Acordo de paz ou jogada de marketing?
2 de Agosto de 2013, 12:21 - sem comentários aindaPor Marino Boeira*
Um acordo de paz permanente entre palestinos e judeus é uma meta que deve ser desejada por todos, mas as novas conversações entre Israel e a Autoridade Palestina, promovidas pelo Secretário de Estado Norte-Americano, John Kerry, parecem mais uma jogada de marketing político do governo Obama do que realmente um esforço para superar as antigas divergências que separam os dois povos.
A partir de 1993, em Oslo, sob o patrocínio de outro presidente americano, Bill Clinton, judeus e palestinos começaram uma série de reuniões que terminaram em setembro de 1995, com os chamados acordos Oslo II, que permitiriam a criação de um Estado Palestino, ainda que fragmentado, cinco anos mais tarde, nas regiões da Cisjordânia e Faixa de Gaza.
| Yitzhak Rabin, Bill Clinton e o líder palestino Yasser Arafat |
Sob pressão americana, o dirigente histórico da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat, foi obrigado a assinar um acordo pelo qual a Palestina era dividida em três áreas. A Zona A, sob total controle da ANP, representava 3% dos territórios ocupados e 20% da população, enquanto a Zona B (controle militar israelense e civil palestino) compreendia 24% do território e 68% da população (os territórios das Zonas A e B são completamente fragmentados, sem continuidade). A Zona C, incluindo Jerusalém Oriental, com 73% do território e 12% da população, permanecia sob total controle israelense e nela se intensificou a construção de colônias judaicas e rodovias estratégicas.
Outras reivindicações históricas dos palestinos desde a criação do Estado de Israel, em 1948, como a volta às fronteiras existentes até 1967, o retorno dos palestinos expulsos de suas terras e a questão da divisão de Jerusalém, sequer foram discutidas.
Mesmo com todas estas concessões, Israel nunca cumpriu o que prometera em Oslo. Yitzhak Rabin, que assinou o acordo de paz com Arafat, seria assassinado por extremistas judeus de direita cinco semanas após e o seu governo de centro esquerda, substituído, mais adiante, por outro formado por uma coalizão de direitistas e partidos religiosos, para os quais nenhuma concessão deveria ser feita aos palestinos.
Na visão estratégica dos fundadores e dos principais líderes do Estado de Israel, como David Bem-Gurion, Golda Meir, Moshe Dayan e Menachen Begin, a paz com os árabes nunca foi uma perspectiva aceitável, muito menos a consolidação de um Estado Palestino na região. Na visão militarizada desses líderes, a sobrevivência de Israel, além do permanente apoio material dos Estados Unidos, só seria possível com apropriação das terras e dos mananciais de água dos palestinos. Por isso, a guerra, muito mais do que a paz, sempre esteve entre seus principais objetivos.
Com algumas nuances pouco marcantes, esta foi sempre a estratégia dos governos de Israel. Quando a pressão internacional era muito grande, eram feitas algumas concessões aos palestinos, mas no essencial a política de ocupação das terras árabes por colonos judeus nunca foi interrompida.
Sem perspectivas de alcançar algum sucesso pelas vias políticas, os palestinos, também estimulados pela expulsão dos judeus do sul do Líbano, lançaram a segunda Intifada (guerra das pedras) contra os soldados e os colonos israelenses nas regiões ocupadas, a partir do ano 2.000, causando em seis anos mais do que 5 mil mortos, a maioria palestinos.
No final do ano passado, a ONU aprovou o pedido da Autoridade Palestina para se tornar um Estado observador nas Nações Unidas por 138 votos a favor, inclusive com o voto do Brasil, 9 contra e 41 abstenções. Na prática, porém, pouco mudou e o que mudou foi para pior: os fundos de auxílio dos Estados Unidos à Autoridade Palestina foram congelados pelo Congresso Americano e Israel bloqueou o repasse mensal de US$ 100 milhões em taxas alfandegárias e impostos sobre vendas, a que a Autoridade Palestina tem direito sobre o seu comércio com outros países.
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| Mahamoud Abbas |
Há semanas atrás, antecedendo à vista de Kerry, Obama esteve na Palestina para negociar a realização da chamada Conferência de Paz. Primeiro, anunciou que o atual acordo de ajuda militar a Israel, que terminaria em 2017, será ampliado por mais 10 anos a um custo de 3 bilhões de dólares anuais. Depois, garantiu o repasse imediato de 200 milhões de dólares à Autoridade Palestina e mais 500 milhões nos próximos dias, dos fundos que estavam congelados.
Satisfeitas as necessidades financeiras dos palestinos e militares dos israelenses, foi possível a Obama assumir o papel de mediador no processo de paz.
Para mostrar colaboração, Israel libertou 140 presos políticos palestinos.
Armado o circo, John Kerry anunciou que a gestação do acordo de paz deve durar nove meses, assim como acontece com os seres humanos.
Vamos esperar que não seja parido um monstro, embora a negociadora israelense, a ministra Tzipi Livni, já tenha antecipado poucas esperanças de sucesso na empreitada.
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| Tzipi Livni |
Disse ela: "Temos ministros que não querem chegar a um acordo, nem ouvir falar da ideia de dois Estados, temos outros ministros que são indiferentes, mas que esperam que nenhum resultado seja alcançado, e outros membros do governo que desejam alcançar o fim do conflito".
Ela fazia referência aos ministros da ala radical do Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e do nacionalista Lar Judeu, que são hostis à criação de um Estado palestino.
Livni também fez referência ao partido de centro-direita Yesh Atid de Yair Lapid, o ministro das Finanças, que até o momento não considera que o processo de paz seja uma prioridade
Enquanto isso quem vai ganhar ou perder nesses nove meses?
Em primeiro lugar, ganha o Presidente Obama, pelo menos enquanto durar a conferência entre palestinos e judeus.
