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Cultura

30 de Agosto de 2016, 13:39 , por Blogoosfero - | No one following this article yet.

"Freguês", um livro que dá cara aos invisíveis e nome aos anônimos

15 de Janeiro de 2018, 10:18, por segundo clichê
 
Carlos Motta



Pedro Fávaro Jr. é jornalista desde 1975. Mas conheço o Pedrinho muito antes de ele beber a cachaça que transforma pessoas normais em masoquistas esquisitões que passam dias e noites à procura de um bom lide, à caça de um furo ou do melhor título para a matéria que deveria, obviamente, ganhar o Prêmio Esso - esse Oscar da imprensa brasileira que não existe mais...

Conheço o Pedrinho desde criança, quando nós dois usávamos calças curtas na Jundiaí que ainda, volta e meia, é personagem de meus sonhos. 

Pedrinho já fez muita coisa nesta vida: trabalhou em rádio em sua cidade natal, criou a Imprensa Oficial do Município quando seu pai foi prefeito, lançou o jornal católico "O Verbo", entre outras publicações, foi editor do "Diário do Povo" e do "Correio Popular", os dois de Campinas, trabalhou como repórter, redator e editor no Grupo Estado - ficou por mais de 20 anos na Agência Estado.

Além disso tudo, se tornou diácono permanente da Igreja Católica. E é casado desde 1976 com Sônia Maria, tem duas filhas e um filho, músico, e uma neta.

Todo esse prólogo, na verdade um esboço de uma biografia muito mais rica e interessante, foi para contar algo que deixa todos os seus inúmeros amigos orgulhosos e felizes: é que o primeiro livro do Pedrinho, "Freguês", acaba de ser lançado pela editora Chiado, de Portugal - ele já está à venda no site da empresa.

O livro dá voz aos excluídos, esses seres que vivem anônimos e à margem de uma sociedade que apenas os tolera. 

"Eles vivem na praça, nas ruas de uma cidade no interior de São Paulo e ninguém lhes dá atenção por julgá-los estorvos, um bando de foras-da-lei", diz a sinopse do livro feita pela Chiado. "Chegam ao abandono empurrados pela orfandade, a violência doméstica praticada por madrastas ou padrastos e tomam gosto pela vida, pela cultura da rua e se viciam nela. Quase sempre acabam virando marionetes nas mãos do tráfico e da polícia, embora tenham sonhos, desejos, ambições e projetos, como qualquer pessoa considerada normal pelos padrões sociais." 


"Scarlet, o protagonista deste livro - continua o texto -, é uma espécie de Dom Quixote às avessas que busca vencer as barreiras, preconceitos, para resgatar sua maior riqueza: o nome, trocado nas ruas pelo esconderijo de um apelido sob medida, modelado pela cara do sujeito. Na rua, o nome é só um eco a ressoar em algum canto sombrio na linha do tempo, impressa sem piedade na mente. Scarlet, sem perder a esperança, luta para superar esse estigma, recobrar sua identidade e ser realmente quem é."

 

Pedrinho quer lançar "Freguês" em março, em Jundiaí, num local bem informal, e depois, talvez, na capital. Será uma festa, com certeza. E também o cumprimento da primeira etapa de uma viagem que ele pretende que seja longa e proveitosa: está nos seus planos produzir muito mais literatura, pois afinal, como conta no texto que fez sobre essa sua nova experiência de vida, foi ser jornalista simplesmente porque gostava de escrever.

 

Assim, então, sem mais, passo a palavra, para o jornalista e escritor Pedro Fávaro Jr.:

Motta:

Vamos lá. Aviso, adoro falar...

Mandei o original para três editoras brasileiras em 2015 e 2016... A média de tempo para me responderem foi de quatro meses. Todas me deram sonoros ou rebuscados NÃOS por escrito. Mas nenhum deles me convenceu, porque não havia argumentação sobre o texto, o livro, a narrativa... Só sobre prazo, planejamento contábil coisa e tal. Declino por educação o nome das editoras. 

