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Análise de filme-O palhaço- qual a graça da vida?

21 de Julho de 2014, 18:38 , por Rafael Pisani Ribeiro - 1Um comentário | No one following this article yet.
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Licenciado sob CC (by-nc-sa)

Benjamim (Selton Mello) trabalha no Circo Esperança junto com seu pai Valdemar (Paulo José). Juntos, eles formam a dupla de palhaços Pangaré & Puro Sangue e fazem a alegria da platéia. Mas a vida anda sem graça para Benjamin, que passa por uma crise existencial e assim, volta e meia, pensa em abandonar Lola (Giselle Mota), a mulher que cospe fogo, os irmãos Lorotta (Álamo Facó e Hossen Minussi), Dona Zaira (Teuda Bara) e o resto dos amigos da trupe. Seu pai e amigos lamentam o que está acontecendo com o companheiro, mas entendem que ele precisa encontrar seu caminho por conta própria.[1](link para assistir ao filme http://megafilmeshd.net/o-palhaco/)

O filme inicia mostrando a rotina do circo e das pessoas que lá vivem, a forma como uma tradição se perpetua.  O palhaço do principal, pangaré, faz dupla com o pai que também é palhaço, puro sangue. A grande questão do filme é um paradoxo, isto é, o personagem principal vive para dar graça à vida dos outros, mas sua própria vida não tem graça. Isso traz a pergunta: nossa vida é em função da graça de outros, da nossa ou de ambos?

A partir disso Benjamin fica sempre observando a frente, além do sertão onde o circo se localiza, pensando o que será da vida. O primeiro choque que leva é quando uma garota chamada Ana o elogia e diz para ir à sua cidade que se chama passos. Só depois de ela ter falado tudo é que ele se liga e pede para repetir a fala, demonstrando que houve interesse mútuo. Em outras ocasiões, enquanto todo mundo se contenta com ocasiões de excesso Benjamin fica perdido em si mesmo. Há um mundo de falsidade onde os artistas da trupe cobram Benjamin de pagamentos e coisas do tipo, mas externamente traduzem a situação como linda.

 Em muitos momentos, apesar da falta de graça de sua vida, consegue trazer a tona a graça do cotidiano, que de graça nada tem com frases como:  “será que a senhora não tem um sutien sobrando? Um bem grande e velho?”. Outro tema abordado é o comportamento infantil. A naturalidade dos comportamentos emitidos pelas crianças, simplesmente com o objetivo de dar graça a vida. Onde erros podem subitamente virar acertos e formar um belo show, sempre observando através da identificação com o outro. Ao observar as crianças o personagem principal cai em uma dúvida existencial maior ainda. Nesse meio tempo histórias parecidas de pai dono e filho que é filho do dono tem um fim triste.

A noção humana de egoísmo, com o comportamento de Beto e Deto quando o caminhão estraga, e mesmo quando todos tem de dar o dinheiro é clara. A vida de circo é também um tema abordado, onde o personagem principal só tem certidão de nascimento e nada mais, por isso fica impedido de comprar um ventilador e dúvidas existenciais com exigências de conhecimentos básicos não são acessíveis.

O fato de possuir só certidão de nascimento o limita a todos efeitos, até conseguir empregos. O comportamento de um de seus colegas a perguntar se cheira mal, e a única resposta é um vidro aberto, são pequenas ironias comportamentais. É importante notar como o personagem tem uma grande fixação com ventiladores, algo que sempre o chama atenção. Até que um dia ele decide largar o circo e seguir seu caminho, apesar de estar sempre perdido querendo chegar a passos. Isso faz com que a estrutura do circo desmorone, e toda uma rede de desafetos passa a transcorrer. É como se apesar de sua tristeza Benjamin fosse a base emocional do circo.

Conclusão 

Considero como personagens importantes além do principal, a criança e todo o resto de pessoas que o servem de consolo. A menina é como se fosse um reflexo do eu anterior dele, sempre a observar, identificar, sonhar em ser algo, mas nunca ter tido oportunidade de ser outra coisa.  Outro fato interessante é a constante falta de “identidade”, mas o filme fala sobre a identidade documento, ou a identidade do sujeito? Tenho grande impressão que isso é sobre a identidade do sujeito, e não documento.

Benjamin, ao longo da saída do circo vai se tornando algo que não sabe o que é, e para quem não possuía identidade, passa a exigir dos outros sempre “identidade, CPF e comprovante de endereço”, aonde ainda não se identifica com nada e até mesmo sua amada Ana está para se casar. Benjamin é um homem sempre alheio ao mundo que na presença de um ventilador passa a ver a alegria e formas de tornar útil sua habilidade, dar graça a sua vida para além da dos outros.

O personagem tem sua metamorfose completa quando no meio de um show volta de surpresa e todo o circo se alegra, contagiando a platéia e aos personagens, quando pai e filho se reconciliam em meio ao palco, e a graça da vida de Benjamin se torna a graça de ser palhaço, reconhecer a própria fraqueza e transformá-la em fortaleza. Igualmente a menina tem tal transformação quando substitui a moça expulsa, e em seu papel alcança a felicidade genuína.

Ao fim Benjamin é capaz de jogar sua “identidade” fora e ficar só com a certidão de nascimento. A função do ventilador? Após tantas aparições é como sua lógica, dá voltas completas voltando ao mesmo ponto. Assim é Benjamin que dá uma volta completa em torno de si mesmo, mas enxergando-se de forma diferente. [2]A pergunta “será que a senhora não tem um sutien sobrando? Um bem grande e velho?” feita a outros não é literal, e sim metafórica. É como dizer:  “Você possui um espaço para aplacar um coração desamparado?”. Você consegue ser palhaço, desenvolver sua maior fraqueza e dar graça a sua vida? Pergunto a você para finalizar: “será que você não tem um sutien sobrando? Um bem grande e velho?”

Lembrem-se de referenciar a fonte caso utilizem algo deste blog. Dúvidas, comentários, complementações? Deixe nos comentários.

Escrito por: Rafael Pisani em 03/06/2014.

 Referencia:

A Representação do objeto ventilador no filme O Palhaço; Vanessa Paula Trigueiro Moura; Disponível em: http://www.rua.ufscar.br/site/?p=14635 . Local de publicação: REVISTA Universitária Aodiovisual-RUA; 15 dezembro de 2012;  Data de acesso: 03 de junho de 2014

Disponível em http://www.adorocinema.com/filmes/filme-202591/

  / http://www.adorocinema.com . Data de acesso: 03 de junho de 2014

 


[1] http://www.adorocinema.com/filmes/filme-202591/

[2] Fonte sobre o ventilador: http://www.rua.ufscar.br/site/?p=14635

 

 


Tags deste artigo: análises de filme- potencial humano

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