões que tomo que são impopulares, mas é o que se há para fazer”, disse, ao reconhecer que ações desse tipo, envolvendo operações militares, são sempre impopulares, frase que cabe perfeitamente em uma democracia burguesa, já que o representante toma atitudes e decisões sem ouvir seus eleitores.
“Fui eleito para acabar com uma guerra, e não para começar outras. Mas tenho o dever da proteção, e há tempos difíceis se quisermos defender aquilo que acreditamos”, tergiversou.
Segundo ele, o uso de armas químicas é uma "ameaça à segurança global", principalmente para países satélites dos Estados Unidos, como Turquia e Israel. "Há riscos de essas armas caírem nas mãos de terroristas", insistiu.
Na verdade, segundo denúncias da chancelaria russa, essas armas já estão em mãos de terroristas, estes apoiados pelos Estados Unidos, e foram utilizadas em ataques anteriores, conforme denúncias feitas em maio pela ONU, por Carla del Ponte, membro da Comissão de Inquérito da ONU sobre possíveis violações dos direitos humanos na Síria.
Segundo a investigação da ONU naquela época, depoimentos de testemunhas e vítimas no distrito de Guta, na periferia de Damasco, "indicam com toda a evidência que o gás neuroparalítico sarin foi usado por militantes da oposição síria", disse Carla del Ponte em entrevista à televisão suíça.
"A comissão pericial não encontrou traços de uso de armas químicas pela parte do Exército governamental", sublinha Del Ponte. Apesar de omitir ainda se realizará ou não o ataque, Obama disse ter condições para agredir o país árabe a qualquer momento.
Brasil não apoia sem aval da ONU
Também da Rússia, a presidenta Dilma Rousseff havia informado, anteriormente, que o Brasil não reconhece qualquer ação militar na Síria sem que haja aprovação das Nações Unidas.
Fonte: Vermelho
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Desabafo de americana sobre o anuncio do Obama
September 6, 2013 12:23 - no comments yetFonte: Evoluindo Sempre
Lula: "O presidente dos Estados Unidos deveria pedir desculpas ao mundo"
September 6, 2013 11:49 - no comments yetO homem de cabeça de papelão
September 4, 2013 10:48 - no comments yetJoão do Rio*
No País que chamavam de Sol, apesar de chover, às vezes, semanas inteiras, vivia um homem de nome Antenor. Não era príncipe. Nem deputado. Nem rico. Nem jornalista. Absolutamente sem importância social.
O País do Sol, como em geral todos os países lendários, era o mais comum, o menos surpreendente em ideias e práticas. Os habitantes afluíam todos para a capital, composta de praças, ruas, jardins e avenidas, e tomavam todos os lugares e todas as possibilidades da vida dos que, por desventura, eram da capital. De modo que estes eram mendigos e parasitas, únicos meios de vida sem concorrência, isso mesmo com muitas restrições quanto ao parasitismo. Os prédios da capital, no centro elevavam aos ares alguns andares e a fortuna dos proprietários, nos subúrbios não passavam de um andar sem que por isso não enriquecessem os proprietários também. Havia milhares de automóveis à disparada pelas artérias matando gente para matar o tempo,cabarets fatigados, jornais, tramways, partidos nacionalistas, ausência de conservadores, a Bolsa, o Governo, a Moda, e um aborrecimento integral. Enfim tudo quanto a cidade de fantasia pode almejar para ser igual a uma grande cidade com pretensões da América. E o povo que a habitava julgava-se, além de inteligente, possuidor de imenso bom senso. Bom senso! Se não fosse a capital do País do Sol, a cidade seria a capital do Bom Senso!
Precisamente por isso, Antenor, apesar de não ter importância alguma, era exceção mal vista. Esse rapaz, filho de boa família (tão boa que até tinha sentimentos), agira sempre em desacordo com a norma dos seus concidadãos.
Desde menino, a sua respeitável progenitora descobriu-lhe um defeito horrível: Antenor só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira. Alarmada, a digna senhora pensou em tomar providências. Foi-lhe impossível. Antenor era diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros. Enquanto usara calções, os amigos da família consideravam-no umenfant terrible, porque no País do Sol todos falavam francês com convicção, mesmo falando mal. Rapaz, entretanto, Antenor tornou-se alarmante. Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim, a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrario do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam.
Uma só coisa descobriu a mãe de Antenor para não ser forçada a mandá-lo embora: Antenor nada do que fazia, fazia por mal. Ao contrário. Era escandalosamente, incompreensivelmente bom. Aliás, só para ela, para os olhos maternos. Porque quando Antenor resolveu arranjar trabalho para os mendigos e corria a bengala os parasitas na rua, ficou provado que Antenor era apenas doido furioso. Não só para as vítimas da sua bondade como para a esclarecida inteligência dos delegados de polícia a quem teve de explicar a sua caridade.
Com o fim de convencer Antenor de que devia seguir os tramitas legais de um jovem solar, isto é: ser bacharel e depois empregado público nacionalista, deixando à atividade da canalha estrangeira o resto, os interesses congregados da família em nome dos princípios organizaram vários meetingscomo aqueles que se fazem na inexistente democracia americana para provar que a chave abre portas e a faca serve para cortar o que é nosso para nós e o que é dos outros também para nós. Antenor, diante da evidência, negou-se.
— Ouça! bradava o tio. Bacharel é o princípio de tudo. Não estude. Pouco importa! Mas seja bacharel! Bacharel você tem tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo lisonjear, é a ascensão: deputado, ministro.
— Mas não quero ser nada disso.
— Então quer ser vagabundo?
— Quero trabalhar.
— Vem dar na mesma coisa. Vagabundo é um sujeito a quem faltam três coisas: dinheiro, prestígio e posição. Desde que você não as tem, mesmo trabalhando — é vagabundo.
— Eu não acho.
— É pior. É um tipo sem bom senso. É bolchevique. Depois, trabalhar para os outros é uma ilusão. Você está inteiramente doido.
Antenor foi trabalhar, entretanto. E teve uma grande dificuldade para trabalhar. Pode-se dizer que a originalidade da sua vida era trabalhar para trabalhar. Acedendo ao pedido da respeitável senhora que era mãe de Antenor, Antenor passeou a sua má cabeça por várias casas de comércio, várias empresas industriais. Ao cabo de um ano, dois meses, estava na rua. Por que mandavam embora Antenor? Ele não tinha exigências, era honesto como a água, trabalhador, sincero, verdadeiro, cheio de idéias. Até alegre — qualidade raríssima no país onde o sol, a cerveja e a inveja faziam batalhões de biliosos tristes. Mas companheiros e patrões prevenidos, se a princípio declinavam hostilidades, dentro em pouco não o aturavam. Quando um companheiro não atura o outro, intriga-o. Quando um patrão não atura o empregado, despede-o. É a norma do País do Sol. Com Antenor depois de despedido, companheiros e patrões ainda por cima tomavam-lhe birra. Por que? É tão difícil saber a verdadeira razão por que um homem não suporta outro homem!
Um dos seus ex-companheiros explicou certa vez:
— É doido. Tem a mania de fazer mais que os outros. Estraga a norma do serviço e acaba não sendo tolerado. Mau companheiro. E depois com ares...
O patrão do último estabelecimento de que saíra o rapaz respondeu à mãe de Antenor:
— A perigosa mania de seu filho é por em prática idéias que julga próprias.
— Prejudicou-lhe, Sr. Praxedes?
Não. Mas podia prejudicar. Sempre altera o bom senso. Depois, mesmo que seu filho fosse águia, quem manda na minha casa sou eu.
