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Onde está o senso

10 de Agosto de 2014, 7:00 , por Rafael Pisani Ribeiro - 0sem comentários ainda | No one following this article yet.
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Licenciado sob CC (by-nc-sa)

 

Click. Barulho de carro acelerando.

Era eu pegando a estrada em uma tarde de sexta feira. Destino? Eu não sabia. Procurava o que se chama hoje de liberdade. Mas eu não sabia bem o que era isso, eu só tinha uma ideia do que era e descobri que só saberia de fato o significado disso depois que pegasse a estrada. Já havia largado meu emprego, minha faculdade, minha namorada e família. A única coisa que peguei foi a picape e a carteira com dinheiro e documentos. Somente.

Ali eu sentia algo diferente, uma energia cósmica incapaz de se perceber quando está ocupado com alguma bobagem, conversando sobre marca de ternos, por exemplo. Era algo tão sublime, tão puro e incrível. Parecia uma pequena amostra do paraíso. É a melhor sensação possível.

O vento batia no rosto de maneira diferente, parecia surreal. Dei um gole de cerveja, comi uns salgadinhos, fumei uma erva.  O momento pedia isso.  Alguns metros a frente, um sujeito pede carona. Usava terno, bigode e chapéu de coco. Um tipo bastante diferente. Parei o carro e ele se aproximou de mim. Trazia consigo um mapa na mão. Ele então começou a falar, aquela voz por baixo do bigode, uma coisa esquisita.

 - Rapaz, me leve até a próxima cidade? Eu te recompenso bem.

 - Entre, cara. 

Ele entrou e parecia um pouco ofegante.

Arrancamos o carro, ele me observava.

 - Dia cheio, senhor? – perguntei.

 - Não muito, porém movimentado. Fiz uma pregação em uma igreja ali agora a pouco e vim caminhando até aqui.

 - Entendi. Hoje o dia está quente, pegar a estrada caminhando talvez não seja uma boa alternativa.

Vi que sem querer havia acabado de atropelar um pombo que estava sossegado demais.

 - Cuidado jovem, é só um animal inocente. Você o matou! -gritou.

Achei muito estranha e grossa a reação do homem. Mas larguei pra lá.

 - Pois é, me distraí, estou chateado também. Mas me diz, o que mais costuma fazer? – perguntei.

 - Eu gosto de andar, gosto de conversar com Deus.

 - Eu também gosto de andar, mas gosto mais de dirigir. Me abre uma boa oportunidade de conversar também, mas converso comigo mesmo. Faço a mim questionamentos, pensar no suposto outro lado que tudo tem ou deva ter.

 - Mas a resposta pra tudo isso está na bíblia, jovem.

 - Ah não sei, nunca consegui conversar com ela não.

 - Você precisa que Deus crie em você o entendimento para absorver as leituras bíblicas.

 - Será mesmo? Eu já li várias coisas lá que pareciam muito concretas, não cabível de nenhuma interpretação especial.

 - Como, por exemplo? – perguntou o homem.

 - Na verdade o que está escrito lá é bastante comum. Muitas vezes extremamente político. Me aterroriza é a maneira em que os religiosos interpretam e como eles perdem o senso de ética e humanidade.

O senhor interrompeu:

 - Você disse, disse, disse e não disse nada, jovem. Dê logo o exemplo.

Disse isso rindo pra mim.

 - Qualquer massacre, por exemplo. Teve milhares. E alguns bastante bárbaros. Deus mandando ‘’seu povo’’ a destruir uma cidade que dorme. Massacre envolvendo nascimento de crianças. Mães tendo a barriga aberta e vendo o feto de seu filho esparramar no azulejo da casa. Homens inocentes. Pessoas inocentes tendo este trágico fim.

 - Aquele povo era profano. Eram muito festeiros, promíscuos, tinham que ser extintos mesmo para proteger o povo de Deus.

 - Mas que culpa eles tem? Eles não podem perder a vida deles de maneira tão severa simplesmente porque expressam sua felicidade em festas, festas aos quais VOCÊS interpretam de como de força maligna e milhares de outras coisas obrigatoriamente influenciado por valores culturais, individuais e sociais.

 - Eles iriam amaldiçoar o povo de Deus. Isso precisava acontecer.

 - Pois é, senhor. É justamente esse o fato que me intriga. Muitas pessoas morrem mesmo em guerras, jogos políticos. Isso eu entendo ainda mais se tratando da época. O que eu não entendo, é vocês lerem isso e isso simplesmente descer goela abaixo. A loucura é tanta que até um ato de extrema barbárie é visto como algo necessário de ter acontecido. Vidas de crianças sendo perdidas, famílias, esposas, pessoas justas e trabalhadoras porque não possuem os mesmos valores que o outro povo. Porque gostam de transar e beber.

 - A bíblia diz que tudo que Deus faz, é perfeito e é só uma questão de tempo para todos nós podermos ver isso.

 - Está bem, senhor. Você está incapaz de ser ético. Está aprovando uma atitude animal. Está aprovando um extermínio em massa. Você acha que existe uma razão, um motivo que seja maior que a crueldade da coisa em si. Um motivo que compense toda essa barbaridade. Eu não acho que motivo algum justifique isso, é esse detalhe que eu chamo atenção em vocês, pois dentro da cabeça de vocês, existe um motivo transcendental que seja capaz de abafar um extermínio. Está bem, essa discussão se acaba por aqui.

 - A ciência já provou que a bíblia é verdadeira.  A bíblia é a palavra de Deus, só isso me basta.

 - A ciência provou isso? O senhor está bêbado? A ciência comprovou cidades, fatos históricos, guerras, a ciência não comprovou que Jesus transformou água em vinho não, nem que ele andou nas águas. E outra coisa, senhor, se o senhor me diz que a ciência comprovou a bíblia, me desculpe, mas então você não acredita na bíblia!

 - Está louco, jovem? – disse arregalando os olhos.

 - Não estou louco não, a bíblia é sustentada pela fé! A partir do momento em que você busca a ciência pra comprovar algo, me diz que talvez o senhor não acredite nela o suficiente, me diz que o senhor precisa que no fim, a ciência te prove algo que você até hoje, lá no fundo, não deu conta de acreditar.

 - Pare o carro, é tudo por hoje.

 - Com prazer, senhor.

Ele desceu e bateu a porta da caminhonete.

Arranquei o carro, lembrando do esporro que ele tinha me dado quando matei o pombo.

Lembrem-se de referenciar a fonte caso utilizem algo deste blog. Dúvidas, comentários, complementações? Deixe nos comentários.

Escrito por: Matheus Franckevicius


Tags deste artigo: preconceito senso comum

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