Depois, os israelenses, que poderão continuar com suas políticas expansionistas sobre terras palestinas sem a ameaça de maiores represálias.
Ganha o governo da Autoridade Palestina, que terá alguns meses de desafogo financeiro.
Quem perde?
Como sempre aconteceu até agora, serão os palestinos na sua esperança de construir um estado nacional, independente, moderno e democrático.
Ela fazia referência aos ministros da ala radical do Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e do nacionalista Lar Judeu, que são hostis à criação de um Estado palestino.
Livni também fez referência ao partido de centro-direita Yesh Atid de Yair Lapid, o ministro das Finanças, que até o momento não considera que o processo de paz seja uma prioridade
Enquanto isso quem vai ganhar ou perder nesses nove meses?
Em primeiro lugar, ganha o Presidente Obama, pelo menos enquanto durar a conferência entre palestinos e judeus.
Depois, os israelenses, que poderão continuar com suas políticas expansionistas sobre terras palestinas sem a ameaça de maiores represálias.
Ganha o governo da Autoridade Palestina, que terá alguns meses de desafogo financeiro.
Quem perde?
Como sempre aconteceu até agora, serão os palestinos na sua esperança de construir um estado nacional, independente, moderno e democrático.
*Marino Boeira é professor universitário
Fonte: Sul21
Imagens: Google
Acordo de paz ou jogada de marketing?
2 de Agosto de 2013, 12:21 - sem comentários aindaPor Marino Boeira*
Um acordo de paz permanente entre palestinos e judeus é uma meta que deve ser desejada por todos, mas as novas conversações entre Israel e a Autoridade Palestina, promovidas pelo Secretário de Estado Norte-Americano, John Kerry, parecem mais uma jogada de marketing político do governo Obama do que realmente um esforço para superar as antigas divergências que separam os dois povos.
A partir de 1993, em Oslo, sob o patrocínio de outro presidente americano, Bill Clinton, judeus e palestinos começaram uma série de reuniões que terminaram em setembro de 1995, com os chamados acordos Oslo II, que permitiriam a criação de um Estado Palestino, ainda que fragmentado, cinco anos mais tarde, nas regiões da Cisjordânia e Faixa de Gaza.
| Yitzhak Rabin, Bill Clinton e o líder palestino Yasser Arafat |
Sob pressão americana, o dirigente histórico da Autoridade Nacional Palestina, Yasser Arafat, foi obrigado a assinar um acordo pelo qual a Palestina era dividida em três áreas. A Zona A, sob total controle da ANP, representava 3% dos territórios ocupados e 20% da população, enquanto a Zona B (controle militar israelense e civil palestino) compreendia 24% do território e 68% da população (os territórios das Zonas A e B são completamente fragmentados, sem continuidade). A Zona C, incluindo Jerusalém Oriental, com 73% do território e 12% da população, permanecia sob total controle israelense e nela se intensificou a construção de colônias judaicas e rodovias estratégicas.
Outras reivindicações históricas dos palestinos desde a criação do Estado de Israel, em 1948, como a volta às fronteiras existentes até 1967, o retorno dos palestinos expulsos de suas terras e a questão da divisão de Jerusalém, sequer foram discutidas.
Mesmo com todas estas concessões, Israel nunca cumpriu o que prometera em Oslo. Yitzhak Rabin, que assinou o acordo de paz com Arafat, seria assassinado por extremistas judeus de direita cinco semanas após e o seu governo de centro esquerda, substituído, mais adiante, por outro formado por uma coalizão de direitistas e partidos religiosos, para os quais nenhuma concessão deveria ser feita aos palestinos.
Na visão estratégica dos fundadores e dos principais líderes do Estado de Israel, como David Bem-Gurion, Golda Meir, Moshe Dayan e Menachen Begin, a paz com os árabes nunca foi uma perspectiva aceitável, muito menos a consolidação de um Estado Palestino na região. Na visão militarizada desses líderes, a sobrevivência de Israel, além do permanente apoio material dos Estados Unidos, só seria possível com apropriação das terras e dos mananciais de água dos palestinos. Por isso, a guerra, muito mais do que a paz, sempre esteve entre seus principais objetivos.
Com algumas nuances pouco marcantes, esta foi sempre a estratégia dos governos de Israel. Quando a pressão internacional era muito grande, eram feitas algumas concessões aos palestinos, mas no essencial a política de ocupação das terras árabes por colonos judeus nunca foi interrompida.
Sem perspectivas de alcançar algum sucesso pelas vias políticas, os palestinos, também estimulados pela expulsão dos judeus do sul do Líbano, lançaram a segunda Intifada (guerra das pedras) contra os soldados e os colonos israelenses nas regiões ocupadas, a partir do ano 2.000, causando em seis anos mais do que 5 mil mortos, a maioria palestinos.
No final do ano passado, a ONU aprovou o pedido da Autoridade Palestina para se tornar um Estado observador nas Nações Unidas por 138 votos a favor, inclusive com o voto do Brasil, 9 contra e 41 abstenções. Na prática, porém, pouco mudou e o que mudou foi para pior: os fundos de auxílio dos Estados Unidos à Autoridade Palestina foram congelados pelo Congresso Americano e Israel bloqueou o repasse mensal de US$ 100 milhões em taxas alfandegárias e impostos sobre vendas, a que a Autoridade Palestina tem direito sobre o seu comércio com outros países.
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| Mahamoud Abbas |
Há semanas atrás, antecedendo à vista de Kerry, Obama esteve na Palestina para negociar a realização da chamada Conferência de Paz. Primeiro, anunciou que o atual acordo de ajuda militar a Israel, que terminaria em 2017, será ampliado por mais 10 anos a um custo de 3 bilhões de dólares anuais. Depois, garantiu o repasse imediato de 200 milhões de dólares à Autoridade Palestina e mais 500 milhões nos próximos dias, dos fundos que estavam congelados.
