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Dizer que eu sou o pai do código aberto é como dizer que o Lula fundou o PMDB - disse Richard Stallman para auditório lotado na UFPR

11 de Junho de 2017, 20:14 , por Bertoni - 0sem comentários ainda | No one following this article yet.
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Por Helen Mendes, no site da UFPR

34990611891 1163a9253f z 509x338Foto: Samira Chami Neves Sucom/ UFPR

O idealizador do Movimento Software Livre, Richard Stallman, esteve na UFPR na última sexta-feira (2), para uma palestra sobre “Software livre e a sua liberdade”. O ativista norte-americano falou para um auditório lotado sobre como o software livre defende a liberdade do usuário de controlar a maneira como usa programas de computador.

O evento foi realizado no Auditório do Setor de Ciências Sociais, no campus Jardim Botânico, e organizado pela Comunidade Curitiba Livre, pelo Centro de Estudos de Informática da UFPR (CEI), e pelo Departamento de Informática da UFPR (DInf), com patrocínio do Centro de Computação Científica e Software Livre da UFPR (C3SL).

A palestra, feita em inglês, teve tradução simultânea financiada por uma campanha de financiamento coletivo.

Software livre – questão de liberdade, não de preço

Software livre, explica Stallman, é o programa de computador que respeita a liberdade do usuário. “Ele é ‘livre’, e não ‘gratuito’. Não estamos preocupados com a questão de preço, porque ela não gera um problema ético”, diz. Ou seja, um software livre pode ser tanto gratuito quanto pago.

Na opinião de Stallman, para qualquer programa, existem duas possibilidades: “ou os usuários controlam o programa, ou o programa controla os usuários, não há outra possibilidade. Quando os usuários controlam o programa, o chamamos de software livre”, afirma.

De acordo com a Free Software Foundation, um software é livre se respeitar os seguintes critérios:

Liberdade 0: A liberdade de executar o programa como você desejar, para qualquer propósito

Liberdade 1: A liberdade de estudar como o programa funciona, e adaptá-lo às suas necessidades. Para tanto, acesso ao código-fonte é um pré-requisito.

Liberdade 2: A liberdade de redistribuir cópias de modo que você possa ajudar ao próximo

Liberdade 3: A liberdade de distribuir cópias de suas versões modificadas a outros. Desta forma, você pode dar a toda comunidade a chance de beneficiar de suas mudanças. Para tanto, acesso ao código-fonte é um pré-requisito.

Os softwares que não têm essas características – e assim não permitem que o usuário acesse o seu código-fonte, faça modificações e distribua cópias do programa original ou modificado – são chamados de software proprietários. “Todo software que não é livre é uma injustiça”, defende Stallman.

Para ele, o software proprietário dá ao seu desenvolvedor muito poder sobre o usuário, o que pode levar a problemas como programas com funcionalidades maliciosas e programas que espiam e coletam dados do usuário.

Richard stallman 2 foto samira chami neves 509x338 Foto: Samira Chami Neves Sucom/ UFPR

GNU/ Linux

Richard Stallman criou o sistema operacional GNU em 1983. “Eu desenvolvi o sistema operacional GNU porque queria que fosse possível usar um computador e ter liberdade”, conta. O sistema é muito usado com o ‘kernel’ (núcleo) Linux, desenvolvido por Linus Torvalds em 1991. Como o sistema ficou popularmente conhecido apenas como “Linux”, Stallman faz questão de ressaltar que a maneira correta de se referir ao sistema é “GNU/ Linux”, para dar crédito ao seu trabalho.

Software livre x código aberto

Outro ponto que o ativista faz questão de esclarecer é a diferença entre software livre e código aberto, termos que muitas pessoas usam como sinônimos. Stallman diz que a ideia de código aberto defende valores dos quais não compartilha. Ele conta que o termo foi cunhado em 1998 por pessoas que discordavam dos valores filosóficos do Movimento Software Livre. “Eles construíram um discurso baseado em valores de conveniência prática, e nunca trazem a questão de certo ou errado, justo ou injusto, liberdade ou sujeição”, afirmou.

“Dizer que eu sou o pai do código aberto é como dizer que o Lula fundou o PMDB”, comparou.

Alta bastidores foto samira chami neves  2 Foto: Samira Chami Neves Sucom/ UFPR

O jornalismo da Sucom UFPR conversou com Richard Stallman sobre software livre:

Qual é a importância do ensino de software livre nas universidades?

Apenas software livre deveria ser permitido nos campi, exceto para se fazer engenharia reversa. A escola deve defender o espírito da educação, de ensinar as pessoas a serem prestativas e cooperativas com outros, e ensinar as pessoas a serem capazes, e não dependentes. E essas são as razões para se rejeitar software proprietário, não deveria haver software proprietário em escolas.