Claro, como qualquer ser normal, pensei em ter falhado. Em não ter produzido um texto decente para um primeiro romance, porque o jornalista insistiu em ficar grudado no meu pé, atazanando o tempo todo.

Para chegar no livro, passei por experiências incríveis. A primeira – depois de trancos e barrancos com as chefias na Agência Estado – foi a de pensar que escolhi ser jornalista por gostar de escrever. E tudo que o jornalista sempre fez menos foi escrever – porque foi sacado logo da reportagem para editar, pautar, ser gestor e por último – acredite se quiser “reempacotar” notícias. Era a expressão usada pelos colegas para pegar uma notícia de jornal e transformar o texto num SMS, de 140 caracteres: “Reempacota pra mim, por favor!” Ou para pegar uma notícia de internet e virar para jornal.

Fiz um treinamento em Programação Neurolinguística (PNL) e entendi que fui ser jornalista e o fui, por quase 40 anos, pelo gosto de escrever. Mas quem escreve deve ser ESCRITOR. Aí peguei meus alfarrábios, uma coleção de crônicas sobre minha experiência com moradores de rua e guardadores de carro e quis transformar em livro. Não dava certo. Ficava desconexo. Fiz uma primeira oficina de literatura com a escritora Nanete Neves, fiz uma segunda e uma terceira com o professor Marcelo Spalding, uma quarta com Fábio Barreto, jornalista e escritor que virou roteirista em Hollywood. Uma última com o Rodrigo Amaral Gurgel. 

No meio do caminho, fiz um treinamento em PNL. O treinador, Marcos Stefani, um grande amigo meu, guitarrista e meu ex-barbeiro, havia terminado um curso com certificação internacional para ser COACH e precisava de cobaias. Ofereceu 12 sessões gratuitas. Topei. Na primeira me pergunta qual seria meu maior e mais imediato sonho. Escrever um livro, respondi. Ele me garantiu que na 12ª sessão eu teria o livro.

Fiz duas sessões, com dinâmicas bem bacanas. Simples, que tratam de foco, de fisiologia e determinação. Depois da segunda, destruí a coleção de crônicas, alinhavei os textos e em oito horas de trabalho intermitente tinha um livro. Entreguei o livro na 12ª sessão. “Muito bom”, me diz o treinador depois de examinar o trabalho. “Você tem um bonsai aqui. Um pequeno livro, muito bem cuidado e tratado. Bem aparado. Legal mesmo! Atingimos o objetivo”, conta. O melhor de tudo foi ele me dizer que adoraria ser sócio de meu projeto de escritor, porque em nenhum momento, nas sessões, falei de dinheiro, de sucesso, de fama. Não: falei de escrever, de trabalhar como escritor.


Passa o tempo. Continuo em cima. Depois de conhecer a Nanete, que escreveu "O Poeta e a Foca", peço pra ela ler o meu livro. Ela topa sem compromisso. Me devolve o material no dia seguinte e diz: “Tem força de livro, tem texto de escritor. Mas falta uma voz melhor para o narrador. E outra coisa: é pequeno. Ainda não tem tamanho de livro. Precisa de mais trabalho!”

Aceitei a crítica bem similar ao que havia dito o treinador. Mais oficina. E trabalhando todo dia no texto. De 12 mil palavras foi parar em quase 25 mil. Cresceu. A trama melhorou e saiu o livro: "Freguês", nome sugerido pela Nanete que de quebra foi a preparadora do trabalho.

Aí faltavam as editoras. Corri atrás e nada. Falei com a Maria Fernanda de Andrade, ex-Estadão (nesse meio tempo, quis o destino, para minha libertação, que eu fosse demitido da Agência depois de 15 anos). Ela me sugeriu mandar o original para a Chiado Editora, de Portugal. Deu o endereço e tal. Em dois dias, a Chiado me responde: “Senhor Pedro: agradecemos a escolha e pedimos sua paciência. Nosso Conselho Editorial leva 12 dias para analisar um livro do tamanho do seu, de 150 páginas...” 