Satisfeitas as necessidades financeiras dos palestinos e militares dos israelenses, foi possível a Obama assumir o papel de mediador no processo de paz.
Para mostrar colaboração, Israel libertou 140 presos políticos palestinos.
Armado o circo, John Kerry anunciou que a gestação do acordo de paz deve durar nove meses, assim como acontece com os seres humanos.
Vamos esperar que não seja parido um monstro, embora a negociadora israelense, a ministra Tzipi Livni, já tenha antecipado poucas esperanças de sucesso na empreitada.
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| Tzipi Livni |
Disse ela: "Temos ministros que não querem chegar a um acordo, nem ouvir falar da ideia de dois Estados, temos outros ministros que são indiferentes, mas que esperam que nenhum resultado seja alcançado, e outros membros do governo que desejam alcançar o fim do conflito".
Ela fazia referência aos ministros da ala radical do Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e do nacionalista Lar Judeu, que são hostis à criação de um Estado palestino.
Livni também fez referência ao partido de centro-direita Yesh Atid de Yair Lapid, o ministro das Finanças, que até o momento não considera que o processo de paz seja uma prioridade
Enquanto isso quem vai ganhar ou perder nesses nove meses?
Em primeiro lugar, ganha o Presidente Obama, pelo menos enquanto durar a conferência entre palestinos e judeus.
Depois, os israelenses, que poderão continuar com suas políticas expansionistas sobre terras palestinas sem a ameaça de maiores represálias.
Ganha o governo da Autoridade Palestina, que terá alguns meses de desafogo financeiro.
Quem perde?
Como sempre aconteceu até agora, serão os palestinos na sua esperança de construir um estado nacional, independente, moderno e democrático.
Ela fazia referência aos ministros da ala radical do Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e do nacionalista Lar Judeu, que são hostis à criação de um Estado palestino.
Livni também fez referência ao partido de centro-direita Yesh Atid de Yair Lapid, o ministro das Finanças, que até o momento não considera que o processo de paz seja uma prioridade
Enquanto isso quem vai ganhar ou perder nesses nove meses?
Em primeiro lugar, ganha o Presidente Obama, pelo menos enquanto durar a conferência entre palestinos e judeus.
Depois, os israelenses, que poderão continuar com suas políticas expansionistas sobre terras palestinas sem a ameaça de maiores represálias.
Ganha o governo da Autoridade Palestina, que terá alguns meses de desafogo financeiro.
Quem perde?
Como sempre aconteceu até agora, serão os palestinos na sua esperança de construir um estado nacional, independente, moderno e democrático.
*Marino Boeira é professor universitário
Fonte: Sul21
Imagens: Google
A Voz de um Lobo solitário
1 de Agosto de 2013, 21:04 - sem comentários ainda========================================================
Fonte: Pense fora da caixa
Adaptado por este blog
EUA querem Estado palestino em nove meses
31 de Julho de 2013, 22:44 - sem comentários ainda![]() |
| Saeb Erekat, John Kerry, Tzipi Livni e um Pacto de absoluto sigilo??? |
WASHINGTON – Da primeira conversa cara a cara em três anos, emergiram três pontos concretos – a duração do processo de paz, o conteúdo do debate e um pacto de absoluto sigilo através do qual somente o secretário de Estado americano, John Kerry, ficará autorizado a comentar o andamento das negociações de paz entre israelenses e palestinos. O prazo fixado para um acordo foi de nove meses. E as partes garantem que sobre a mesa estarão todos os pontos nevrálgicos, como a divisão de Jerusalém, as fronteiras da Palestina, a segurança de Israel e a compensação aos refugiados palestinos de 1948 e 1967.
Sob um clima de cautela e ceticismo, uma interferência causou surpresa: a do presidente americano, Barack Obama, que decidiu intervir pessoalmente para dar mais credibilidade às negociações. Obama recebeu os negociadores na Casa Branca ao lado do vice-presidente dos EUA, Joe Biden – o que não é costumeiro em negociações neste formato e em estágio inicial, onde o foco recai sobre o processo em si e não exatamente sobre o conteúdo.
Os comentários, porém, foram concentrados em Kerry. Em seis meses no cargo, ele fez nada menos que seis viagens à região e passou horas ao telefone com israelenses e palestinos para viabilizar o diálogo.
- Apesar de entender o ceticismo, eu não compartilho dele. Nós não podemos passar a outra geração a responsabilidade de acabar com um conflito que está sob nossa capacidade de resolução, no nosso tempo. Eles não devem suportar esse fardo, e nós não vamos deixar para eles – declarou o secretário de Estado, que ressaltou ser ele a única fonte de informações sobre as negociações, cujo caráter será sigiloso.
A negociadora e ministra da Justiça de Israel, Tzipi Livni, ressaltou o bom entendimento pessoal dela com o negociador palestino, Saeb Erekat, e classificou o encontro como "construtivo e positivo". Ao jornal israelense "Yediot Ahronot", porém, ela fez uma ressalva:
- Em primeiro lugar, depende de nós. Não é uma questão de passagens aéreas (para ir e vir negociar), é uma decisão de Netanyahu e do governo. Vamos ter outras decisões difíceis.
Abbas faz alerta
A ministra, uma das vozes de centro-esquerda do governo israelense, continuou:
- Foi bom. Não houve aquele jogo de troca de acusações na sala e houve, sim, uma tentativa de criar alguma coisa. Vamos ter outras dificuldades.
Erekat, por sua vez, reconhecido orador apaixonado, optou por economizar nas palavras:
- Os palestinos sofreram bastante, e ninguém vai se beneficiar deste processo mais que os palestinos. É hora de o povo palestino ter um Estado independente e soberano para si.
