Em 2004, uma comédia de Sérgio Arau ganhou repercussão internacional, destilando sarcasmo e crítica social em relação ao modo como a população de origem latina é tratada nos Estados Unidos. No filme “Um dia sem os mexicanos”, a Califórnia acorda com uma grande surpresa: da noite para o dia, um terço de sua população simplesmente sumiu. Todos os 14 milhões de desaparecidos têm em um elemento em comum: todos são de origem hispânica. São policiais, médicos, enfermeiros, operários e babás que trabalhavam para o bem-estar da população branca. As hipóteses mais absurdas são levantadas para tentar explicar o fantástico desaparecimento de toda essa gente que, até então, era tratada como coberta por um manto de invisibilidade.
2013, quase dez anos depois, um acontecimento fantástico similar ocorre no Brasil: em um determinado dia de abril todos os jornalistas da chamada mídia alternativa e de outras mídias não tradicionais saem do ar. Os “mexicanos midiáticos” daqui simplesmente desaparecem. Sites, blogs, contas no Twitter e no Facebook somem. Caros Amigos, Carta Maior, Viomundo, blog do Rodrigo Vianna, Carta Capital, Blog da Cidadania, Blog do Nassif, Paulo Henrique Amorim e muitos outros silenciam. Não há nenhuma notícia a respeito do que aconteceu.
Neste dia, a população se depara com estranhas notícias na imprensa, da manhã à noite, sem qualquer tipo de contestação:
A mídia fala da fortuna de Lula e seu filho, que teria comprado até um prédio da agronomia da USP, para andar de skate lá dentro. O novo papa é apresentado como um gigante, perto das nanicas Dilma e Cristina Kirchnner. Ele é a favor dos pobres, e não fica dando bolsa e fazendo proselitismo com as pessoas. Colunistas reclamam: já viram que agora todo mundo tem de ser a favor de quem é pobre e defensor de gay? E quem não quer saber disso, para viver, como é que faz? O que esse pobrerio todo está indo fazer em Paris? Não sabe comprar perfume, vai fazer o que em loja de perfume, no Marais? Meu deus, a pessoa não pode mais, hoje em dia, ser uma pessoa normal, no Brasil? Tem de defender cotas, tem de aceitar os gays, tem de aceitar o barulho por conta de qualquer coisa? Arnaldo Jabor brada: Chega disso, gente!
Nas redes sociais, na internet de modo geral e nas bancas de revista desapareceram as poucas vozes que tentavam garantir alguma ordem na mixórdia de crenças contraditórias e de versões delirantes que abundam na mídia da meia dúzia de famílias que mandam na comunicação do Brasil, a não conhecida mundialmente mídia familiar brasileira.
Se o governo federal não levou o tema da democratização da comunicação a sério, os donos das grandes empresas de comunicação fizeram exatamente o contrário. Estão radiantes neste dia sem os “mexicanos”. Poderão respirar e descansar um pouco. Ao menos por um dia, não precisarão ler o Azenha ou o Paulo Henrique Amorim que, em seu blog mordaz e de textos curtíssimos, enuncia uma possibilidade de relação entre pesos e contrapesos característica de qualquer democracia, pelo menos conceitualmente falando. Aquela senhora militante tucana, que chama os apoiadores do governo de massa não-cheirosa também sorri. Aquela senhora sabe bem quem é Saul Leblon, pelo menos em suas opiniões, diárias, de ataque à orgia antirrealista que tomou conta da mídia familiar brasileira.
O que aconteceu, afinal? Para onde foi todo mundo? Algumas hipóteses são levantadas. O governo passou a sufocar os veículos dos “mexicanos”, por meio da não renovação de contratos de publicidade de órgãos públicos, e desistiu de levar adiante o debate sobre a regulamentação da comunicação. Critérios de mercado, alega. A explicação não convence muito, embora forneça uma pista sobre o desaparecimento em massa dos “mexicanos”. Serviços públicos, e a comunicação é um serviço de natureza pública, não são equiparáveis aos bens expostos à compra e venda nas ruas comerciais. O governo diz que os critérios para os anúncios são comerciais. É como se 1. antes não tivesse sido e 2. a mídia familiar brasileira atendesse a critérios comerciais, na sua existência. Mas o argumento é falacioso por razões de fundo: bens públicos não são redutíveis a relações puramente comutativas. Por isso há regulação, por exemplo, no setor energético, de telefonia, de estradas, de saúde, etc. O fato mesmo de não haver regulação na comunicação, no Brasil, denota o caráter monopólico do bem em questão.
O episódio da demissão da redação da Revista Caros Amigos, um dos únicos veículos de oposição ao governo Fernando Henrique Cardoso, por esqualidez financeira, foi um sinal. A natureza do acontecimento fantástico de desaparecimento de sites, blogs, tuiteiros e que tais começa, aos poucos, a se revelar. Para os editores e donos da mídia familiar brasileira, a explicação é simples, eles não precisam ficar mais testando hipóteses. Sabem bem por que razão a Caros Amigos, a Carta Maior, o Viomundo, o Nassif, o Rodrigo Vianna, a revista Fórum e muitos outros devem ser silenciados: a relação é de força e é política, antes e muito além de qualquer relação comercial de competitividade. Trata-se de evitar a relação republicana e democrática elementar de um sistema de pesos e contrapesos na comunicação.
O que fazer agora? – perguntam-se alguns, atônitos e impotentes. Não dá para ficar batendo palmas pela explosão do consumo de geladeiras e automóveis, enquanto não se leva a sério políticas de médio prazo que forneçam lastro cultural e educacional para o amplo conjunto da população. Não é preciso inteligência para ver que há espetáculo, notícias vexatórias e mentirosas, manipulação, caras e bocas que transformam jornalistas em atores de novela. As pessoas capazes do mínimo de reflexão sabem que a mídia familiar brasileira é militante de interesses particulares. Para essa mídia, é um estorvo ter de aguentar diariamente os “mexicanos” gritando, lutando para conseguir denunciarem o horror midiático, que é real.
Tirem do ar todos os “mexicanos”, então. Eles não fazem muita falta. E, quando for preciso, eles acabarão aparecendo e farão o trabalho duro. De graça.
Marco Aurélio Weissheimer
No RSUrgente
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