Doze dias... Que bênção depois de tanto tempo esperando. E quando voltou a resposta voltou dizendo que o texto tinha qualidades literárias e comerciais e interessava à Chiado. Junto, me encaminharam uma proposta de contrato de três anos e todos os detalhes comerciais e tal sobre o assunto. Topei e até agora não me arrependo.

Houve um contratempo na Alfândega. Os livros desembarcaram e não foram autorizados a entrar no mercado, para a alegria dos meus cunhados... “Droga não pode entrar no País”, brincaram eles no final do ano. Cunhados...

Enfim, agora devo receber meus exemplares até o final de janeiro e estou programando o lançamento para março. Aqui em Jundiaí, bem informal mesmo, em algum lugar que eu goste, como o Villa Pizza Bar, de um amigo de meu filho. E talvez no Bar do Alemão, no Parque Antártica, em São Paulo. Nada de livraria, biblioteca e tal...

O livro tem o Scarlet, que é real como protagonista. Conta a história da minha amizade e relacionamento com moradores de rua e guardadores de carro, de modo romanceado, mas muitas vezes não-ficcional. O gênero, como o Sérgio Roveri diz na apresentação do livro, cada um escolha como bem entender. O prefácio, o Sandro Vaia começou a escrever mas adoeceu e acabou deixando pela metade. Foi embora o italiano... Mas a família (Vera e Giuliana) autorizou a publicar o que ele escreveu. Fiz como homenagem. E claro, para valorizar o meu trabalho.

A história do Scarlet deu voz para o narrador. É um dom Quixote às avessas, buscando a própria identidade. O livro é a história dessa busca, cheia de insucessos, de pessoas empurradas por muitos tipos de dramas, para fora de suas famílias. Que têm alma, têm sonhos, têm desejos como qualquer outro. Só que viram invisíveis na rua. A gente passa, joga uma moeda pra eles e acha que tudo está bem. 

Eles não têm nome. É outro tema tratado no texto. Escondem-se atrás de apelidos, porque o nome vira ameaça. E às vezes, nas sombras, esquecem o nome... E por aí vai, Motta. 

Decidi, em 2013, quando completei 60 anos e terminei o projeto do "Freguês", que escreveria cinco livros até os 65 anos. Estou preparando simultaneamente uma coletânea de poesias, outra de contos e crônicas e estou empenhado (já no nono capítulo) no "Blecaute", o livro dos jardins – uma metáfora a partir da história de uma escritora – sobre os sete níveis neurológicos. Depois, estou no terceiro capítulo, também, de uma distopia para a qual não encontrei nome, mas fala do mundo derretendo e de uma sociedade em frangalhos, em que as pessoas para sobreviver dependem de cotas oficiais de água e do fornecimento de ar para os contêineres onde são obrigadas a morar, em razão das temperaturas altíssimas do planeta.

E vou rabiscando uns autos, uns monólogos, uns sonetos aqui e acolá, pra distrair, porque escritor que não escreve é desempregado.

Paralelamente, continuo diácono permanente da Igreja, casado há 42 anos com dona Sônia, quatro filhos, à espera do segundo netinho, o Francisco, que chega por esses dias. A primeira é a Helena. 

E agora voltei a trabalhar. Convidado pela Mônica Gropelo, fui parar na Rede TVTEC, onde cuido do site de notícias, escrevo duas vezes por semana num blog e faço reportagens para a tevê. Mas de olho fixo no escritor porque lá está um dos meus grandes sonhos. 

Continuo, como você, atrás da Utopia. Quem sabe ela não esteja logo aí na esquina...
Tenho acompanhado e amado os sambas. Vamos conversando mais. 

Abração fraterno. Saudade. 