No País do Sol o comércio ë uma maçonaria. Antenor, com fama de perigoso, insuportável, desobediente, não pôde em breve obter emprego algum. Os patrões que mais tinham lucrado com as suas idéias eram os que mais falavam. Os companheiros que mais o haviam aproveitado tinham-lhe raiva. E se Antenor sentia a triste experiência do erro econômico no trabalho sem a norma, a praxe, no convívio social compreendia o desastre da verdade. Não o toleravam. Era-lhe impossível ter amigos, por muito tempo, porque esses só o eram enquanto. não o tinham explorado.
Antenor ria. Antenor tinha saúde. Todas aquelas desditas eram para ele brincadeira. Estava convencido de estar com a razão, de vencer. Mas, a razão sua, sem interesse chocava-se à razão dos outros ou com interesses ou presa à sugestão dos alheios. Ele via os erros, as hipocrisias, as vaidades, e dizia o que via. Ele ia fazer o bem, mas mostrava o que ia fazer. Como tolerar tal miserável? Antenor tentou tudo, juvenilmente, na cidade. A digníssima sua progenitora desculpava-o ainda.
— É doido, mas bom.
Os parentes, porém, não o cumprimentavam mais. Antenor exercera o comércio, a indústria, o professorado, o proletariado. Ensinara geografia num colégio, de onde foi expulso pelo diretor; estivera numa fábrica de tecidos, forçado a retirar-se pelos operários e pelos patrões; oscilara entre revisor de jornal e condutor de bonde. Em todas as profissões vira os círculos estreitos das classes, a defesa hostil dos outros homens, o ódio com que o repeliam, porque ele pensava, sentia, dizia outra coisa diversa.
— Mas, Deus, eu sou honesto, bom, inteligente, incapaz de fazer mal...
— É da tua má cabeça, meu filho.
— Qual?
— A tua cabeça não regula.
— Quem sabe?
Antenor começava a pensar na sua má cabeça, quando o seu coração apaixonou-se. Era uma rapariga chamada Maria Antônia, filha da nova lavadeira de sua mãe. Antenor achava perfeitamente justo casar com a Maria Antônia. Todos viram nisso mais uma prova do desarranjo cerebral de Antenor. Apenas, com pasmo geral, a resposta de Maria Antônia foi condicional.
— Só caso se o senhor tomar juízo.
— Mas que chama você juízo?
— Ser como os mais.
— Então você gosta de mim?
— E por isso é que só caso depois.
Como tomar juízo? Como regular a cabeça? O amor leva aos maiores desatinos. Antenor pensava em arranjar a má cabeça, estava convencido.
Nessas disposições, Antenor caminhava por uma rua no centro da cidade, quando os seus olhos descobriram a tabuleta de uma "relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão". Achou graça e entrou. Um cavalheiro grave veio servi-lo.
— Traz algum relógio?
— Trago a minha cabeça.
— Ah! Desarranjada?
— Dizem-no, pelo menos.
— Em todo o caso, há tempo?
— Desde que nasci.
— Talvez imprevisão na montagem das peças. Não lhe posso dizer nada sem observação de trinta dias e a desmontagem geral. As cabeças como os relógios para regular bem...
Antenor atalhou:
— E o senhor fica com a minha cabeça?
— Se a deixar.
— Pois aqui a tem. Conserte-a. O diabo é que eu não posso andar sem cabeça...
— Claro. Mas, enquanto a arranjo, empresto-lhe uma de papelão.
— Regula?
— É de papelão! explicou o honesto negociante. Antenor recebeu o número de sua cabeça, enfiou a de papelão, e saiu para a rua.
Dois meses depois, Antenor tinha uma porção de amigos, jogava o pôquer com o Ministro da Agricultura, ganhava uma pequena fortuna vendendo feijão bichado para os exércitos aliados. A respeitável mãe de Antenor via-o mentir, fazer mal, trapacear e ostentar tudo o que não era. Os parentes, porem, estimavam-no, e os companheiros tinham garbo em recordar o tempo em que Antenor era maluco.
Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava. Maria Antônia tremia de contentamento vendo Antenor com juízo. Mas Antenor, logicamente, desprezou-a propondo um concubinato que o não desmoralizasse a ele. Outras Marias ricas, de posição, eram de opinião da primeira Maria. Ele só tinha de escolher. No centro operário, a sua fama crescia, querido dos patrões burgueses e dos operários irmãos dos spartakistas da Alemanha. Foi eleito deputado por todos, e, especialmente, pelo presidente da República — a quem atacou logo, pois para a futura eleição o presidente seria outro. A sua ascensão só podia ser comparada à dos balões. Antenor esquecia o passado, amava a sua terra. Era o modelo da felicidade. Regulava admiravelmente.
Passaram-se assim anos. Todos os chefes políticos do País do Sol estavam na dificuldade de concordar no nome do novo senador, que fosse o expoente da norma, do bom senso. O nome de Antenor era cotado. Então Antenor passeava de automóvel pelas ruas centrais, para tomar pulso à opinião, quando os seus olhos deram na tabuleta do relojoeiro e lhe veio a memória.
— Bolas! E eu que esqueci! A minha cabeça está ali há tempo... Que acharia o relojoeiro? É capaz de tê-la vendido para o interior. Não posso ficar toda vida com uma cabeça de papelão!
Saltou. Entrou na casa do negociante. Era o mesmo que o servira.
— Há tempos deixei aqui uma cabeça.
— Não precisa dizer mais. Espero-o ansioso e admirado da sua ausência, desde que ia desmontar a sua cabeça.
— Ah! fez Antenor.
— Tem-se dado bem com a de papelão? — Assim...
— As cabeças de papelão não são más de todo. Fabricações por séries. Vendem-se muito.
— Mas a minha cabeça?
— Vou buscá-la.
Foi ao interior e trouxe um embrulho com respeitoso cuidado.
— Consertou-a?
— Não.
— Então, desarranjo grande?
O homem recuou.
— Senhor, na minha longa vida profissional jamais encontrei um aparelho igual, como perfeição, como acabamento, como precisão. Nenhuma cabeça regulará no mundo melhor do que a sua. É a placa sensível do tempo, das idéias, é o equilíbrio de todas as vibrações. O senhor não tem uma cabeça qualquer. Tem uma cabeça de exposição, uma cabeça de gênio, hors-concours.
Antenor ia entregar a cabeça de papelão. Mas conteve-se.
— Faça o obséquio de embrulhá-la.
— Não a coloca?
— Não.
— V.EX. faz bem. Quem possui uma cabeça assim não a usa todos os dias. Fatalmente dá na vista.
Mas Antenor era prudente, respeitador da harmonia social.
— Diga-me cá. Mesmo parada em casa, sem corda, numa redoma, talvez prejudique.
— Qual! V.EX. terá a primeira cabeça.
Antenor ficou seco.
— Pode ser que V., profissionalmente, tenha razão. Mas, para mim, a verdade é a dos outros, que sempre a julgaram desarranjada e não regulando bem. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão.
E, em vez de viver no País do Sol um rapaz chamado Antenor, que não conseguia ser nada tendo a cabeça mais admirável — um dos elementos mais ilustres do País do Sol foi Antenor, que conseguiu tudo com uma cabeça de papelão.