As próximas conversas acontecerão em agosto, em Jerusalém ou Ramallah.
Da Cisjordânia, saiu a nota mais polêmica do dia. Em um encontro com jornalistas egípcios, o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, lembrou que a ANP considera ilegal todas as colônias israelenses construídas nas terras anexadas após 1967. E disse que nenhum israelense – colono ou polícia de fronteira – poderá permanecer no futuro Estado da Palestina.
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Nota da Redação do Naval Brasil:
Nove meses? Essa o mundo paga p'ra ver! Como se vê, os elogios foram feitos porque as partes não brigaram à mesa de conversação, só isso!
E discursar o que é de direito, virou polêmica: a ilegalidade das colônias sionistas construídas nas terras tomadas por Israel, feita por Abbas!
O mundo quer ver os colonos judeus entregando suas casas confortáveis, que foram construídas em solo palestino, quando à época, o governo sionista bancava o risco e ganhava com as construtoras…
Fonte: Naval Brasil
Imagem: Google
“Pobre estudar medicina é afronta para a elite”, diz médico formado em Cuba
31 de Julho de 2013, 18:54 - sem comentários aindaPor José Coutinho Júnior
Da Página do MST
A elitização do ensino de medicina no Brasil é um obstáculo para jovens de baixa renda entrarem nas universidade e se formarem. Já os problemas nas provas de revalidação do diploma dificultam o exercício da profissão em território nacional pelos brasileiros que conseguiram se formar no exterior.
“Quem estuda medicina no nosso país são os filhos das elites, em sua maioria. É uma afronta para a elite um negro, um pobre, um trabalhador rual, filho de Sem Terra estudar medicina na faculdade, principalmente pelo status conferidos por essa profissão”, afirma Augusto César, médico brasileiro formado em Cuba e militante do MST.
Estudo do Ministério da Educação (MEC) aponta que 88% dos matriculados em universidades públicas de medicina estudaram em escolas particulares no ensino fundamental e médio. Os programas do governo de acesso à universidade, como o Programa Universidade para Todos (ProUni), ampliaram o acesso, mas ainda não conseguiram universalizar e democratizar a educação.
“A maioria das pessoas que entram na universidade pública para cursar medicina tem dinheiro para fazer um bom cursinho ou estudou o tempo todo numa escola particular. Claro que há exceções, mas o ensino de medicina do nosso país é altamente elitizado”, acredita Augusto.
“A maior parte das pessoas que tem acesso às escolas de medicina são de classe média e classe média-alta. Um pobre numa universidade particular não consegue se sustentar pelo alto preço das mensalidades. Sem contar que hoje temos mais universidades privadas do que públicas na área da saúde, dificultando ainda mais o acesso”, diz a médica formada em Cuba Andreia Campigotto, que também é militante do MST.
Revalidação
A necessidade dos médicos brasileiros formados no exterior e estrangeiros passarem por uma prova para verificar se estão capacitados a exercer a profissão é um tema frequentemente pautado pela comunidade médica brasileira.
Independentemente do curso, todos os estudantes brasileiros que realizam um curso fora do país precisam passar por uma revalidação do diploma. No entanto, há falhas nesse processo no caso da medicina.
Um dos principais problemas é que não existe um padrão para o conteúdo dessas provas. Cada universidade federal pode abrir sua prova de reconhecimento de títulos no exterior. Com isso, o conteúdo não é uniforme.
Além disso, o custo dessas avaliações é alto. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) cobra uma taxa de inscrição de R$1.172,20. Outras universidades pelo país têm preços similares.
Preconceito
“As provas são injustas, porque têm um nível de médicos especialistas, e não de 'generalistas', que é o que somos após nos graduar. Isso causa uma desaprovação considerável dos estudantes que vem de fora”, acredita Andréia.
“O que a categoria médica não divulga é que 50% dos estudantes da USP reprovaram na prova feita pelo Conselho de Medicina de São Paulo. Foi uma prova para médico generalista, muito mais fácil que a de revalidação”, revela.
Para Andréia, há um “grande preconceito” por parte dos profissionais brasileiros em relação aos médicos formados em outros países, o que cria um entrave para a revalidação dos diplomas.
“Seria justo se os profissionais que se formam no Brasil fizessem as mesmas provas que nós, para ver se realmente se comprova uma suposta má formação de nossa parte, bem como discursa a categoria médica brasileira”, observa.
Os dois médicos defendem a realização de uma avaliação dos conhecimentos dos profissionais graduados no exterior, mas destacam que as provas atuais não cumprem esse papel, porque não são aplicados testes adequados para auferir o conhecimento.
“As provas teóricas e práticas atuais não levam em conta as complexidades. Seria muito melhor colocar esse médico para trabalhar sob um tutor e, a partir daí, se instaurar uma avaliação rigorosa e permanente. Mas isso não tem sido pensado”, pontua Augusto.
Formação
A concepção de medicina ensinada nas universidades impede também que os estudantes vejam a luta pela saúde além do tratamento de doenças.
“Nas universidades de medicina, só se vê doença. Não se fala em saúde. Como você pode lutar pela saúde se só vê doenças? Também é saúde lutar pelo direito à cidade e por um sistema público de saúde de qualidade”, destaca Augusto.
De acordo com o militante, a concepção de saúde deve ultrapassar uma formação técnica. “O médico deve exercer a medicina a favor da construção de um país mais saudável, sem esperar que as pessoas ou uma comunidade adoeça para depois intervir sobre ela, pois é o modo de vida que vivemos que gera as doenças do país”, defende.
