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Terra Sem Males

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Pare o mundo que eu quero descer

5 de Dezembro de 2017, 20:56 , por Terra Sem Males - | No one following this article yet.
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Tarde fria e chuvosa de 21 de agosto de 1989, e lá na encruzilhada da Igrejinha da comunidade de Diamante, município de Major Gercino, enquanto aguardava chegar a carroça com os queijos do seu Arnoldo, eu ouvia o rádio da mercedinha 608 tocando uma seleção de Raul Seixas. De repente, o radialista anuncia que aquela seleção era uma homenagem ao “Maluco beleza”, que havia falecido naquele dia. Entristecido, pois cresci ouvindo suas músicas e nos encontros da Pastoral da Juventude qualquer jovem que tinha o dom de tocar um violão, logo vinha no roteiro uma de suas músicas e todos cantavam, quase como um hino.

Os irmãos já tinham crescido, a terra era pouca, então no período de entre safra do fumo, o jeito era conseguir uns bicos e ganhar uns trocados extras para ajudar a família e a si próprio. Então, o jeito foi ir trabalhar uns meses de ajudante de comerciante com o Eládio Batista na comunidade do Campinho, também no município de Major Gercino. Eládio, um sujeito simples com a lida da roça, filho caçula de uma família de agricultores e produtores de leite, resolve comprar uma caminhonete 608 (famosa mercedinha) e tornar-se comerciante, ou como tratamos na roça “atravessador”, que tem como função principal, comprar os produtos dos agricultores familiares e vender nos grandes centros urbanos da região. Também traz os produtos básicos do meio urbano e os vende para os agricultores ou simplesmente fazer a troca.

Toda semana tinha o roteiro pelas comunidades de Diamante, Barra Negra, Boitexburgo, Rio do Ouro, Pinheiral e Galícia no município de Major Gercino e Rio do Norte, Barra Clara, Rio Sebastião, Rio São João, Rio Novo, Quebra Dente no município de Angelina. Além de duas ou mais viagens de carga por semana. Viagens estas para as cidades de Brusque, Blumenau, Itajaí, Balneário Camboriú, Itapema, Tijucas, São João Batista, São José, Palhoça e Florianópolis, sendo que cada cidade tinha um conjunto de comércios, supermercados, feirões e Ceasas que tinha que entregar os produtos.

Enquanto um dirigia o outro descansava e lá ia a gente indo e voltando todos os dias da semana e lógico, na maioria dos dias ouvindo as fitas cassetes com músicas de Raul Seixas ou outro sertanejo qualquer.

Em cada casa, seja residencial ou comercial tinha-se a oferta de café, um chimarrão ou mesmo uma cachaça. Entre uma pechinha e a conclusão de um negócio sempre havia as conversas sobre futebol, roça, política, bailes ou música. Muito mais do que comerciantes, eram amigos e parceiros. Quantas vezes trazíamos remédios, perfumarias, bebidas ou até cartas de parentes que moravam nas cidades ou que pela distância não tinham como comprar.

Aos finais de semana voltava para a comunidade para dar continuidade nas ações pastorais, do futebol e todas as demais. Mas quando tinha alguma folga, também ajudava nas comunidades das quais tínhamos contatos durante a semana. Os grupos de jovens, os times de futebol, a organização dos agricultores e também nos bailes, nas festas de aniversário e nas costeladas que iam sendo marcados entre uma negociação e outra.

Como não lembrar da gincana dos grupos de jovens da Paróquia de Leoberto Leal onde se encontraram todos os grupos da paróquia para uma bela celebração, além de belos debates e atividades culturais.

Destes tempos, amizades se eternizaram e se mantem até hoje. A cada encontro sempre tem uma história ou uma lembrança desta época. Como não rir das história com o Edio e a Luzia, que em seu bar era parada obrigatória em todas as passadas, o café na casa do Lageano e do Vadinho, ou a cachaça com o toque de uma boa sanfona na casa do Samuel, todos na comunidade de Diamante.