O ouro e a madeira. Ou a obra de um gênio esquecido

9 de Janeiro de 2018, 10:20, por segundo clichê



Carlos Motta


Não há na música popular brasileira nenhum autor de sambas tão melancólico e reflexivo quanto o baiano Ederaldo Gentil - suas canções expressam de maneira cristalina a pequenez do homem frente à engrenagem social e ao próprio mundo que habita.

 
Ederaldo morreu em 2012, aos 68 anos de idade, depois de viver vários anos recluso em companhia de sua irmã, num bairro da periferia de Salvador, cidade onde nasceu.
 
Gravou apenas três LPs, recheados de obras-primas: "Samba, Canto Livre de um Povo" (1975), "Pequenino" (1976) e "Identidade" (1983).
 
Em 1999 seu parceiro Edil Pacheco reuniu um time de primeira para gravar o CD "Pérolas Finas", que reúne algumas das melhores composições de Ederaldo.
 
Em 2006 saiu o CD "A Voz do Poeta", patrocinado por amigos, admiradores e familiares, coletânea com 15 músicas.
 
Ederaldo é autor de alguns dos versos mais inspirados da MPB.
 
Como os de "De Menor":
 
Sou o menor dos pequeninos
O mais pobre dos plebeus
O alheio inquilino
O mais baixo pigmeu
O comum do singular
O último dos derradeiros
Viandante e peregrino
O mais manso dos cordeiros

 


Eu sou maior
Em lampejos de brandura
De angélica candura
Dos mistérios do amor
Sou bem maior
Que os pinheirais da humildade
Pelos campos da bondade
Eu sou a felicidade
 
Ou os de "O Ouro e a Madeira", um dos mais bonitos sambas já compostos desde que o gênero se fixou como o mais popular do Brasil - há mesmo quem diga que ele é o mais belo de todos.
 
A canção foi gravada pelos Originais do Samba e por Beth Carvalho, mas nada melhor que ouvi-a na voz do próprio Ederaldo, que participou, junto com Riachão e Batatinha, outros dois baluartes do samba baiano - e brasileiro - do icônico programa Ensaio, da TV Cultura, no longínquo ano de 1974: 
 
 
Não queria ser o mar
Me bastava a fonte
Muito menos ser a rosa
Simplesmente o espinho
 
Não queria ser caminho
Porém o atalho
Muito menos ser a chuva
Apenas o orvalho

 


Não queria ser o dia
Só a alvorada
Muito menos ser o campo
Me bastava o grão
 
Não queria ser a vida
Porém o momento
Muito menos ser concerto
Apenas a canção
 
O ouro afunda no mar
Madeira fica por cima
Ostra nasce do lodo
Gerando pérolas finas
 
A vida e a obra de Ederaldo Gentil ganharam um espaço nobre na internet, o site Acervo Ederaldo Gentil, uma preciosidade.
 
Preservar e difundir o seu legado, principalmente nestes tempos obscuros, é uma obrigação para qualquer um que queira viver não numa colônia americana, repleta do lixo da indústria de entretenimento, mas numa nação independente, de cultura e arte próprias.


Rato pra comer, rock pra viver, samba pra vender... sorrindo

8 de Janeiro de 2018, 10:14, por segundo clichê

 

Carlos Motta

Roberto Carlos pode ser o "rei", mas o gênio musical nascido em Cachoeiro de Itapemirim é Sérgio Sampaio, que morreu em 1994, aos 47 anos.
 
Sampaio estourou nas paradas em 1973, com "Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua", mas o sucesso não se repetiu com os três LPs que gravou em vida, embora eles, assim como o disco póstumo, "Cruel", estejam repletos de canções extraordinárias, muito acima da média da produção nacional.
 
Com o passar do tempo a qualidade da obra de Sampaio foi sendo reconhecida, mas como  nasceu e viveu no Brasil, depósito de lixo da indústria de entretenimento americano, o rótulo de "maldito" não se despregou dele, e assim, até hoje, ele vaga pela música popular em companhia de outros artistas de talento incomum, como Jards Macalé, Walter Franco e Itamar Assumpção - para ficar apenas nos mais conhecidos.
 