Andreia quer se tornar professora de medicina para colaborar para a mudança da forma de ensinar das universidades. Ela se classificou na primeira fase do concurso para lecionar na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
Segundo ela, o campo da educação deve ser ocupado por aqueles que querem democratizar a educação. “Precisamos formar profissionais com um novo perfil, realmente voltados para atender o povo, para se fixar nos locais de difícil acesso, não só nos grandes centros como hoje. É um campo interessante de atuação”.
* Essa matéria faz parte de uma série de reportagens com dois médicos que analisam as diferenças entre os cursos e a concepção de medicina em Cuba e no Brasil. No próximo texto, que será divulgado na sexta-feira na Página do MST, Andreia e Augusto opinam sobre a vinda dos médicos estrangeiros para o Brasil e analisam os problemas no sistema de saúde brasileiro, como a falta de estrutura nos hospitais.
Fonte: MST
A CIA e o controle do clima
30 de Julho de 2013, 18:49 - sem comentários aindaImaginem se a CIA pudesse decidir sobre o termostato global. A geoengenharia é tão arriscada, tanto por seus efeitos climáticos quanto por seu potencial uso hostil contra outros países, que a única coisa sensata a se fazer é proibir internacionalmente seu uso.
Por Silvia Ribeiro*
A CIA estadunidense está financiando um estudo de geoengenharia (manipulação climática) que durará 21 meses, com um custo inicial de 630 mil dólares. O estudo está sendo realizado pela Academia Nacional de Ciências, com participação da NASA e da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (cf. Revista Mother Jones, 17/7/2013).
O projeto analisará diferentes propostas de geoengenharia, como manejo da radiação solar e remoção de dióxido de carbono da atmosfera; também estudarão os efeitos da semeadura de nuvens e outras formas de manipular o tempo atmosférico para provocar chuva, secas e controlar furacões. Segundo informação oficial, farão uma avaliação técnica dos impactos dessas tecnologias do ponto de vista ambiental, econômico e de segurança nacional.
Esses últimos, são os aspectos que preocupam a CIA, que, em documentos anteriores,qualificou a mudança climática e o controle do clima como fatores de importância geopolítica estratégica e de segurança nacional. Apesar disso, os republicanos votaram pelo desaparecimento do departamento de mudança climática da CIA, o que, segundo a Agência, motivou-a a financiar essa iniciativa. As razões poderiam ir além, já que o controle do clima é um projeto militar de longa data nesse país, que realizou experimentos desde a guerra do Vietnã, provocando chuva durante meses seguidos, para prejudicar os cultivos e caminhos dos vietnamitas. Nesse sentido, em 1996, a Força Aérea Estadunidense publicou um documento intitulado Weather as a Force Multiplier: Owning the Weather in 2025 (O tempo como multiplicador da Força: possuindo o tempo em 2025), cujo título reflete claramente suas intenções.
Sim, barato e fácil para os que causaram a mudança climática com seu alto consumo de recursos e industrialização baseada no petróleo, porque em vez de reduzir realmente suas emissões, poderiam continuar aquecendo o planeta e, além disso, fazer um negócio substancioso com novas tecnologias que manipulem o clima de todos, para baixar ou subir a temperatura, segundo convenha aos interesses econômicos e bélicos dos que a controlem.
Sob o termo manejo da radiação solar, a meta é diminuir a quantidade de raios solares que chegam à terra. Por exemplo, através de construir enormes nuvens vulcânicas artificiais, injetando-lhes partículas de enxofre. Outras propostas incluem branquear as nuvens, colocar trilhões de espelhos no espaço para refletir a luz do sol ou, a mais recente, do próprio David Keith, dispersar ácido sulfúrico usando aviões na linha equatorial para que se misture com as nuvens. Quanto à remoção de dióxido de carbono, incluem-se outras técnicas, como máquinas ou árvores artificiais que absorvam carbono da atmosfera (que, certamente, não sabem onde depositarão, para que lá permaneça para sempre). A mais conhecida é a fertilização oceânica: verter nanopartículas de ferro ou de ureia no mar para provocar florescimentos de plâncton, que absorvam dióxido de carbono e o levem para o fundo do mar.
As técnicas de geoengenharia são somente teóricas, salvo alguma, como a fertilização oceânica, da qual já são conhecidos experimentos legais e ilegais, que mostraram que, além de não servir para seu propósito –o carbono não permanece no fundo do mar- os impactos podem ser enormes, com quebra da cadeia alimentar marinha, anoxia (falta de oxigênio) nas camadas marinhas, criar algas tóxicas etc.
A geoengenharia, para ter impacto no clima global, teria que ser aplicada em megaescala, rompendo um ecossistema global pouco conhecido, altamente dinâmico e em interação com toda a vida do planeta. Não existe, portanto, uma etapa experimental. O que se faça em pequena escala não mostrará a ação sobre o clima global, apesar de que poderia ter impactos negativos graves na zonas ou na região. E, caso seja em grande escala, não é experimental; é irreversível.
Por exemplo, as nuvens vulcânicas artificiais não podem ser retiradas até que as partículas caiam na terra, o que é tóxico. Essa técnica aumentaria ainda mais o buraco na camada de ozônio e a acidificação dos mares, dois problemas globais muito graves. Se realmente conseguissem diminuir a quantidade de luz solar que chega ao Norte, produziriam seca extrema na África e interrupção das moções na Ásia, colocando em perigo as fontes de alimento de 2 bilhões de pessoas.
Por exemplo, as nuvens vulcânicas artificiais não podem ser retiradas até que as partículas caiam na terra, o que é tóxico. Essa técnica aumentaria ainda mais o buraco na camada de ozônio e a acidificação dos mares, dois problemas globais muito graves. Se realmente conseguissem diminuir a quantidade de luz solar que chega ao Norte, produziriam seca extrema na África e interrupção das moções na Ásia, colocando em perigo as fontes de alimento de 2 bilhões de pessoas.