O País do Sol, como em geral todos os países lendários, era o mais comum, o menos surpreendente em ideias e práticas. Os habitantes afluíam todos para a capital, composta de praças, ruas, jardins e avenidas, e tomavam todos os lugares e todas as possibilidades da vida dos que, por desventura, eram da capital. De modo que estes eram mendigos e parasitas, únicos meios de vida sem concorrência, isso mesmo com muitas restrições quanto ao parasitismo. Os prédios da capital, no centro elevavam aos ares alguns andares e a fortuna dos proprietários, nos subúrbios não passavam de um andar sem que por isso não enriquecessem os proprietários também. Havia milhares de automóveis à disparada pelas artérias matando gente para matar o tempo,cabarets fatigados, jornais, tramways, partidos nacionalistas, ausência de conservadores, a Bolsa, o Governo, a Moda, e um aborrecimento integral. Enfim tudo quanto a cidade de fantasia pode almejar para ser igual a uma grande cidade com pretensões da América. E o povo que a habitava julgava-se, além de inteligente, possuidor de imenso bom senso. Bom senso! Se não fosse a capital do País do Sol, a cidade seria a capital do Bom Senso!
Precisamente por isso, Antenor, apesar de não ter importância alguma, era exceção mal vista. Esse rapaz, filho de boa família (tão boa que até tinha sentimentos), agira sempre em desacordo com a norma dos seus concidadãos.
Desde menino, a sua respeitável progenitora descobriu-lhe um defeito horrível: Antenor só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira. Alarmada, a digna senhora pensou em tomar providências. Foi-lhe impossível. Antenor era diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros. Enquanto usara calções, os amigos da família consideravam-no umenfant terrible, porque no País do Sol todos falavam francês com convicção, mesmo falando mal. Rapaz, entretanto, Antenor tornou-se alarmante. Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim, a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrario do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam.
Uma só coisa descobriu a mãe de Antenor para não ser forçada a mandá-lo embora: Antenor nada do que fazia, fazia por mal. Ao contrário. Era escandalosamente, incompreensivelmente bom. Aliás, só para ela, para os olhos maternos. Porque quando Antenor resolveu arranjar trabalho para os mendigos e corria a bengala os parasitas na rua, ficou provado que Antenor era apenas doido furioso. Não só para as vítimas da sua bondade como para a esclarecida inteligência dos delegados de polícia a quem teve de explicar a sua caridade.
Com o fim de convencer Antenor de que devia seguir os tramitas legais de um jovem solar, isto é: ser bacharel e depois empregado público nacionalista, deixando à atividade da canalha estrangeira o resto, os interesses congregados da família em nome dos princípios organizaram vários meetingscomo aqueles que se fazem na inexistente democracia americana para provar que a chave abre portas e a faca serve para cortar o que é nosso para nós e o que é dos outros também para nós. Antenor, diante da evidência, negou-se.
— Ouça! bradava o tio. Bacharel é o princípio de tudo. Não estude. Pouco importa! Mas seja bacharel! Bacharel você tem tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo lisonjear, é a ascensão: deputado, ministro.
— Mas não quero ser nada disso.
— Então quer ser vagabundo?
— Quero trabalhar.
— Vem dar na mesma coisa. Vagabundo é um sujeito a quem faltam três coisas: dinheiro, prestígio e posição. Desde que você não as tem, mesmo trabalhando — é vagabundo.
— Eu não acho.
— É pior. É um tipo sem bom senso. É bolchevique. Depois, trabalhar para os outros é uma ilusão. Você está inteiramente doido.
Antenor foi trabalhar, entretanto. E teve uma grande dificuldade para trabalhar. Pode-se dizer que a originalidade da sua vida era trabalhar para trabalhar. Acedendo ao pedido da respeitável senhora que era mãe de Antenor, Antenor passeou a sua má cabeça por várias casas de comércio, várias empresas industriais. Ao cabo de um ano, dois meses, estava na rua. Por que mandavam embora Antenor? Ele não tinha exigências, era honesto como a água, trabalhador, sincero, verdadeiro, cheio de idéias. Até alegre — qualidade raríssima no país onde o sol, a cerveja e a inveja faziam batalhões de biliosos tristes. Mas companheiros e patrões prevenidos, se a princípio declinavam hostilidades, dentro em pouco não o aturavam. Quando um companheiro não atura o outro, intriga-o. Quando um patrão não atura o empregado, despede-o. É a norma do País do Sol. Com Antenor depois de despedido, companheiros e patrões ainda por cima tomavam-lhe birra. Por que? É tão difícil saber a verdadeira razão por que um homem não suporta outro homem!
Um dos seus ex-companheiros explicou certa vez:
— É doido. Tem a mania de fazer mais que os outros. Estraga a norma do serviço e acaba não sendo tolerado. Mau companheiro. E depois com ares...
O patrão do último estabelecimento de que saíra o rapaz respondeu à mãe de Antenor:
— A perigosa mania de seu filho é por em prática idéias que julga próprias.
— Prejudicou-lhe, Sr. Praxedes?
Não. Mas podia prejudicar. Sempre altera o bom senso. Depois, mesmo que seu filho fosse águia, quem manda na minha casa sou eu.
No País do Sol o comércio ë uma maçonaria. Antenor, com fama de perigoso, insuportável, desobediente, não pôde em breve obter emprego algum. Os patrões que mais tinham lucrado com as suas idéias eram os que mais falavam. Os companheiros que mais o haviam aproveitado tinham-lhe raiva. E se Antenor sentia a triste experiência do erro econômico no trabalho sem a norma, a praxe, no convívio social compreendia o desastre da verdade. Não o toleravam. Era-lhe impossível ter amigos, por muito tempo, porque esses só o eram enquanto. não o tinham explorado.
Antenor ria. Antenor tinha saúde. Todas aquelas desditas eram para ele brincadeira. Estava convencido de estar com a razão, de vencer. Mas, a razão sua, sem interesse chocava-se à razão dos outros ou com interesses ou presa à sugestão dos alheios. Ele via os erros, as hipocrisias, as vaidades, e dizia o que via. Ele ia fazer o bem, mas mostrava o que ia fazer. Como tolerar tal miserável? Antenor tentou tudo, juvenilmente, na cidade. A digníssima sua progenitora desculpava-o ainda.
— É doido, mas bom.
Os parentes, porém, não o cumprimentavam mais. Antenor exercera o comércio, a indústria, o professorado, o proletariado. Ensinara geografia num colégio, de onde foi expulso pelo diretor; estivera numa fábrica de tecidos, forçado a retirar-se pelos operários e pelos patrões; oscilara entre revisor de jornal e condutor de bonde. Em todas as profissões vira os círculos estreitos das classes, a defesa hostil dos outros homens, o ódio com que o repeliam, porque ele pensava, sentia, dizia outra coisa diversa.
— Mas, Deus, eu sou honesto, bom, inteligente, incapaz de fazer mal...
— É da tua má cabeça, meu filho.
— Qual?
— A tua cabeça não regula.
— Quem sabe?
Antenor começava a pensar na sua má cabeça, quando o seu coração apaixonou-se. Era uma rapariga chamada Maria Antônia, filha da nova lavadeira de sua mãe. Antenor achava perfeitamente justo casar com a Maria Antônia. Todos viram nisso mais uma prova do desarranjo cerebral de Antenor. Apenas, com pasmo geral, a resposta de Maria Antônia foi condicional.
— Só caso se o senhor tomar juízo.
— Mas que chama você juízo?
— Ser como os mais.
— Então você gosta de mim?
— E por isso é que só caso depois.
Como tomar juízo? Como regular a cabeça? O amor leva aos maiores desatinos. Antenor pensava em arranjar a má cabeça, estava convencido.
Nessas disposições, Antenor caminhava por uma rua no centro da cidade, quando os seus olhos descobriram a tabuleta de uma "relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão". Achou graça e entrou. Um cavalheiro grave veio servi-lo.
— Traz algum relógio?
— Trago a minha cabeça.
— Ah! Desarranjada?
