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As coisas simples de um artista único

4 de Dezembro de 2019, 9:51 , por segundo clichê - | No one following this article yet.
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Carlos Motta

Jundiaí vai começar finalmente a pagar uma dívida de gratidão, com um atraso de cerca de quatro décadas, a um artista que, embora tenha vivido na cidade por pouco tempo, plantou em seu solo uma semente que germinou com incrível rapidez e dá frutos, saborosos, generosos em aroma e sabor, até hoje. 

A mostra denominada "A Simplicidade das Coisas", que será aberta nesta quinta-feira, 5 de dezembro, às 19 horas, na Pinacoteca Diógenes Duarte Paes, leva ao público 26 obras de Antonio Thyrso Pereira de Souza, o primeiro presidente da Associação dos Artistas Plásticos de Jundiaí, a AAPJ, entidade que há 45 anos presta serviços de inestimável valor à comunidade.

Thyrso, na verdade, foi mais que o primeiro presidente da AAPJ: foi ele quem uniu o grupo de artistas que desejava tirar a pacata Jundiaí dos anos 70 do século passado de seu marasmo cultural; foi ele quem brigou para a ideia dar certo; foi ele quem passou horas e horas discutindo tendências artísticas, formas de expressão, uso de cores, linhas de desenho, técnicas de pintura e gravura, com não sei quantos artistas e aspirantes a tal, em sua casa na Rua Senador Fonseca, esquina com a Rua Onze de Junho, uma casa que só existe hoje no pensamento daqueles que a frequentaram.


Foi Thyrso quem organizou, com a ajuda de um pequeno grupo de entusiastas, os três primeiros salões de arte contemporânea que a AAPJ promoveu na cidade, um feito gigantesco, que reuniu dezenas de artistas de todo o país, com premiações que seriam impensáveis nos dias atuais, nos quais a arte e cultura são tratadas a pontapés pelas autoridades.

A passagem de Thyrso por Jundiaí foi rápida, mas suficiente para abrir a mente de tantos quantos tiveram a oportunidade de se relacionar com ele - eu inclusive, na juventude de meus 20 anos, quando, ingênuo e arrogante, achava que o jornalismo e a arte tinham o poder de mudar o mundo.

As longas conversas com Thyrso, em horários os mais impróprios, não versavam só sobre o fascinante mundo das artes visuais, que ele conhecia a fundo. Iam além, abordavam experiências de vida, personagens fascinantes, situações inusitadas, refletiam um universo tão rico quanto a nossa imaginação pudesse levar.

Quando Thyrso foi embora de Jundiaí a AAPJ ficou nas mãos magras, talentosas, bondosas e amigas de outro ser humano exemplar, Issis Martins Roda, hoje nome de rua no Jardim Santa Gertrudes, mas merecedor de muitas e mais elevadas homenagens, tal o amor que dedicou à sua arte e ao ensino de seu ofício a uma legião de jundiaienses.

De certa forma, Issis continuou o trabalho de Thyrso, e esse trabalho foi tão bom que a AAPJ existe até hoje, atuante e destacada numa Jundiaí não mais pacata, não mais simplória e provinciana - e isso, por si só, é algo extraordinário.

Mas vamos falar do Thyrso artista. 

Só o fato de ele ter sido aluno de craques como Eduardo Sued, Mário Gruber, Marcelo Grassmann e Darel Valença Lins já bastaria para assegurar a sua formação técnica. 


Bem, mas isso ainda diz pouco sobre sua arte. É preciso acrescentar que Thyrso criou, ao longo dos anos, um universo todo seu, resumido nesta exposição que intitulou "A Simplicidade das Coisas". 

Acho que aquilo que escrevi, no longínquo ano de 1977, para uma mostra individual que fez na Galeria Seta, em São Paulo, ainda vale para apresentar a pintura de Thyrso àqueles que não o conhecem:

"Thyrso é um bom pintor? Thyrso é um artista, é o que posso asseverar com a consciência mais do que tranquila. Artista porque não realizou em sua vida nada com maior entusiasmo do que o ato de criar um universo tão unicamente seu que eu poderia reconhecer um quadro de sua autoria em meio a centenas de outros, sem ser, todavia, nenhum especialista.

"Thyrso é um artista e um artista plenamente maduro, totalmente consciente de sua missão, da amplitude de seu trabalho e da dificuldade de vê-lo compreendido. Thyrso é um artista, persistente e coerente que nunca se permitiu infiltrar por nenhum 'ismo' sequer, por nada a não ser seu propósito de criar, pintar, desenhar e gravar.

"(...) Thyrso adora discutir, e faz isso com a ânsia da necessidade. E assim é com seus quadros. Há neles o debate pronto, o elemento inusitado que aparece ali, num ponto azul a tirar o vermelho de sua condição de soberano. Há sempre um detalhe e uma surpresa que nos arrancam da posição de observadores estáticos e aí tudo pode acontecer."

É isso. Poderia ainda gastar milhares de palavras sobre esse artista singular, mas creio que para conhecê-lo melhor é preferível apenas olhar a sua pintura, calmamente, deixando que as cores e as formas penetrem em nossos cérebros e se transformem em lampejos de emoção, em faíscas de sentimentos, em relâmpagos de saudade - saudade de um tempo em que viver era mais simples e mais prazeroso.
Fonte: http://segundocliche.blogspot.com/2019/12/as-coisas-simples-de-um-artista-unico.html

Motta

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