Imaginem se a CIA pudesse decidir sobre o termostato global. A geoengenharia é tão arriscada, tanto por seus efeitos climáticos quanto por seu potencial uso hostil contra outros países, que a única coisa sensata a se fazer é proibir internacionalmente seu uso.
*Silvia Ribeiro é pesquisadora do grupo ETC.
Fonte: Brasil de Fato
Tradução: Adital
Imagens: Google
A CIA e o controle do clima
30 de Julho de 2013, 18:49 - sem comentários aindaImaginem se a CIA pudesse decidir sobre o termostato global. A geoengenharia é tão arriscada, tanto por seus efeitos climáticos quanto por seu potencial uso hostil contra outros países, que a única coisa sensata a se fazer é proibir internacionalmente seu uso.
Por Silvia Ribeiro*
A CIA estadunidense está financiando um estudo de geoengenharia (manipulação climática) que durará 21 meses, com um custo inicial de 630 mil dólares. O estudo está sendo realizado pela Academia Nacional de Ciências, com participação da NASA e da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (cf. Revista Mother Jones, 17/7/2013).
O projeto analisará diferentes propostas de geoengenharia, como manejo da radiação solar e remoção de dióxido de carbono da atmosfera; também estudarão os efeitos da semeadura de nuvens e outras formas de manipular o tempo atmosférico para provocar chuva, secas e controlar furacões. Segundo informação oficial, farão uma avaliação técnica dos impactos dessas tecnologias do ponto de vista ambiental, econômico e de segurança nacional.
Esses últimos, são os aspectos que preocupam a CIA, que, em documentos anteriores,qualificou a mudança climática e o controle do clima como fatores de importância geopolítica estratégica e de segurança nacional. Apesar disso, os republicanos votaram pelo desaparecimento do departamento de mudança climática da CIA, o que, segundo a Agência, motivou-a a financiar essa iniciativa. As razões poderiam ir além, já que o controle do clima é um projeto militar de longa data nesse país, que realizou experimentos desde a guerra do Vietnã, provocando chuva durante meses seguidos, para prejudicar os cultivos e caminhos dos vietnamitas. Nesse sentido, em 1996, a Força Aérea Estadunidense publicou um documento intitulado Weather as a Force Multiplier: Owning the Weather in 2025 (O tempo como multiplicador da Força: possuindo o tempo em 2025), cujo título reflete claramente suas intenções.
Sim, barato e fácil para os que causaram a mudança climática com seu alto consumo de recursos e industrialização baseada no petróleo, porque em vez de reduzir realmente suas emissões, poderiam continuar aquecendo o planeta e, além disso, fazer um negócio substancioso com novas tecnologias que manipulem o clima de todos, para baixar ou subir a temperatura, segundo convenha aos interesses econômicos e bélicos dos que a controlem.
Sob o termo manejo da radiação solar, a meta é diminuir a quantidade de raios solares que chegam à terra. Por exemplo, através de construir enormes nuvens vulcânicas artificiais, injetando-lhes partículas de enxofre. Outras propostas incluem branquear as nuvens, colocar trilhões de espelhos no espaço para refletir a luz do sol ou, a mais recente, do próprio David Keith, dispersar ácido sulfúrico usando aviões na linha equatorial para que se misture com as nuvens. Quanto à remoção de dióxido de carbono, incluem-se outras técnicas, como máquinas ou árvores artificiais que absorvam carbono da atmosfera (que, certamente, não sabem onde depositarão, para que lá permaneça para sempre). A mais conhecida é a fertilização oceânica: verter nanopartículas de ferro ou de ureia no mar para provocar florescimentos de plâncton, que absorvam dióxido de carbono e o levem para o fundo do mar.
As técnicas de geoengenharia são somente teóricas, salvo alguma, como a fertilização oceânica, da qual já são conhecidos experimentos legais e ilegais, que mostraram que, além de não servir para seu propósito –o carbono não permanece no fundo do mar- os impactos podem ser enormes, com quebra da cadeia alimentar marinha, anoxia (falta de oxigênio) nas camadas marinhas, criar algas tóxicas etc.
A geoengenharia, para ter impacto no clima global, teria que ser aplicada em megaescala, rompendo um ecossistema global pouco conhecido, altamente dinâmico e em interação com toda a vida do planeta. Não existe, portanto, uma etapa experimental. O que se faça em pequena escala não mostrará a ação sobre o clima global, apesar de que poderia ter impactos negativos graves na zonas ou na região. E, caso seja em grande escala, não é experimental; é irreversível.
Por exemplo, as nuvens vulcânicas artificiais não podem ser retiradas até que as partículas caiam na terra, o que é tóxico. Essa técnica aumentaria ainda mais o buraco na camada de ozônio e a acidificação dos mares, dois problemas globais muito graves. Se realmente conseguissem diminuir a quantidade de luz solar que chega ao Norte, produziriam seca extrema na África e interrupção das moções na Ásia, colocando em perigo as fontes de alimento de 2 bilhões de pessoas.
Por exemplo, as nuvens vulcânicas artificiais não podem ser retiradas até que as partículas caiam na terra, o que é tóxico. Essa técnica aumentaria ainda mais o buraco na camada de ozônio e a acidificação dos mares, dois problemas globais muito graves. Se realmente conseguissem diminuir a quantidade de luz solar que chega ao Norte, produziriam seca extrema na África e interrupção das moções na Ásia, colocando em perigo as fontes de alimento de 2 bilhões de pessoas.
Imaginem se a CIA pudesse decidir sobre o termostato global. A geoengenharia é tão arriscada, tanto por seus efeitos climáticos quanto por seu potencial uso hostil contra outros países, que a única coisa sensata a se fazer é proibir internacionalmente seu uso.
*Silvia Ribeiro é pesquisadora do grupo ETC.