— Dizem-no, pelo menos.
— Em todo o caso, há tempo?
— Desde que nasci.
— Talvez imprevisão na montagem das peças. Não lhe posso dizer nada sem observação de trinta dias e a desmontagem geral. As cabeças como os relógios para regular bem...
Antenor atalhou:
— E o senhor fica com a minha cabeça?
— Se a deixar.
— Pois aqui a tem. Conserte-a. O diabo é que eu não posso andar sem cabeça...
— Claro. Mas, enquanto a arranjo, empresto-lhe uma de papelão.
— Regula?
— É de papelão! explicou o honesto negociante. Antenor recebeu o número de sua cabeça, enfiou a de papelão, e saiu para a rua.
Dois meses depois, Antenor tinha uma porção de amigos, jogava o pôquer com o Ministro da Agricultura, ganhava uma pequena fortuna vendendo feijão bichado para os exércitos aliados. A respeitável mãe de Antenor via-o mentir, fazer mal, trapacear e ostentar tudo o que não era. Os parentes, porem, estimavam-no, e os companheiros tinham garbo em recordar o tempo em que Antenor era maluco.
Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava. Maria Antônia tremia de contentamento vendo Antenor com juízo. Mas Antenor, logicamente, desprezou-a propondo um concubinato que o não desmoralizasse a ele. Outras Marias ricas, de posição, eram de opinião da primeira Maria. Ele só tinha de escolher. No centro operário, a sua fama crescia, querido dos patrões burgueses e dos operários irmãos dos spartakistas da Alemanha. Foi eleito deputado por todos, e, especialmente, pelo presidente da República — a quem atacou logo, pois para a futura eleição o presidente seria outro. A sua ascensão só podia ser comparada à dos balões. Antenor esquecia o passado, amava a sua terra. Era o modelo da felicidade. Regulava admiravelmente.
Passaram-se assim anos. Todos os chefes políticos do País do Sol estavam na dificuldade de concordar no nome do novo senador, que fosse o expoente da norma, do bom senso. O nome de Antenor era cotado. Então Antenor passeava de automóvel pelas ruas centrais, para tomar pulso à opinião, quando os seus olhos deram na tabuleta do relojoeiro e lhe veio a memória.
— Bolas! E eu que esqueci! A minha cabeça está ali há tempo... Que acharia o relojoeiro? É capaz de tê-la vendido para o interior. Não posso ficar toda vida com uma cabeça de papelão!
Saltou. Entrou na casa do negociante. Era o mesmo que o servira.
— Há tempos deixei aqui uma cabeça.
— Não precisa dizer mais. Espero-o ansioso e admirado da sua ausência, desde que ia desmontar a sua cabeça.
— Ah! fez Antenor.
— Tem-se dado bem com a de papelão? — Assim...
— As cabeças de papelão não são más de todo. Fabricações por séries. Vendem-se muito.
— Mas a minha cabeça?
— Vou buscá-la.
Foi ao interior e trouxe um embrulho com respeitoso cuidado.
— Consertou-a?
— Não.
— Então, desarranjo grande?
O homem recuou.
— Senhor, na minha longa vida profissional jamais encontrei um aparelho igual, como perfeição, como acabamento, como precisão. Nenhuma cabeça regulará no mundo melhor do que a sua. É a placa sensível do tempo, das idéias, é o equilíbrio de todas as vibrações. O senhor não tem uma cabeça qualquer. Tem uma cabeça de exposição, uma cabeça de gênio, hors-concours.
Antenor ia entregar a cabeça de papelão. Mas conteve-se.
— Faça o obséquio de embrulhá-la.
— Não a coloca?
— Não.
— V.EX. faz bem. Quem possui uma cabeça assim não a usa todos os dias. Fatalmente dá na vista.
Mas Antenor era prudente, respeitador da harmonia social.
— Diga-me cá. Mesmo parada em casa, sem corda, numa redoma, talvez prejudique.
— Qual! V.EX. terá a primeira cabeça.
Antenor ficou seco.
— Pode ser que V., profissionalmente, tenha razão. Mas, para mim, a verdade é a dos outros, que sempre a julgaram desarranjada e não regulando bem. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão.
E, em vez de viver no País do Sol um rapaz chamado Antenor, que não conseguia ser nada tendo a cabeça mais admirável — um dos elementos mais ilustres do País do Sol foi Antenor, que conseguiu tudo com uma cabeça de papelão.
O texto acima foi extraído do livro "Antologia de Humorismo e Sátira", organizada por R. Magalhães Júnior, Editora Civilização Brasileira — Rio de Janeiro, 1957, pág. 196.
Fonte: releituras.com
Imagens: Google
Mais uma guerra em construção
September 2, 2013 8:35 - no comments yetWashington e seus governos-fantoches, da Grã-Bretanha e da França, aprontam-se para mais atos criminosos. A imagem do ocidente como criminoso-de-guerra não é imagem de propaganda criada por inimigos do ocidente: é o retrato que o próprio ocidente fez dele mesmo.
Por Paul Craig Roberts*, no IE - Institute for Political Economy
O Independent britânico noticia que, no fim de semana passado, Obama, Cameron e Hollande concordaram em lançar mísseis cruzadores em ataques à Síria no prazo de duas semanas, apesar de não haver qualquer autorização da ONU e apesar de não haver qualquer prova que confirme o que diz Washington, que o governo sírio teria usado armas químicas contra “rebeldes” apoiados por Washington e por forças externas também apoiadas por Washington e que tentam derrubar o governo sírio.
De fato, a pressa para iniciar a guerra advém do risco de os inspetores da ONU nada encontrarem que confirme o que Washington diz, e, muito provavelmente, de que encontrem provas do envolvimento de Washington no falso ataque de “rebeldes”, que reuniram grande número de crianças num local, para serem assassinadas por veneno, assassinato que, na sequência, Washington atribuiria ao governo sírio.
Outra razão pela qual a gangue tem pressa para começar a guerra é que Cameron, primeiro-ministro britânico quer a guerra já, antes que o Parlamento o enquadre e o impeça de dar cobertura aos crimes de guerra de Obama , exatamente como Tony Blair deu cobertura a George W. Bush – cobertura pela qual Blair foi devidamente recompensado. E o que interessaria a Cameron a vida de sírios, quando pode aposentar-se e mergulhar nos braços de uma fortuna de $50 milhões?
O governo sírio, sabendo que não é responsável pelo ataque com armas químicas, concordou em receber inspetores de armas químicas da ONU, para que determinem que substância foi usada e como foi usada. Mas Washington decretou que é “tarde demais” para inspetores da ONU e que Washington aceita a informação que lhes chega de “rebeldes” afiliados da Al-Qaida, que dizem que o governo sírio atacou civis com armas químicas.
Em tentativa para impedir que os inspetores da ONU que já chegaram à Síria façam seu trabalho, eles foram recebidos a tiros por atiradores em território ocupado pelos “rebeldes” e expulsos de lá, embora matéria distribuída mais tarde pela rede Russia Today informe que eles já retornaram ao local e prosseguem na inspeção.
O corrupto governo britânico declarou que a Síria pode(ria) ser atacada sem autorização da ONU, como a Sérvia e a Líbia foram militarmente atacadas sem autorização da ONU. Em outras palavras, as democracias ocidentais já estabeleceram o precedente para violarem a lei internacional. “Lei internacional? Não precisamos de porcaria nenhuma de lei internacional!” O ocidente só conhece uma regra: Força é Poder. Enquanto o ocidente tem a Força, o ocidente tem o Direito.