Ah, que saudade dos bailes na Sede ou em Boitexburgo onde nos encontrávamos para festejar e das disputas de dança de salão, onde meu par era a Janete e quase sempre disputava a final com o Samuel e a esposa. Bem como, das domingueiras no salão da igreja católica da Comunidade do Diamante onde dançávamos e brincávamos as tardes e noites.

Nas noites em que estávamos por casa ir jogar um dominó no bar do Laudino Bruch. Além de jogar, conversar com o amigo Laudino sobre política, futebol e roça era algo além de proveitoso muito divertido. Pude retribuir esta amizade quando foi me visitar quase vinte anos depois em Brasília, onde novamente podemos rir um bocado e tomar uns tragos para celebrar a vida e a amizade.

A experiência deste trabalho foi curta, pois tinha que voltar para zelar tocar a safra de fumo. Porém, de um acumulado de amizades e aprendizado sem nenhuma possibilidade de ser dimensionado, pois são duráveis e lembradas por quase trinta anos.

Valores que permanecem no relembrar de cada encontro seja casual ou não. Valores estes cada vez mais escassos nos tempos atuais, haja vista, preconceitos estabelecidos por uma cultura individualista, intolerante e violenta, onde a solidariedade, a amizade e a ajuda mútua são cada vez mais raras nos dias atuais.

E assim vamos seguindo e quando não conseguimos viver da mesma forma vamos relembrando das boas coisas para não precisar repetir a música de Raul Seixas, “Pare o Mundo que eu quero descer”.

Pare o Mundo Que Eu Quero Descer
Raul Seixas

Pare o mundo que eu quero descer
Por que eu não aguento mais escovar
Os dentes com a boca cheia de fumaça
Você acha graça por que se esquece que
Nasceu numa época cheia de conflito entre raças.

Pare o mundo que eu quero descer
Por que eu não aguento mais tirar fotografias
Pra arrumar meus documentos
É carteira disso, daquilo que já até
Amarelou minha certidão de nascimento.

E ainda por cima:
Ter que pagar pra nascer,
Ter que pagar pra viver, ter que pagar pra morrer
Ter que pagar pra nascer,
Ter que pagar pra viver, ter que pagar pra morrer

Pare o mundo que eu quero descer
Por que eu não aguento mais esperar
O Corinthians ganhar o campeonato
E trabalhar feito um cão pra pagar multas, impostos,
Pedágios pra poder engordar os crapus.

Pare o mundo que eu quero descer
Por que eu não aguento mais notícias de
Corrupção, violência que não param de aumentar
E pensar que a poluição contaminou até as
Lágrimas e eu não consigo mais chorar.
E ainda por cima:
Ter que pagar pra nascer,
Ter que pagar pra viver, ter que pagar pra morrer
Ter que pagar pra nascer,
Ter que pagar pra viver, ter que pagar pra morrer.

Tá tudo errado, tá tudo errado
Desorientado, cego vivo enquanto eu vou
Ficando aqui parado
Tá tudo errado, tá tudo errado
Eu só quero ter você comigo e mandar
O resto tudo pros diabos.

Tá tudo errado, tá tudo errado
Desorientado, cego vivo enquanto eu vou
Ficando aqui parado
Tá tudo errado, tá tudo errado
Eu só quero teu amor aqui comigo e mandar
O resto tudo pros diabos.

Tá tudo errado, tá tudo errado
Desorientado, cego vivo enquanto eu vou
Ficando aqui parado
Tá tudo errado, tá tudo errado
Tá tudo errado, tudo errado
Tá tudo errado, tudo errado
Tudo Errado

José Claudenor Vermohlen (Zeca) é consultor e escreve para o Terra Sem Males
A foto é do arquivo pessoal de Joka Madruga


Fonte: http://www.terrasemmales.com.br/pare-o-mundo-que-eu-quero-descer/