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Os dois lados de uma mesma história

16 de Março de 2015, 15:11 , por Rafael Pisani Ribeiro - 0sem comentários ainda | No one following this article yet.
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Licenciado sob CC (by-nc-sa)

 

    Certo dia caminhando pelas ruas do centro, me deparei com uma cena bem frequente no cotidiano, mas ignorada pelas pessoas na corredia de suas rotinas. Havia um menino mal vestido, moreno, de estatura média e que não aparentava ter mais de 11 anos. Carregava uma bandeja de balas para vender. Certamente, era apenas mais um entre as milhares de crianças exploradas pelo trabalho infantil. Garotos que ao invés de estarem nas escolas, estão nas ruas e transportes públicos trabalhando por um valor que mal cobre a alimentação.

   Mais adiante, encontrei uma mulher mais velha desempenhando a mesma função do garoto. Com certeza teria a mesma dificuldade de fazer alguém se interessar em comprar algo. E os motivos são vários: desde a aparência, a qual o mundo capitalista e superficial preza tanto, até a forma de abordagem ao possível comprador. É fato que todos ao menos uma vez, já se sentiram incomodados pelo discurso de um vendedor ambulante no ônibus com sua mercadoria. E é certeza de que a impressão causada pela vestimenta e aparência é a primeira que fica na mente. É só refletirmos a seguinte hipótese: você está com muita vontade de comprar determinada bala e em seguida, entram no coletivo dois vendedores ambulantes, um deles bem vestido e o outro aos trapos. Na mão de qual você compraria? Se foi sincero na resposta, certamente optaria por adquirir da pessoa melhor apresentável, devido ao preconceito social e generalizado.

   E foi através de tentar me aproximar ao máximo da realidade dessa população, e buscar refletir melhor o assunto, que resolvi agir de forma inusitada. Sentir na pele o que é ser um vendedor ambulante. Para tal feito, comprei alguns doces para revender da forma que o fazem. E na manhã seguinte, lá estava eu, me abdicando de todas as roupas de marca, do meu carro e trazendo à vida o meu personagem, que nada mais é que a realidade de tantos. No início, pensei em voltar atrás, mas criei coragem e entrei no primeiro coletivo oferecendo as guloseimas.

   Reparei como as pessoas estavam desinteressadas. Algumas me olhavam com maus olhos, outras com olhar de pena e/ou repreensão. Uma mulher me olhou de cima abaixo, como se meus chinelos velhos e a calça rasgada me fizessem um ser humano pior. Ofereci os doces para todos passageiros e o meu retorno financeiro foi bem baixo, o que me comprovou o quanto as pessoas que não encontram outra alternativa para ganhar o “pão de cada dia” enfrentam. É claro que se pensa na possibilidade de tentar ganhar a vida de outra forma, mas outro problema na sociedade, é o julgamento e a generalização sem considerar a origem e individualidade do problema.

   Desci do coletivo me sentindo triste, inferior e frustrada. Me lembrei do pensamento do dia anterior de que se estivesse mais apresentável, conseguiria vender mais doces. Repeti o mesmo discurso, porém com boa vestimenta, melhor discurso e para que não estranhassem, disse que estava auxiliando uma instituição de caridade na qual para ajudar nos custos da festa junina vendia doces. O resultado não foi excelente, porém muito melhor em relação à primeira abordagem. Essa vivência de uma mesma situação, porém com vestimentas e discursos diferentes me fez refletir sobre um mal que afeta o nosso meio.

   O ser humano realmente julga pela aparência e possui a tendência de aceitar com mais facilidade histórias que se aproximem melhor do padrão estipulado para uma boa vida. Estar mal vestida e pedindo ajuda, gerou desconforto, pois é considerado desprezível. Sem pensar muito, julgamos aqueles indivíduos ambulantes como vagabundos. Pois estão atormentando a tranquilidade. Por outro lado, ao me apresentar de forma diferente, bem vestida e com um discurso mais aceitável e coerente, o preconceito foi menor gerando aumento nas vendas.

Se pensarmos por outro ângulo, a pessoa mal vestida poderia ser da instituição de caridade, e a de melhores roupas uma ladra e mentirosa que busca dinheiro fácil. A própria história foi fictícia. Realmente existe muita gente má intencionada e de má fé vendendo mercadorias pelas ruas, mas esse não é o sentido central que busquei ao vivenciar essa situação. Tudo é questão de interpretação, mas a grande moral da história e o que devemos nos perguntar sempre, principalmente ao nos deparar com vendedores ambulantes é: A forma de que se vestem, agem ou levam a sua vida, os fazem seres humanos inferiores ou não seria o nosso pensamento inferior e preconceituoso? É válido refletir.

Lembrem-se de referenciar a fonte caso utilizem algo deste blog.Dúvidas, comentários, complementações? Deixe nos comentários.

Escrito por: Stephanie Mendes



 


Tags deste artigo: trabalho informal

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