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| Serguei Lavrov |
Mais uma vez, Washington trata de impedir preventivamente qualquer esperança de acordo pacífico. Ao anunciar o próximo ataque, os EUA já destruíram qualquer incentivo para que os ‘rebeldes’ participem das conversações de paz com o governo sírio. Às vésperas daquelas conversações, os “rebeldes” já não tem qualquer incentivo para negociar qualquer paz, uma vez que os militares ocidentais estão vindo em seu socorro.
Em sua conferência de imprensa, Lavrov falou de como os partidos que governam EUA, Grã-Bretanha e França acionam as emoções de uma opinião pública mal informada, emoções que, uma vez acicatadas, têm de ser satisfeitas com mais guerra. Esse, claro, é exatamente o modo como os EUA manipularam a opinião pública para atacarem o Afeganistão e o Iraque. Mas o público norte-americano está farto das guerras, cujo objetivo jamais é declarado, e aprendeu a desconfiar dos pretextos dos governos para mais e mais guerras.
Pesquisa da Reuters/Ipsos determinou que “os norte-americanos opõem-se fortemente à intervenção de EUA na guerra civil síria e entendem que Washington deva manter-se fora do conflito, mesmo que se comprove que o governo sírio tenha usado produtos químicos mortais para atacar civis”. Mas Obama pouca importância dá ao fato de que só 9% dos norte-americanos aprovam sua obsessão belicista. Como o ex-presidente Jimmy Carter disse recentemente, “os EUA não têm democracia que funcione”. Têm um estado policial, cujo executivo se autoinstalou acima da lei e da Constituição.
Esse estado policial está agora a ponto de cometer mais um crime de guerra de estilo nazista, de agressão não provocada. Em Nuremberg, os nazistas foram condenados à morte, por ações exatamente idênticas às que têm sido cometidas por Obama, Cameron e Hollande. O ocidente investe na força, não no direito, para manter-se longe do banco dos réus.
Os governos de EUA, Grã-Bretanha e França não explicaram que diferença faz que as pessoas, nas guerras iniciadas pelo ocidente, sejam mortas por explosivos feitos de urânio baixo-enriquecido ou por agentes químicos ou por algum outro tipo de arma. Era óbvio, desde o começo, que Obama já assestava sua mira contra o governo sírio. Obama demonizou as armas químicas – mas não as bombas convencionais de perfuração, detona-bunkers, que os EUA talvez usem contra o Irã. Aconteceu quando Obama traçou sua tal linha vermelha e disse que o uso de armas químicas pelos sírios seria crime de tal ordem que o ocidente seria obrigado a atacar a Síria. Os fantoches britânicos de Washington, William Hague e Cameron, só fizeram repetir essa irracionalidade inominável. O passo final da farsa foi orquestrar um ataque químico e culpar o governo sírio.
Qual a real agenda do ocidente? Eis a pergunta que ninguém pergunta e ninguém responde. Claramente, os governos de EUA, Grã-Bretanha e França continuamente manifestaram apoio a regimes ditatoriais que serviram aos seus objetivos, e jamais se preocuparam com ditaduras. Chamam Assad de ditador como meio para demonizá-lo para massas ocidentais sempre mal informadas. Mas Washington, Grã-Bretanha e França apoiam número incontável de regimes ditatoriais, como no Barein, Arábia Saudita, e agora a ditadura militar no Egito, que assassina egípcios sem que nenhum governo ocidental fale de invadir o Egito porque o ditador egípcio está “matando seu próprio povo”.
Claramente também, o iminente ataque ocidental à Síria nada tem a ver com “liberdade e democracia” para a Síria, como tampouco alguma liberdade ou alguma democracia teve algum dia algo a ver com as razões para os ataques contra o Iraque e a Líbia – países que absolutamente não ganharam nenhuma liberdade e nenhuma democracia.O ataque do ocidente à Síria nada tem a ver com direitos humanos ou qualquer das altas causas sob as quais o ocidente mascara a própria criminalidade.
A imprensa-empresa ocidental, e menos que qualquer outra a presstitute norte-americana, jamais pergunta a Obama, Cameron, ou Hollande sobre qual é a real agenda deles. É difícil acreditar que algum repórter seja suficientemente estúpido ou enganável a ponto de crer que a agenda seria levar “liberdade e democracia” à Síria ou punir Assad por usar armas químicas contra gangues assassinas que tentam depor o governo sírio.
Claro que, mesmo que a pergunta fosse feita, não seria respondida. Mas o ato de perguntar ajudaria a opinião pública a começar a pressentir que há muito mais, nisso tudo, do que a vista alcança. Originalmente, o pretexto para as guerras de Washington foi proteger os norte-americanos contra terroristas. Agora Washington se dedica a entregar a Síria a jihadis terroristas, ajudando-os a derrubar o governo Assad – governo secular, não terrorista.
Qual a agenda que se oculta no apoio que Washington dá ao terrorismo?
O objetivo talvez seja fazer guerras que levem os muçulmanos ao radicalismo e, na sequência, desestabilizar a Rússia e até a China. A Rússia tem grandes populações muçulmanas e é cercada por países muçulmanos. Até na China há alguns muçulmanos. Com a radicalização invadindo os dois únicos países capazes de opor resistência à hegemonia mundial de Washington, a propaganda distribuída pela imprensa-empresa ocidental e grande número de ONGs financiadas pelos EUA fazendo pose de organizações “de direitos humanos”, é só esperar um pouco, e teremos Washington obrando para demonizar os governos de Rússia e China, se não tomarem medidas duras contra “rebeldes”.
Outra vantagem da radicalização dos muçulmanos é que outros países muçulmanos serão deixados entregues ao torvelinho de longas guerras civis, como já acontece no Iraque e na Líbia, o que removeria qualquer estado e poder organizado que pudesse obstruir os avanços de Israel.
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| John Kerry |
O secretário de Estado John Kerry trabalha pelo telefone, distribuindo ou ameaças ou propinas para construir aceitação, se não apoio, para o crime de guerra que se vai armando em Washington contra a Síria.
Washington corre a alta velocidade em direção ao ponto mais próximo de uma guerra nuclear, mais próximo do que jamais chegou nem nos mais perigosos períodos da Guerra Fria. Quando Washington tiver destruído a Síria, o alvo seguinte será o Irã. Nem Rússia nem China conseguirão se autoenganar e continuar a crer que ainda exista qualquer sistema de lei internacional capaz de conter o ímpeto criminoso do ocidente.
A agressão ocidental já está forçando os dois países a desenvolver forças nucleares estratégicas e a expulsar a rede de ONGs financiadas pelo ocidente que vivem a fazer pose de “organizações de direitos humanos”, mas que, de fato, são quintas-colunas que Washington pode usar para destruir a legitimidade dos governos russo e chinês.
Rússia e China foram extremamente negligentes nos contatos com os EUA. Na essência, a oposição política na Rússia é paga pelos EUA. Até o governo chinês está sendo minado. Cada vez que uma empresa norte-americana abre um escritório na China, inaugura um balcão de negócios no qual emprega parentes de políticos chineses. Essas empresas convertem-se em canais para distribuir dinheiro que influenciam decisões e lealdades de membros locais e regionais do partido comunista. Os EUA já se infiltraram nas universidades e nas atitudes intelectuais na China. A Universidade Rockefeller é ativa na China, e também a filantropia Rockefeller. Vão-se criando vozes dissidentes, que se arregimentam contra o governo chinês. Demandas por “mais liberdade” podem fazer ressuscitar diferenças regionais e étnicas e minar a coesão do governo nacional.