Recentemente vimos um ataque de ramsonware que atingiu computadores por todo o mundo. O sistema GNU/ Linux é vulnerável a ataques como esse?

Aparentemente, não é. Em primeiro lugar, aquele ataque foi só para Windows. Então, nesse caso particular, GNU/ Linux é inteiramente seguro. Eu não vou alegar que o GNU/ Linux não tenha vulnerabilidades, mas ele parece ter menos. O Windows parece ser terrivelmente vulnerável. E claro, se você fizer backups regulares, não vai ser atingido pelo ransomware.

Você falou sobre restrições que existem em produtos como livros digitais. As pessoas acabam comprando mídias digitais em nome da conveniência, mesmo sabendo dessas limitações. Existe uma solução que combine conveniência e que não limite o controle do usuário?

Certamente: tornar ilegal a venda de qualquer arquivo com DRM [Digital Rights Management, sistema usado para restringir o uso, modificação e distribuição de arquivos em formatos digitais de obras com direitos autorais]. O DRM é uma das injustiças de livros digitais. Outra injustiça é o contrato que restringe o que uma pessoa pode fazer com um livro; por exemplo, proibir que o livro seja dado a outra pessoa, ou que seja emprestado a outra pessoa. Assim como os contratos que dizem que você não tem a permissão de compartilhar cópias. Bem, em um livro impresso você não tem um contrato como esse, você não tem contrato algum. Esse contrato, chamado Acordo de licença de usuário final [EULA, na sigla em inglês], é uma injustiça. Eu nunca concordei com um EULA em minha vida, e nunca concordarei. E a terceira injustiça dos livros digitais comerciais típicos de hoje é que você não os pode comprar anonimamente. Eu gostaria que existisse uma loja de livros digitais que distribuísse livros sem DRM, sem um contrato, e que me deixasse comprar de forma anônima. Dessa forma, eu compraria.

E isso é viável?

Certamente que é viável. Exceto pela compra anônima, que exige um sistema anônimo de pagamento. Se o [sistema eletrônico de pagamento] GNU Taler for colocado em prática, essa seria uma maneira. Outra maneira disponível, pelo menos nos Estados Unidos, é o sistema chamado “Money Order”. Outra forma de se fazer isso é com cartões telefônicos pré-pagos.

Existe algum software proprietário que você gostaria que fosse lançado como software livre?

De todos os programas proprietários do mundo, o que seria mais importante… Uma coisa a se saber é que, em muitos casos, o hardware não executa nenhum outro programa. Ele procura por uma assinatura. Isso é uma das coisas maldosas dos mais novos processadores Intel. [O problema] não é só que nós não temos ideia de quais são as especificações do processador, e que o programa é proprietário, mas também, é que o processador, a Tecnologia de Gerenciamento Ativo se recusa a executar qualquer coisa que não tenha a assinatura da Intel. Então, apenas liberar esse código em software livre não traria nenhum benefício para nós. Nós não conseguiríamos dizer se o código-fonte que eles nos mostrassem de fato corresponde com o que está ocorrendo naqueles processos. E se nós o modificássemos, não seríamos capazes de compilá-lo, e se nós o compilássemos, não seríamos capazes de executá-lo.

Existem tantos programas proprietários os quais precisamos que sejam lançados como software livre. Em alguns casos, é um programa que faz algum trabalho complicado, e seria muito bom se tivéssemos um software que fizesse isso. Mas em outros casos, não é que o software realize alguma tarefa profunda e importante, é apenas que ele é requerido por alguma pequena parte da máquina, e não podemos usá-lo. Então, por exemplo, se o software de gráficos do Raspberry Pi [computador criado para promover o ensino de Ciência da Computação nas escolas] fosse lançado como software livre, a máquina seria capaz de funcionar usando apenas software livre. Isso seria um grande avanço.

Eu uso uma máquina sem unidade de processamento gráfico (GPU). Eu prefiro ter uma máquina sem GPU do que ter uma máquina com um GPU que eu não possa usar com software livre. Eu não me importo particularmente se uma máquina processa gráficos rapidamente. Eu não me importa tanto com gráficos, eu me importo com a liberdade.

Qual é o objetivo final do Movimento Software Livre?

O objetivo final do Movimento Software Livre é um mundo mais ou menos sem software proprietário. Claro, nunca se pode atingir a perfeição. Se alguém estiver, ocasionalmente, fazendo algum software proprietário, e alguém usando, mas que não seja algo comum, e que não tenha efeito importante na sociedade, diríamos que nós ganhamos, mais ou menos.

34990613761 f38e2d311c oFoto: Samira Chami Neves Sucom/ UFPR 

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Fonte: Bertoni

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