Sampaio não foi um revolucionário, mas soube, como poucos, modernizar a linguagem da riquíssima produção nacional, compondo melodias fáceis, mas não banais, com letras recheadas de achados poéticos capazes de emocionar o mais empedernido dos ouvintes.
 
Algumas de suas canções refletem uma alma atormentada e um espírito sensível à realidade de uma sociedade soterrada pelo peso de uma ditadura militar. E elas, embora não sejam explicitamente políticas, dizem muito sobre a miséria de se viver numa nação que não dá nenhuma esperança a seus habitantes.
 
O samba "Velho Bandido", integrante do LP "Tem Que Acontecer", de 1976, é um exemplo do quanto Sampaio é atemporal. Parece que seus versos retratam o brasileiro que sobrevive neste Brasil Novo, e não que foram escritos há quase 50 anos.
 
A canção foi regravada esplendidamente por Jards Macalé e pelo grupo Casuariana, mas a gravação original é dinamite pura.
 
Ela pode ser ouvida aqui:
 
 

Eu que sou filho de um pai teimoso
Descobri maravilhado que sou mentiroso
Sou feio, desidratado e infiel, bolinha de papel
Que nunca vou ser réu dormindo
E descobri como um velho bandido
Que já tudo está perdido neste céu de zinco
Eu que só tenho essa cabeça grande
Penso pouco, falo muito e sigo pr'adiante
Descobri que a velha arca já furou
Quem não desembarcou
Dançou na transação dormindo
E como eu fui o tal velho bandido
Vou ficar matando rato pra comer
Dançando rock pra viver
Fazendo samba pra vender... sorrindo

 


Um samba-enredo sobre um país de sonho

6 de Janeiro de 2018, 13:09, por segundo clichê
 
Carlos Motta



Carnaval chegando, as escolas de samba capricham nos ensaios. 

Os sambas-enredo deste ano das escolas do Rio, como sempre, abordam uma miscelânea de temas, que vão desde Chacrinha à Rota da Seda, passando pelo Museu Nacional e Frankenstein.

Dos milhares de sambas-enredo compostos, porém, foram poucos os que sobreviveram na memória popular e são cantados em qualquer época de ano.

Um deles, se não o mais lembrado, é "Aquarela Brasileira", de Silas de Oliveira, levado originalmente ao desfile de 1964 pela Império Serrano - em 2004 ele foi novamente apresentado, pois a escola fez uma reedição do enredo.

O samba faz uma homenagem ao clássico "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, uma das canções brasileiras mais tocadas em todo o mundo.

Silas faz uma viagem pelo Brasil, exaltando a cultura, arte e arquitetura das regiões geográficas e de seus Estados.

 
Matinho da Vila, que, como inúmeros outros artistas, o gravou, diz que "Aquarela Brasileira" só não é perfeito porque deixa de citar alguns Estados.
 
Apesar de até hoje empolgar as plateias, o samba só ficou em quarto lugar no desfile de 1964 e em nono em 2004. Diz a lenda que a  notícia da morte de Ary Barroso chegou à Avenida Presidente Vargas quando a Império Serrano se preparava para começar seu desfile, o que teria tirado o ânimo dos componentes.
 
Seja como for, "Aquarela Brasileira" é uma joia, uma das obras-primas da música popular, atemporal como são as grandes criações - embora cante um país de sonho, "uma maravilha de cenário", uma terra muito distante desta de hoje.
 