Quando, afinal, Rússia e China perceberem que estão minadas pelas quintas-colunas dos EUA, diplomaticamente isoladas e em inferioridade no campo do armamento convencional, só as armas atômicas serão fiadoras da soberania daqueles países. É altamente provável que a humanidade seja extinta bem antes de sucumbir ao aquecimento global ou ao crescente endividamento das nações.
Atualização:
Os criminosos de guerra de Washington e demais países ocidentais estão determinados a manter sua mentira de que o governo sírio usou armas químicas. Tendo falhado seus esforços para intimidar os inspetores da ONU, Washington exigiu que o Secretário Geral, Ban Ki-moon, os retirasse antes que pudessem avaliar as provas e fazer seu relatório. Ban Ki-moon discordou dos criminosos chefiados por Washington e rejeitou a demanda. Como se pode ver a decisão dos EUA “et caterva” não se baseia em fatos.
Os governos dos EUA e dos “poodles” europeus não revelaram quaisquer mínimas provas de que o governo sírio tivesse usado armas químicas.
Ouvir suas vozes, observar sua linguagem corporal e olhando bem dentro de seus olhos, fica completamente óbvio que John Kerry e seus fantoches britânicos, franceses e alemães mentem com seu sorriso irônico.
O que fazem é muito mais vergonhoso do que Colin Powell fez quando disse na ONU sobre a existência de “armas de destruição em massa” do Iraque onde afirmou que foi enganado pela Casa Branca e não sabia que estava mentindo. Kerry e seus “poodles” ingleses, franceses e alemães sabem muito bem que estão mentindo.
As caras que EUA e suas colônias europeias apresentam ao mundo são as caras-de-pau dos mentirosos.
_______________
[*] Paul Craig Roberts (nascido em 3 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica.
Durante o século 21, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos.
Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.
Fonte: Vermelho
Imagem: Google
Medicina cubana...
August 31, 2013 14:43 - no comments yetpor Najla Passos na Agencia CartaMaior
A médica cubana Ceramides Almora Carbonell, 42 anos, falava emocionada da recepção calorosa dos brasileiros, quando concedeu entrevista à Carta Maior nos corredores da Fiocruz, em Brasília, onde médicos brasileiros e estrangeiros que irão atuar no Programa Mais Médicos participam de um curso de formação. Na entrevista à Carta Maior, ela fala sobre sua experiência como médica e sobre a situação da saúde em seu país.
Brasília - A médica cubana Ceramides Almora Carbonell, 42 anos, ainda falava emocionada da recepção calorosa dos brasileiros, quando a encontrei nos corredores da Fiocruz, em Brasília, onde médicos brasileiros e estrangeiros que irão atuar no Programa Mais Médicos participam de um curso de formação. Ela nasceu em Guane, um pequeno município de 35 mil habitantes na província de Pinar del Rio, famosa pela produção dos charutos cubanos. Aos 5 anos, mudou-se para a capital, onde cursou o estudo básico e médio. Com 17 anos de prática médica e experiências internacionais em Honduras e Bolívia, está divorciada há dois anos e não possui filhos. Decidi iniciar por aí nossa entrevista.
- É mais fácil deixar seu país quando não se tem marido e filhos?, questionei.
“Não tenho marido e filhos, mas tenho família: pai, mãe, irmão. Mas mesmo meus colegas que têm filhos, não temem deixá-los porque sabem que, em Cuba, eles serão muito bem assistidos, terão acesso gratuito à educação e saúde de qualidade. Além disso, os colegas médicos que permanecem na ilha criam uma espécie de rede de solidariedade para atender as famílias dos que estão fora. Nossos companheiros policlínicos visitam nossas famílias e cuidam para que sejam assistida nas suas necessidades. Eles ligam para meus pais, visitam minha casa e, assim, posso viajar tranquila”, explicou.
- Seus pais também são médicos?
“Não. Eles são professores, já aposentados".
- E seu irmão, é médico?
“Não, eletricista. Sou a única médica da família”.
- E como você decidiu fazer medicina?
"Em Cuba, as escolas promovem ciclos de interesse que vão combinando as coisas que você gosta desde pequena. Por exemplo, vão bombeiros, professores, esportistas e vários outros profissionais, dentre eles os médicos. Isso para formar, desde pequeno, conhecimento sobre todas as áreas. Eu sempre gostei sempre da medicina. No ensino médio, participei do ciclo de interesse de cirurgia experimental e, depois, ainda participei do ciclo de medicina geral e integrada, ainda em Pinar Del Rio. Depois passei pela faculdade de medicina, seis anos de muito estudo. Era um período muito duro. Mas consegui nota máxima em todas as disciplinas. Em seguida, prestei os dois anos de serviço social obrigatório em Guane".
- Você voltou a sua cidade natal para clinicar?
"Sim, é uma cidade muito pequena, mas gosto muito de trabalhar lá".
- Não fez nenhuma especialização?
"Depois do serviço social, fiz três anos de especialização em medicina geral e integrada, como todos os médicos cubanos que vieram para o Brasil. Seria o equivalente, aqui no Brasil, a medicina familiar, que ensina ver a pessoa no seu conjunto. Fiz a especialização em dois níveis. Sou mestre em Procedimento e a Diagnósticos Primários de Atenção à Saúde".
- E como você aprendeu o português?
Meu pai morou na Guiné Bissau por um ano e se apaixonou pelo idioma. Ele me ensinava desde que eu era bem pequena.
- Você disse que, em Cuba, os estudantes escolhem fazer medicina por vocação. No Brasil, os cursos de medicina são os mais caros, nas universidades particulares, e os mais concorridos, nas universidades públicas e, com isso, acaba que praticamente só os mais ricos, que têm como pagar uma educação de maior qualidade, conseguem acesso a eles.
"Em Cuba, a oportunidade é a mesma para todos os cubanos. Primeiro, não há classes sociais diferentes. Todos somos iguais. Não há discriminações por sexo ou raça. Sou mulher, sou mulata, mas estou aqui como todos os outros companheiros da brigada."
- Os brasileiros têm muita dificuldade em entender como vocês podem vir para cá sem receber o mesmo salário pago aos demais profissionais que integram o programa, como vocês aceitam que parte dos seus salários seja retida pelo governo. Como você vê isso?
"Eu conheço essa polêmica capitalista. É que vocês não entendem que nós não trabalhamos por dinheiro, mas por solidariedade, humanismo. O comandante Fidel Castro, nosso líder nacional e também latino-americano e mundial, tem uma frase que diz que “ser internacionalista é saldar nossa própria dívida com a humanidade”. E nós carregamos esse conceito em nosso coração. Desde pequenos, já aprendemos sobre internacionalismo, solidariedade, honradez, bondade, profissionalismo. Eu acho até que o povo cubano não poderia viver sem esses conceitos, que estão na base da sua cultura. Como diz nossa ministra da Saúde, temos um recurso muito grande, que é nosso próprio conhecimento e o amor do nosso povo por outros povos irmãos".
- Você falou que já esteve em outras missões internacionais...
"Sim, trabalhei por dois anos na Bolívia, em Potosí, o departamento mais pobre do país. Um lugar cheio de riquezas, mas onde o povo é muito pobre.
Também atuei em Três Cruzes, uma aldeia muito pequena e pobre. Lá, eu tive o prazer de trabalhar muito e conseguir inaugurar um hospital. Em Honduras, trabalhei em Nova Esperança, em municípios muito pobres.
- E, nesses locais, vocês tinham acesso a equipamentos, infraestrutura e tecnologia para atender adequadamente os pacientes?
