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“As mulheres precisam ocupar os espaços de poder para transformar o poder em algo não violento”, defende Márcia Tiburi

22 de Abril de 2018, 22:09 , por Terra Sem Males - | No one following this article yet.
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A filósofa, professora e escritora Márcia Tiburi, que viaja o Brasil para lançar seu 25° livro, Feminismo em Comum (editora Rosa dos Tempos), em Curitiba trocou o habitual ambiente das livrarias para fazer o lançamento no acampamento #LulaLivre, ao lado da Polícia Federal.

“É momento de prestar solidariedade ao PT, partido que foi transformado numa metáfora do mal pra grande parte da população brasileira”, justificou a escritora, que também participou de um ato político pela liberdade do ex-presidente.

Marcia Tiburi realizou lançamento de seu livro em Curitiba no acampamento Lula Livre. Foto: Giorgia Prates.

O lançamento aconteceu no último sábado (21), em parceria com a livraria Vertov, que vendeu vários títulos de Tiburi no local. Somente do Feminismo em Comum foram 295 unidades, todas devidamente autografadas na sessão que durou quase duas horas.

Antes do lançamento, o Terra Sem Males conversou com Márcia Tiburi sobre feminismo, Brasil pós-golpe, caça aos intelectuais que se opõem ao sistema dominante, entre outros temas.

Você tem dito que a revolução necessária no mundo deve vir pelas mãos das mulheres. Por que você defende isso?

Porque a razão é patriarcal, a sociedade é patriarcal, o sistema capitalista é patriarcal. Então, a luta contra o patriarcado machista, sexista, capitalista e racista é uma luta que envolve esses corpos escravizados, marcados e heterodenominados pelo patriarcado como sendo mulheres.

Você acredita é que importante que as mulheres ocupem os espaços de poder?

É absolutamente essencial até porque a gente precisa transformar o poder em outra coisa. O poder, por si só, se transforma em pura violência e é isso que os homens têm feito contra as mulheres ao longo da história.

Marcia Tiburi é a idealizadora do coletivo feminista partidA. Foto: Giorgia Prates

Quando você idealizou a partidA feminista foi dentro dessa perspectiva?

A partidA Feminista é uma ideia, é o resultado de um desejo de transformação, de um desejo que é uma luta política, mas que é uma luta também pela verdade, uma luta intelectual, uma luta por uma outra racionalidade, capaz de desmontar esse estado de coisas injusto, que é onde a gente está vivendo.

E como esse coletivo atua hoje no país?

A partidA hoje está espalhada pelo Brasil. Como ela não é um movimento hierárquico – porque ela não é machista – ela é autocriativa. Então, ela depende muito do modo como as pessoas elaboram sua relação umas com as outras e o modo como elas desenvolvem uma ideia de democracia. Agora, qual é a nossa proposta, aquilo que a gente coloca como começo da conversa? Ocupar os espaços de poder para que a gente possa transformar o poder em outras potências, pra que a gente possa dar espaço para que as singularidades floresçam, para que as pessoas que vivem a vida política, que vivem as relações democráticas, pra que essas pessoas possam inventar sua própria história junto com as outras. Reinventar, assim, as cidades, os lugares, as instituições, refazer o sentido dos encontros.

Isso tem a ver com o que você aborda no livro “Feminismo em Comum”?

O Feminismo em Comum é uma vontade de colocar em cena a diferença que é constitutiva do feminismo. O feminismo não é unitário, nem sectário, nem universal. Feminismo é o nome que a gente dá pra toda uma diversidade teórica e prática que envolve pessoas que lutam contra sistemas de opressão. O antiracismo, o anticapitalismo, o anticorporativismo, o antisexismo, o anarquismo, o socialismo, o comunismo e a autocrítica disso tudo compõe o que a gente chama, hoje em dia, de feminismo. O feminismo é uma vontade de construir um outro comum e, nesse caso, a gente tem que passar também pela compreensão da nossa diversidade. A gente não precisa estar de acordo, vivendo consenso, vivendo a cordialidade. A gente precisa só pensar com radicalidade e preservar a vida das pessoas, da natureza, as relações que visam, enfim, a democracia no sentido radical.

