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Dia do Fotógrafo: Kevin Carter, o abutre e a criança

8 de Janeiro de 2018, 12:47 , por Terra Sem Males - | No one following this article yet.
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No dia 08 de janeiro se comemora o Dia do Fotógrafo no Brasil. Não poderia deixar de falar em um dos fotógrafos que me inspirou no fotojornalismo por causa de uma única foto. Claro que com o passar dos tempos mergulhei em outros trabalhos dele. Mas foi a foto do abutre espreitando a criança que mexeu comigo… e com outras milhões de pessoas.

O momento

“Kevin tinha visto João e foi na direção dele depressa, muito agitado. “Cara”, pôs uma mão no ombro de João e cobriu os olhos com a outra, “você não vai acreditar no que acabei de fotografar!” Esfregava os olhos, mas não havia lágrimas; era como se tentasse apagar a lembrança do que fotografara, do que lhe ficara gravado na retina.

João lhe deu uma olhada desconfiada. Não gostava desta historia de “você não vai acreditar” em nenhuma situação, muito menos quando ele próprio não tinha visto oportunidade melhor de uma foto excepcional. Mas Kevin continuou, sem notar a expressão de ceticismo do amigo. “Eu estava fotografando uma criança ajoelhada, aí mudei de ângulo e, de repente, havia um abutre bem atrás dela!” Kevin estava excitado, falando muito rápido. “Continuei batendo um montão de filmes!” Gesticulava muito, como costumava fazer quando se entusiasmava ao contar alguma coisa.”

Transcrito do livro “O Clube do Bangue-bangue“, página 157, Cia das Letras.

A obra de Kevin Carter vencedora do Prêmio Pulitzer de Fotografia

O observador

Kevin Carter foi um repórter fotográfico sul-africano, integrante do Clube do Bangue Bangue, e autor da imagem acima que lhe deu o Prêmio Pullitzer de 1994 para melhor fotografia. Esta foto levou Kevin Carter ao suicídio.

Carter fez este registro no Sudão, quando documentava a imensa tragédia da fome causada pela guerra civil. Sem muito o que fotografar ele viu a menina, que rastejava em direção a um distante posto de alimentação, enquanto era observada por um abutre.

Kevin fotografou de vários ângulos, enxotou o abutre e partiu junto com outros jornalistas em busca de outras imagens.

Solidariedade

A forte imagem fez o mundo olhar para a fome na África. Crianças do Japão escreveram cartas que Kevin não chegou a ler. Elas chegaram dias após seu funeral. Algumas das mensagens diziam: “se eu for apanhado numa situação difícil, vou me lembrar da sua foto e tentar vencer a situação”; “Até agora fui uma pessoa egoísta”; “Eu tiraria a foto com as mãos tremendo”, foram alguns dos relatos japoneses.

Por outro lado, muitos o condenaram por não ter ajudado a criança, pois a imagem foi feita num acampamento da ONU justamente onde havia ajuda humanitária.

A criança

Somente em 2011 uma equipe de repórteres do El Mundo descobriu que a criança sobreviveu à fome. Seu nome era Kong Nyong.

É possível ver na mão direita de Nyong uma pulseira de plástico da ONU. Ao ampliar a imagem, vê-se a sigla “T3”.

Segundo Florence Mourin, que coordenava os trabalhos naquela campo improvisado de ajuda alimentar, “usavam-se duas letras: “T” para a malnutrição severa e “S” para os que só necessitavam de alimentação suplementar. O número indica a ordem de chegada ao centro alimentar”.

Kong Nyong sofria de malnutrição severa, foi o terceiro a chegar àquele centro e estava a receber ajuda. Sobreviveu à fome e evitou o abutre. Segundo o pai morreu em 2006, vítima “de febres”, não de fome.

O suícidio

Em 27 de julho de 1994 levou seu carro até um local da sua infância e suicidou-se ao utilizar uma mangueira para levar a fumaça do escapamento para dentro de seu carro. Ele morreu envenenado por monóxido de carbono aos 33 anos de idade. Parte da nota de suicídio de Carter dizia:

Estou deprimido… Sem telefone… Sem dinheiro para o aluguel… Sem dinheiro para ajudar as crianças… Sem dinheiro para as dívidas… Dinheiro!!!… Sou perseguido pela viva lembrança de assassinatos, cadáveres, raiva e dor… Pelas crianças feridas ou famintas… Pelos homens malucos com o dedo no gatilho, muitas vezes policiais, carrascos… Se eu tiver sorte, vou me juntar ao Ken…

Seus amigos disseram que a depressão aumentou devido aos ataques que ele sofreu em todo o mundo, por “não ter ajudado” a criança.

Sugestão de leitura: O Clube do Bangue-Bangue, Greg Marinovich e João Silva, Editora Companhia das Letras.

Sugestão de filme: Repórteres de Guerra (The Bang Bang Club), direção de Steven Silver.

Por Joka Madruga, repórter fotográfico, com informações do El Mundo e JN de Portugal.

Terra Sem Males


Fonte: http://www.terrasemmales.com.br/dia-do-fotografo-kevin-carter-o-abutre-e-a-crianca/