"Não. Nós trabalhávamos com o método clínico. Nós examinávamos os pacientes. Tocávamos as pessoas, conversávamos com os doentes. A falta de tecnologia não é problema para mim e nem para a brigada cubana, que trabalha muito com este método. E é com isso que esperamos melhorar muito a saúde do seu povo. Muitos países não têm dinheiro para pagar a tecnologia avançada. Sei usar um ultrassom, mas pratico muito o método clínico".
- Outra crítica das entidades médicas brasileiras é que, em Cuba, por conta do longo embargo econômico, o acesso à tecnologia é muito restrito, o que provoca uma defasagem na formação dos médicos e os impossibilita de atuar adequadamente no Brasil. Você concorda com isso?
"Cuba é um país pobre e bloqueado, mas nossos indicadores de saúde são excelentes. E isso não tem a ver com muita tecnologia. Estamos entre os cinco países com menor índice de mortalidade infantil: menos de 4,5 por mil nascidos vivos. Isso é graças ao nosso esforço, porque estudamos muito, investimos em pesquisas, praticamos muito o método clínico, e isso faz a diferença. Também temos uma vigilância epidemiológica muito boa, fundamental para todos. E a saúde cubana é multissetorial: até a população participa. A dengue, por exemplo, é uma doença transmissível. Se o governo não educa sua população, todos morremos.
- Há dengue em Cuba?
"Não, não há. Eu citei a dengue porque é uma doença comum no Brasil. Já atendi muitos pacientes com dengue, mas em Honduras. Não em Cuba, que temos uma vigilância epidemiológica forte. E nem na Bolívia, porque atuei no altiplano, onde é muito frio".
Fonte: Jader Resende
Imagens: Google
Ocidentais prontos para bombardear a Síria?
August 31, 2013 11:17 - no comments yetFingindo crer num ataque químico do governo sírio contra o seu próprio povo, Washington, Londres e Paris fazem soar os tambores da guerra. Deve-se tomar a sério estas ameaças por parte de Estados que anunciam como iminente, desde há mais de dois anos, a queda da Síria?
Por Thierry Meyssan, no Rede Voltaire
Domingo 25 de Agosto, a Casa-Branca difundiu um comunicado, no qual um alto funcionário anônimo explicava que há "muito poucas de dúvidas" do uso pela Síria de armas químicas contra a sua oposição. O comunicado acrescenta que o acordo da Síria para deixar entrar os inspetores da ONU, na zona atingida, chega "muito tarde para ser crível".
Mesmo que o uso de armas químicas nos arredores de Damasco, na quarta-feira 21 de agosto de 2013 tenha muito provavelmente acontecido, o Conselho de segurança das Nações Unidas não concluiu que tenha sido da responsabilidade do governo sírio.
Reunido de urgência a pedido dos ocidentais, os embaixadores tiveram a surpresa de ver o seu colega russo apresentar-lhes fotos de satélite mostrando o disparo de dois obuses, às 1h35 da manhã, a partir da zona rebelde de Duma, nos locais rebeldes afetados pelo gás (em Jobar, e entre Arbin e Zamalka), a horas coincidentes com as confusões relatadas.
As fotografias não permitem saber se se tratou de obuses químicos, mas elas deixam supôr que a "Brigada do islã", que ocupa Duma, tentou matar dois coelhos duma cajadada só : por um lado eliminar os apoios dos seus rivais no seio da oposição, por outro lado acusar a Síria de ter recorrido a armas químicas, a fim de perturbar a ofensiva do exército árabe sírio para limpar a região à volta da capital.
Embora o governo sírio — como o seu inimigo israelense — não seja signatário da Convenção contra as armas químicas e disponha de estoques importantes, os jihadistas também os têm, como o confirmou Carla del Ponte para grande fúria do alto-Comissário dos Direitos do homem.
Em dezembro, o Exército sírio livre difundiu um vídeo mostrando um laboratório químico e ameaçando os alauítas.
Esta semana, o governo descobriu vários esconderijos de armas químicas, de máscaras de gás e de antídotos, na circunvizinhança de Damasco.
Os produtos vinham da Arábia saudita, do Catar, dos Estados-Unidos e dos Países-Baixos. Foi, aliás, a pedido do governo sírio, e não dos ocidentais, que os inspetores da ONU se deslocaram à Síria por duas semanas, afim de inquirir sobre estas alegações de uso das mesmas. Enfim, a 29 de maio de 2013, a polícia turca prendeu uma dezena de membros da Frente Al-Nusra e apreendeu armas químicas que deveriam ser utilizadas na Síria.
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| Samantha Power e Obama |
Ora, sexta-feira o presidente Obama reunia o seu Conselho nacional de segurança para examinar as opções de ataque contra a Síria, na presença da embaixadora Samantha Power chefe de fila dos falcões liberais. Ele decidiu reforçar a presença militar dos EUA no Mediterrâneo enviando para lá um quarto destroier, carregado de misseis de cruzeiro, o USS Ramage. Este junta-se ao USS Gravely, ao USS Barry e ao USS Mahan que é mantido na zona quando já devia ter retornado à
base.
Sábado, ele telefonou ao primeiro-ministro britânico David Cameron. E domingo, falou com o presidente francês François Hollande. Os três homens acordaram que era preciso intervir sem precisar de que modo. Domingo ainda, o secretário de Estado John Kerry ligou aos seus homólogos britânico, francês, canadiano e russo para lhes dizer que os Estados Unidos tinham a convicção que a Síria tinha passado a "linha vermelha".
Se os seus três primeiros interlocutores o escutaram com subserviência, o russo Serguei Lavrov espantou-se, que Washington se pronunciasse antes do relatório dos inspetores das Nações Unidas. Ele avisou-o sobre as "consequências extremamente graves" que terá uma intervenção na região.
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| Yaakov Amidror |
Segunda -feira o ministro francês da Defesa, Jean-Yves Le Drian estava no Catar e devia dirigir-se em seguida aos Emirados para se coordenar com eles.
Enquanto o conselheiro de segurança nacional israelense, o general Yaakov Amidror, era recebido na Casa Branca.
Quando de uma entrevista telefônica entre o primeiro-ministro britânico David Cameron e o presidente russo Vladimir Putin, este ultimo sublinhou que não existia nenhuma prova do uso de armas químicas pela Síria. Pelo seu lado, o vice-ministro das Relações Exteriores chinês, Li Baodong, telefonou ao seu homólogo Duma, Wendy R. Sherman, para apelar à contenção dos Estados Unidos. Consciente do risco de guerra regional, de que os cristãos seriam as primeiras vítimas, o papa Francisco reiterou os seus apelos à paz.
Pode-se, por isso, pensar que os ocidentais vão entrar em guerra sem mandato do Conselho de segurança, como a Otan o fez na Iugoslávia? É pouco provável, porque na altura a Rússia estava em ruínas, hoje em dia ela deverá intervir após ter emitido três vetos para proteger a Síria ou renunciar qualquer ação no cenário internacional.
Entretanto Serguei Lavrov afastou sábiamente uma Terceira Guerra mundial. Ele indicou que o seu país não estava interessado em entrar em guerra contra seja quem fôr, mesmo que fosse a propósito da Síria. Poderá no entanto tratar-se de uma intervenção indireta de apoio à Síria, como o fez a China durante a guerra do Vietnã.
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| Massoud Jazayeri |
O Irã fez então saber, por intermédio do seu chefe de estado-maior adjunto, Massoud Jazayeri, que para ele o ataque à Síria seria passar da "linha vermelha" e que, se fosse à ação, a Casa Branca sofreria "graves consequências".