Você se candidataria a algum cargo eletivo?

Não. Não acho que esse é um caminho. Quer dizer, me candidataria se fosse uma coisa que fizesse muito sentido, mas eu acho que cada um faz a sua política também no espaço em que ocupa, né? Então, hoje em dia, eu sou mais a favor da gente fomentar uma grande transformação no Congresso Nacional e ajudar a preparar isso do que eu me candidatar sozinha. Isso correria o risco de ficar uma coisa meio personalista. Agora, um grande projeto, de muita gente tentando construir uma outra história, até talvez pudesse ser. Em que pese que nesse momento eu acho que tenho um papel mais importante junto com os intelectuais, que, pro meu gosto, por sinal, estão muito escondidos. Cadê meus colegas?

O que você acha do fato de mulheres, negros e outros oprimidos defenderem ideias reacionárias e conservadoras que atentam, inclusive, contra os seus próprios direitos?

Eu acho uma pena quando uma pessoa cai em contradição em relação aos marcadores de opressão e à tática de opressão que depõem contra ela. Você ser pobre e defender o capitalismo, você ser negro e defender o racismo, você ser mulher e defender o machismo é uma autocontradição. Você está apoiando seu algoz. É como se você fosse um masoquista. Mas eu fico mesmo é preocupada com o funcionamento das elites, daqueles que são donos dos sistemas de privilégios e que criam esquemas de argumentos, pensamentos e afetividades na tentativa de cooptar pessoas fragilizadas pelos marcadores de opressão. São machistas que tentam convencer mulheres de que eles estão certos, racistas que tentam convencer os negros de que eles estão lhes oferecendo alguma coisa boa, capitalistas que tentam convencer os pobres de que o neoliberalismo é maravilhoso.

Foto: Giorgia Prates

Você acha que estamos vivendo no Brasil um momento de caça às bruxas?

Com certeza. Todo mundo que pensa diferente do sistema colocado hoje está, de alguma forma, sendo caçado. E o mais triste é ser caçado pelo seu próprio vizinho, familiar, amigo. A gente tem que pensar muito nisso porque isso não pode continuar. As instituições fascistizam, elas entram e promovem processos de autoritarismo exacerbado, de preconceito exacerbado, de maneira estratégica contra os outros de um jeito muito fácil. A gente precisa interromper isso também nas nossas afetividades. Nós não podemos interiorizar essa lógica que se transformou em razão de estado hoje no Brasil, onde o autoritarismo, o preconceito e o neoliberalismo viraram realmente razão de Estado. Tudo se faz em nome do racismo, do preconceito, do machismo, do autoritarismo, da rasgação da Constituição e parece que isso é normal. Nós temos que interromper esse processo, do contrário, não sei onde nós vamos parar. Mas é bom que as pessoas imaginem um pouco porque não vai ser nada bonito, nem bom, nem verdadeiro, nem razoável para a continuidade na vida de ninguém.

A execução da Marielle está inserida nesse processo?