Fonte: Brasil de Fato
Tradução: Adital
Imagens: Google
Lucrando com a guerra: O comércio de armas israelense
29 de Julho de 2013, 11:45 - sem comentários aindaUm “laboratório” é um lugar onde cientistas conduzem experimentos sob condições monitoradas (um espaço onde fenômenos de larga escala, como furacões, são miniaturizados e objetos minúsculos, como micróbios, são expandidos para observar-se os processos complexos e aprender-se como controlá-los.
Por Eilat Maoz*
Um laboratório é onde o mundo é dividido em fenômenos previsíveis e objetos observáveis. Onde o conhecimento é criado e depois disseminado, tornando o mundo mais compreensível e melhor organizado, através das lentes do conhecimento que acumulamos sobre ele.
O novo filme de Yotam Feldman, “The Lab,” (O Laboratório) apresenta-nos aos homens que transformaram os Territórios Palestinos Ocupados no maior e mais avançado laboratório de testes para armamentos: comerciantes de armas e seus produtores, especialistas em defesa e líderes industriais.
Apesar do impulso para a comparação deste com outros documentários israelenses que têm exibido recentemente a vida secreta das pessoas que gerem a ocupação (como “The Law in These Parts”, ou “A Lei Por Aqui”, e “The Gatekeepers”, ou “Os Guardiões”), “O Laboratório” é, acima de tudo, um filme sobre conhecimento. Conhecimento securitário criado na zona flexibilizada entre duas dimensões separadas por uma linha muito embaçada: o mercado e o Exército.
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| Naomi Klein |
No seu “Doutrina do Choque” (“The Shock Doctrine”), ela mostra que a maior parte do crescimento econômico de Israel pode ser atribuída à imensa indústria da Defesa, que se tornou a principal indústria de exportação de Israel, especialmente após o 11 de Setembro (em 2012, Israel ficou em 6º lugar entre os maiores exportadores de armas do mundo).
Naomi também afirma que a Cisjordânia e a Faixa de Gaza não são apenas as maiores prisões a céu aberto do mundo, mas também os maiores laboratórios do planeta, onde “os palestinos não são mais apenas alvos”, mas também ratos de laboratório.
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| Yotam Feldman |
O real poder do filme é revelado, entretanto, não quando exibe eventos restritos e “apenas para convidados”, para confrontar os beneficiários [da indústria militar], mas nas fantásticas entrevistas conduzidas com eles. Elas revelam que todo o comerciante de armamentos tem uma visão de mundo que é rapidamente desdobrada diante da câmera. Belicistas, parece, não operam mais nas sombras. Se as armas são vendidas no mercado aberto, deveriam ser tratadas como qualquer outra “commodity”, e já que é escondido não pode ser vendido, o véu do segredo precisa ser rapidamente removido do mercado securitário, transformando a ocupação de um segredo vergonhoso bem conhecido em um ponto de vendas.
Histórias de sucesso cativantes dos comandantes israelenses que mobilizam suas experiências de combate com “a mão na massa” para vender mais armas reforça a impressão de que a ocupação fornece oportunidades econômicas rentáveis. Ao mesmo tempo, as histórias sugerem que a relação imediata entre o setor militar e a economia em Israel é maior do que a soma total de todas as relações pessoais entre os profissionais militares e os homens de negócio, ou alguns comandantes em campo com uma sabedoria comercial.
Em conferências internacionais onde modelos israelenses apresentam orgulhosamente as armas a homens ansiosos, parece que o Ministério de Defesa opera como o agente-chefe das exportações de Israel. É aí que a fronteira entre o “econômico” e o “político” se desfaz, e onde a frase “força econômica” revela-se mais do que apenas uma retórica: é um plano de trabalho.
Um plano fundado da suposição de que a segurança é um produto que o país fornece aos seus cidadãos direitos, e que uma economia forte é a base para a força militar. Aqui o papel do Estado em expandir da indústria da Defesa é inato, já que ela apoia o “crescimento”, e as exportações da Defesa (mesmo quando completamente privadas) são vistas como uma história de sucesso nacional. Para pegar emprestado da terminologia cinematográfica, a indústria da Defesa israelense é um caso evidente de “co-produção”.
Importante é ressaltar que esta produção tem uma terceira parte: a academia israelense. Um dos aspectos mais intrigantes do filme é o fato de que ele interliga histórias sobre inventores de armas e comerciantes de armas com as de cientistas e intelectuais.
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| Shimon Naveh |
Colocando isso de forma mais direta, a doutrina é baseada em furar buracos nas paredes das casas e mover-se como rizomas em ruas pavimentadas. Naveh pode, então, levar o crédito pela destruição causada pelas Forças de Defesa de Israel (FDI) enquanto reocupava cidades da Cisjordânia durante a Operação Escudo de Defesa (“Operation Defensive Shield”, de 2002).
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| Operation Defensive Shield |
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| Yitzhak Ben Ysrael |
A pesquisa de Ben Israel é apenas um exemplo da próspera indústria do conhecimento securitário na academia israelense, que até os poucos acadêmicos israelenses que se opõem à ocupação tendem a ignorar.
Os híbridos de Feldman (ciborgues da ciência, tecnologia e Exército) expõem dramaticamente as repercussões abrangentes da migração do conhecimento desde o laboratório israelense até o resto do mundo. Por exemplo, as tecnologias anti-rebeliões israelenses vendidas à polícia brasileira para combater os traficantes de drogas foram moldadas às favelas do Rio a partir da forma dos campos de refugiados palestinos; Cabul (Afeganistão) é remanescente de Bagdá (Iraque), que à sua vez se parece com Jenin (Cisjordânia).
Esta semelhança é mais do que o produto do imaginário orientalista ou do ódio dos empobrecidos e negros (apesar de que estes são fatores importantes): são formas de conhecimento, produtos da indústria tecnológica, que tornam estes espaços tão preocupantemente similares.