É claro que o Irã não tem nem os meios da Rússia, nem os seus apoios, mas está seguramente no clube das 10 primeiras potências militares mundiais. Desde logo, atacar a Síria, é arriscar uma resposta sobre Israel, e levantamentos numa grande parte do mundo árabe nomeadamente na Arábia saudita. A recente intervenção do Hezbolá libanês e as declarações do seu secretário-geral Hassan Nasrallah, como as da organização palestinaa FPLP - Comando geral, não deixam qualquer dúvida.
Interrogado pela imprensa russa, o presidente sírio Bachar al-Assad, disse : "As declarações emitidas pelos políticos americanos, ocidentais e de outros países, constituem um insulto ao bom senso e uma expressão de desprezo em relação à opinião pública manifestada pelos seus povos. É um contra-senso: primeiro acusa-se, depois então reúnem as provas. Esta ação é levada a cabo por um país poderoso, os Estados Unidos (…) Este gênero de acusação é exclusivamente político, é uma resposta à série de vitórias registadas pelas forças governamentais sobre os terroristas".
Na Rússia, o presidente da Comissão dos Negócios estrangeiros da Duma, o jornalista e o geopolítico Alexei Putchkov, comentou na sua conta do Twitter : "Washington e Londres declararam Al-Assad culpado muito antes das conclusões dos inspetores da ONU. Eles só aceitarão um veredicto de culpabilidade. Qualquer outra conclusão será rejeitada".
O princípio de uma nova guerra na Síria quadra mal com os problemas economicos dos Estados Unidos e dos Europeus. Se vender armas é um meio de ganhar dinheiro, destruir um Estado sem esperar o retorno do investimento à curto ou médio prazo, só poderá agravar a situação.
Segundo uma sondagem Reuters/Ipsos realizada após o ataque de 21 de agosto, 60% dos estadunidenses opõem-se a uma intervenção na Síria, contra 9% que lhe são favoráveis. Se fossem convencidos do emprego de armas químicas pela Síria, teríamos 46 % a opor-se à guerra, enquanto passariam 25 % a apoiá-la. A mesma sondagem indica que os estadunidenses apreciam ainda menos a guerra secreta : São 89% a declarar que não se deve armar mais os rebeldes, contra 11% que apoiam tal. Por fim, quatro opções eram propostas aos entrevistados: ataques aéreos (apoiados par 12%), a criação de uma zona de exclusão aérea (11%), o financiamento de uma força multinacional (9%), e uma intervenção direta dos EUA (4 %).
Em França, o Le Figaro, editado pelo vendedor de armas Dassault, pôs a questão aos seus leitores: no final de um dia, tinha-se 79,60% em oposição à guerra contra 20,40% a apoiá-la.
Será certamente difícil para os ocidentais mudarem as suas opiniões públicas, e entrarem em guerra.
Uma outra interpretação dos acontecimentos é possível: certos vídeos mostrando as vítimas dos ataques químicos circularam na Internet algumas horas antes dos ataques. Será, pois, sempre possível aos ocidentais "descobrirem" a trafulhice na altura conveniente e fazer marcha-a-ré. Entretanto o assunto das armas químicas no Iraque mostrou que os ocidentais podiam mentir à comunidade internacional e reconhecê-lo, sem problemas, uma vez o seu fato consumado.
As acusações dos jihadistas, e dos seus patrocinadores ocidentais, acontecem quando o Exército árabe sírio lançava uma vasta ofensiva, "Escudo de Damasco", para limpar a área da capital. O disparo de dois obuses pela "Brigada do Islã" corresponde ao início desta ofensiva, que se desenrolou durante 5 dias e se saldou por importantes perdas entre os jihadistas (pelo menos 1.500 feridos e mortos, entre 25.000 efetivos). Toda esta agitação poderá não ser mais que um episódio de guerra psicológica, tanto para mascarar esta derrota como para tentar paralisar a ofensiva síria. Sobretudo um meio para Washington testar a resposta iraniana, após a eleição do xeque Hassan Rohani à presidência. E, é agora claro que este não se poderá opor à política do Líder Supremo da Revolução Islãmica, o aiatolá Ali Khamenei.
Entretanto, durante a guerra contra a Líbia, eu subestimei a possibilidade dos Estados Unidos violarem todas as regras, incluindo as da Otan. Enquanto, baseando-me em documentação da Aliança atlântica, eu insistia sobre a grande capacidade de resistência da Jamahiria face à sua oposição armada, ignorava a realização de uma reunião secreta na base da Otan em Nápoles, nas costas do Conselho do Atlântico.
À época, os Estados Unidos, o Reino Unido, a França, a Dinamarca e a Turquia, assim como Israel, o Catar e a Jordânia planificavam, em segredo, o uso dos meios da Aliança para bombardear Trípoli [1].
Não confiando nos seus aliados, que eles sabiam opôr-se a um ataque tão custoso em vidas humanas, não os informaram. A Aliança atlântica não funcionava mais como uma Aliança própriamente dita, mas sim como uma Coligação ad hoc. Em alguns dias, a tomada de Trípoli fez pelo menos 40.000 mortos, segundo os relatórios internos da Cruz Vermelha.
Um dispositivo semelhante está, talvez, em curso de ser formado: os chefes de estado-maior do mesmo grupo (quase) de Estados, mais a Arábia saudita e o Canadá, têm estado reunidos, desde domingo até esta tarde, em Amã, sob a presidência do comandante do CentCom, o general Lloyd J. Austin III.
Eles encaram cinco opções possíveis (fornecimentos de armas aos "rebeldes"; bombardeios dirigidos; criação de uma zona de exclusão aérea; criação de zonas tampão; e invasão terrestre).
A imprensa atlantista clama pela guerra. O Times de Londres anuncia-a.
O presidente Barack Obama poderá assim seguir o plano de guerra estabelecido pelo seu predecessor George W. Bush, em 15 de setembro de 2001, que previa, para além dos ataques ao Afeganistão e Iraque, os da Líbia e da Síria, como o revelou o antigo comandante da Otan, o general Wesley Clark [2]. Salvo que, pela primeira vez, o alvo dispõe de sérios aliados.
Todavia, a nova retórica dos EUA contradiz a soma de esforços da administração Obama, desde há um ano, aplicada a eliminar os obstáculos à realização da conferência de Genebra 2: demissão do general David Petraeus e dos partidários da guerra secreta; fim do mandato de Hillary Clinton e dos ultra-sionistas; avaliação dos opositores irredutíveis a uma aliança com a Rússia, nomeadamente no seio da Otan e do Escudo anti-mísseis. Ela contradiz também os esforços de John Brennan de provocar confrontos no seio da oposição armada síria; de exigir a abdicação do emir do Catar; e de ameaçar a Arábia saudita.
Do lado sírio, preparam-se como podem para qualquer eventualidade, e, incluindo um bombardeio da Otan contra os centros de comando e os ministérios, coordenado com um assalto de jihadistas contra a capital. No entanto a opção mais provável não é o desencadear de uma guerra regional, que fugiria ao controle das potências ocidentais. Será, provavelmente, um ataque, no outono, supervisionado pela Arábia saudita, e endossado pelos combatentes que ela recruta atualmente. Eventualmente, esta operação poderia ser apoiada pela Liga árabe.
Notas:
[1] O relevo das decisões desta reunião incluía uma longa lista de alvos e dos meios que lhe foram destinados. Uma alínea previa o envio de um comando ao hotel Radisson onde eu residia, para me eliminar. Entretanto, aquando do ataque, eu encontrava-me no Centro de imprensa do hotel Rixos.
[2] Este plano previa, igualmente, destruir o Líbano, depois o Sudão e a Somália e acabar com o Irã.
Fonte: Rede Voltaire
Imagens: Google

























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