Eu acho que a gente tem um Brasil antes do golpe de 2016 e outro depois. O assassinato brutal de Marielle Franco faz parte desse golpe que continua, não está deslocado dessa lógica proposta no golpe. Assim como a prisão de Lula não está. Pra que essa lógica siga funcionando é preciso que o sistema veja cada pessoa se engajando nessa luta porque se as pessoas forem contra, se o indivíduo for contra tudo isso, ele se torna perigoso pra o sistema. Hoje estão sendo caçadas diversas pessoas, dos mais diversos territórios, atuando nas mais diversas frentes, que estão contra o golpe, que percebem essa lógica e a denunciam. Estão sendo caçadas porque elas interrompem uma programação que foi estabelecida previamente. E o cidadão comum, esse que trabalha o dia inteiro e não tem tempo pra pensar ou que está de alguma forma situado num sistema de privilégios no qual ele se sente mais seguro aderindo à tendência dominante, esse cidadão precisa às vezes ser avisado mesmo, né? Eu não acho que todo mundo entra numa proposta de fascitização assim só porque tem um coração ruim. As pessoas se entregam a esse tipo de lógica porque faz parte de um discurso pronto e muita gente funciona mentalmente repetindo clichês. E o pensamento pronto está aí justamente para ser comprado. Esse esforço de pensar por conta própria é mais complexo, exige outras mediações que são mais difíceis de se ter numa sociedade em que você tem acesso fácil à televisão, mas não tem ao livro. Tem também o problema da consciência dissociada, né? O cidadão que estudou muito, que viu muita coisa, mas não consegue juntar o que ele conhece em termos de ciência e artes à sociedade como um todo.

Por que você fez questão de vir lançar seu último livro no acampamento #LulaLivre?

Tem muitos aspectos. Primeiro, porque eu quero estar com as feministas, então, eu vou com as feministas. Mas acho também que é o momento de prestar solidariedade ao PT, partido que foi transformado numa metáfora do mal pra grande parte da população brasileira, que realiza seu ódio com relação ao PT como os nazistas realizavam seu ódio com relação aos judeus na Alemanha nos anos 30 e 40 do século passado. A Alemanha acabou numa catástrofe terrível do ponto de vista humano e eu espero que o Brasil não chegue a esse nível de delírio. Por isso, eu resolvi me filiar ao PT, apoiar o PT, defender Lula, como defendi Dilma, como defenderei qualquer pessoa que tem o direito da presunção de inocência. Sem falar que as instituições têm feito um desfavor à cultura, à nação, à política à democracia, rasgando a Constituição, sobretudo, o Judiciário, do qual a gente se envergonha muito hoje em dia no Brasil. Assim como a gente se envergonha da mídia tradicional. Por sorte, existe a mídia alternativa, pessoas que estão denunciando, criticando; pessoas que estão lúcidas, acordadas, alertas com relação ao sono dogmático de grande parcela da nação. Então, eu vim pra cá por isso, pra estar perto das feministas e das pessoas que têm senso de história, noção de lógica, de inteligência, de conhecimento, que valorizam a democracia que está em risco pra nós agora. E quando a democracia cai por terra, não existe mais chance de país nenhum. Vai ser muito ruim pra todo mundo.

Você tem esperança de um Brasil melhor?

A gente, hoje, vive que nem naquele livro do [Thomas] Hobbes, no Leviatã, entre o medo e a esperança. O medo é gêmeo da esperança, os dois nascem juntos. Acho bom a gente nunca esquecer o medo no meio da esperança e, ao mesmo tempo, não se deixar levar por ele. Porque o medo é uma estratégia plantada também pelos donos do poder pra que a população fique prostrada e deprimida. A gente conhece essa política toda do neoliberalismo, essa tática de terror do neoliberalismo, porque hoje a gente não está vivendo só um terror político, a gente está vivendo um terror econômico. E não é, inclusive, que a economia tenha suplantado a política. Na verdade, há em curso uma destruição da economia e da política ao mesmo tempo e isso é uma tática de terror que é lançada contra a população, contra os grupos que batalham pela democracia, por um estado de bem-estar social que sirva ao povo. A gente precisa acordar pra isso também porque que país vai sobrar pras pessoas quando elas não tiverem mais um país? Há uma construção da guerra de todos contra todos e o neoliberalismo como economia política faz isso entre nós. A esperança implica em poder desconstruir essa lógica neoliberal entre nós. Não vai ser fácil, mas a gente tá aí justamente pra isso.

Por Waleiska Fernandes
Fotos: Giorgia Prates
Terra Sem Males


Fonte: http://www.terrasemmales.com.br/as-mulheres-precisam-ocupar-os-espacos-de-poder-para-transformar-o-poder-em-algo-nao-violento-defende-marcia-tiburi/