Dá para ouvi-lo, na voz única de Elza Soares, neste link:
 
 

Vejam essa maravilha de cenário:
É um episódio relicário,
Que o artista, num sonho genial
Escolheu para este carnaval.
E o asfalto como passarela
Será a tela do Brasil em forma de aquarela.
Passeando pelas cercanias do Amazonas
Conheci vastos seringais.
No Pará, a ilha de Marajó
E a velha cabana do Timbó.
Caminhando ainda um pouco mais
Deparei com lindos coqueirais.
Estava no Ceará, terra de irapuã,
De Iracema e Tupã
Fiquei radiante de alegria
Quando cheguei na Bahia...
Bahia de Castro Alves, do acarajé,
Das noites de magia do Candomblé.
Depois de atravessar as matas do Ipu
Assisti em Pernambuco
A festa do frevo e do maracatu.
Brasília tem o seu destaque
Na arte, na beleza, arquitetura.
Feitiço de garoa pela serra!
São Paulo engrandece a nossa terra!
Do leste, por todo o Centro-Oeste,
Tudo é belo e tem lindo matiz.
No Rio dos sambas e batucadas,
Dos malandros e mulatas
De requebros febris.
Brasil, essas nossas verdes matas,
Cachoeiras e cascatas de colorido sutil
E este lindo céu azul de anil
Emoldura em aquarela o meu Brasil.



A casinha na Marambaia e os dois momentos do Brasil

3 de Janeiro de 2018, 10:25, por segundo clichê
 
Carlos Motta


O paulista Henrique Felipe da Costa, que ficou conhecido pelo apelido de Henricão, compôs dezenas de canções, mas é até hoje lembrado por duas delas, "Está Chegando a Hora", versão da mexicana "Cielito Lindo", e "Só Vendo que Beleza", mais conhecida por "Marambaia", em parceria com Rubens Campos.

Essa última, lançada por Carmen Costa, ganhou inúmeras regravações dos mais importantes artistas populares brasileiros. Fala sobre um local idílico, onde um casal vive uma vida de sonhos, embora frugal:

Eu tenho uma casinha lá na Marambaia
Fica na beira da praia, só vendo que beleza.
Tem uma trepadeira que na primavera
Fica toda florescida de brincos de princesa

Quando chega o verão eu sento na varanda,
Pego o meu violão e começo a tocar.
E o meu moreno que está sempre bem disposto
Senta ao meu lado e começa a cantar

Quando chega a tarde um bando de andorinhas
Voa em revoada fazendo verão
E lá na mata um sabiá gorjeia
Linda melodia pra alegrar meu coração

Às seis horas o sino da capela
Toca as badaladas da Ave Maria
A lua nasce por de trás da serra
Anunciando que acabou o dia.

Eu tenho uma casinha lá na Marambaia...

O sucesso de "Só Vendo Que Beleza" foi tanto que a Henricão e Rubens compuseram uma continuação, que foi praticamente ignorada.

Pudera, "Casinha da Marambaia" expõe a tragédia da separação do feliz casal retratado na primeira canção. A linda morada desmoronou, a trepadeira brinco-de-princesa secou, o sabiá foi embora, só restaram destroços do amor que existia entre os dois:

Nossa casinha lá da Marambaia
A mais bonita da praia se desmoronou
A trepadeira brinco-de-princesa
Ficou triste, amarela e depois secou

E a varanda vive em abandono
É um destroço sem dono numa solidão
Até você que parecia ser sincera
Sem motivo abandonou meu pobre coração

O sabiá também mudou seu ninho
Eu já não ouço mais sua canção
As andorinhas foram em revoadas
Quebraram-se as cordas do meu violão

E há quem diga que isso é desumano
Que eu não mereço tanta ingratidão
Quero que volte como antigamente
Para dar sossego ao meu coração

As duas músicas foram lançadas há mais de 70 anos, quase um século.

De certa forma, retratam o que houve no Brasil, que durante uma década foi como a casinha na Marambaia em seu esplendor, mas que depois acabou destroçada pela ação de forças deletérias.

Henricão morreu em 1984, ano em que o movimento pelas eleições diretas entusiasmava o Brasil, que já havia se cansado da ditadura militar.



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