*Eilat Maoz é uma estudante do doutorado em Antropologia, da Universidade de Chicago, que foca o seu trabalho na economia política da guerra.
Fonte: Vermelho
Tradução: Moara Crivelente, da redação do Vermelho
Imagens: Vermelho, Google
Os Guardiões das Sementes Crioulas
26 de Julho de 2013, 14:00 - sem comentários aindaConheça os saberes das sementes crioulas e o trabalho valioso de seus guardiões
O município de Ibarama, localizado na região central do Rio Grande do Sul, sediará nos dias 8 e 9 de agosto, o 2º Seminário da Agrobiodiversidade Crioula. Desde 1998, Ibarama destaca-se pela produção de milho crioulo no Estado. Em 2008, agricultores da região, comprometidos com essa cultura, criaram a Associação dos Guardiões das Sementes Crioulas de Ibarama, com o objetivo de manter vivo os saberes tradicionais locais que passam de geração a geração, buscar conhecimentos sobre práticas agroecológicas e desenvolver o cultivo de milho crioulo, diminuindo a dependência da agricultura em relação aos atuais pacotes tecnológicos das grandes empresas transnacionais do setor.
Ao todo, quatro eventos ocorrerão nestes dois dias (no Ginásio Esportivo João Lazzari) : o 12º Dia da Troca de Sementes Crioulas de Ibarama, o 2º Seminário da Agrobiodiversidade Crioula, a 2ª Feira da Economia Popular Solidária do território centro Serra e o 2º Semionário Regionalo de Guardiões Mirins de Sementes Crioulas. Todos esses eventos compartilham os seguintes objetivos: troca de experiências e sementes, exposição e comercialização de produtos oriundos de empreendimentos solidários e a discussão da importância do reconhecimento da identificação geográfica para o milho crioulo de Ibarama e seus derivados, assim como para o desenvolvimento regional sustentável.
Os eventos são promovidos em conjunto pela Associação dos Guardiões de Sementes Crioulas de Ibarama, Emater, UFSM, Prefeitura de Ibarama, Colegiado do Território Centro Serra e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Clima Temperado.
Patrimônio genético em risco
A professora Lia Rejane Reinger, do Departamento de Fitotecnia da UFSM, destaca que as sementes crioulas constituem um imenso repositório genético não somente para as comunidades que as conservam, mas para toda a humanidade. Sua importância, enfatiza, “vai além dos cenários locais e regionais, uma vez que seus genes podem ser importantes para garantir a sobrevivência dos cultivos agrícolas, esgotados, muitas vezes, em seu germoplasma pelos programas convencionais de melhoramento genético”.
A conservação da agrobiodiversidade crioula, adverte Lia Reinger, sofre hoje uma série de ameaças: “inexistência de uma infraestrutura eficiente de conservação, que a proteja de eventuais perdas por intempéries de natureza climática ou ações antropogênicas; carência de estudos técnico-científicos que possibilitem o seu resgate, conservação e uso sustentável e, também, pelo risco de que a reputação do germoplasma crioulo conservado em Ibarama e seus derivados, em especial a farinha, sejam indevidamente apropriados por outrem, dada a inexistência de registro de uma marca coletiva ou do reconhecimento de identificação geográfica, estratégias que podem proteger e, simultaneamente valorizar esses produtos locais”.
Biodiversidade em queda no planeta
Segundo o Centro de Monitoramento para a Conservação Mundial, órgão ligado às Nações Unidas, a perda de biodiversidade no planeta já assumiu proporções alarmantes. Os governos não conseguiram cumprir sua promessa de chegar a 2010 com uma redução significativa da perda de diversidade biológica. Os países signatários do Convênio sobre a Diversidade Biológica acordaram em 2002 que deveriam obter uma significativa redução no ritmo da perda de biodiversidade para 2010, Ano Internacional da Diversidade Biológica.
A realidade, porém, é que a biodiversidade declinou nas últimas quatro décadas. Essa redução atinge diferentes grupos animais, como mamíferos, aves e insetos; bosques e manguezais; e arrecifes de coral. A Mata Atlântica brasileira que, no passado, foi o segundo bosque mais extenso da América do Sul, tem hoje conservada cerca de 10% de sua área, numa área fragmentada em parcelas diminutas.
O Pampa gaúcho também sofre com essa destruição. Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente, somente entre 2008-2009, o Bioma Pampa perdeu 331 quilômetros quadrados com a supressão de vegetação nativa, o que equivale a uma taxa de 0,18%, um pequeno decréscimo em relação à taxa do período 2002-2008, que foi de 1,2%.
De um total de 177.767 km², o Pampa teve quase 54% de sua área original suprimida ao longo de sua ocupação histórica. Entre 2002 e 2008, foram perdidos 2.183 km², que equivale a 1,2% do bioma , ou 0,2% de taxa média anual de desmatamento. Alegrete, na fronteira do estado do Rio Grande do Sul, foi o município que mais desmatou neste período em números absolutos, sendo 51,93 km² equivalentes a 0,67% da área do município. A lavoura do arroz, a pecuária e a expansão do reflorestamento de vegetação nativa por plantações das espécies eucalipto e pinus são as atividades que pressionam o desmatamento no Pampa, afirma o MMA
No caso das sementes, o avanço de culturas transgênicas coloca em risco, ao mesmo tempo, patrimônio genético, saberes e sabores tradicionais e a possibilidade de um tipo de agricultura não mergulhado em agrotóxicos e práticas que transformam os campos em grandes monoculturas, sem vida, sem cultura e sem história.
Fonte: Sul 21
Imagens: Sul 21, Google























































