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Motta

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Segundo Clichê

27 de Fevereiro de 2017, 15:48 , por Blogoosfero - | No one following this article yet.

O jovem e as velhas ideias

23 de Junho de 2017, 10:24, por segundo clichê


Dia desses conversei com um jovem publicitário, bem informado, que vive, como muitos ligados a esse segmento profissional, de frilas, pequenos trabalhos, que, como disse, lhe pagam a gasolina e a cerveja. 

Em certo ponto da conversa, não lembro por que, ele fez a seguinte observação, que suscitou um interessante debate entre nós:

- Estou percebendo que você é um liberal...

Como neguei de imediato e com veemência, o papo enveredou para a política, tema geralmente limitado, atualmente, a algumas poucas, breves e ofensivas frases: " Você não passa de um petralha" e "fora, Temer" são as mais usuais.

Nós, porém, começamos a falar sobre a política em geral, e mais especificamente, sobre determinados aspectos da sociedade brasileira. 

O jovem perguntou se eu conhecia o Partido Novo.

"Já ouvi falar", foi a minha resposta.

Ele então contou que ingressou na agremiação e que provavelmente seria um dos responsáveis pela sigla em sua cidade, Amparo, ao lado de Serra Negra, interior de São Paulo, onde moro.

A partir daí conversamos alguns bons minutos sobre carga tributária, tamanho e funções do Estado, meritocracia, cidadania, essas coisas todas sem pouco valor prático num país onde a Constituição virou um livro jogado num canto qualquer da sala, a acumular poeira, bolor - e traças.

Do papo todo ficou a impressão de que mesmo os jovens mais inteligentes, preparados e bem informados, sofrem de um grave problema, que transcende a sua vontade: estão irremediavelmente contaminados pela ideologia dominante.

Sempre há exceções, é claro.

Mas a maioria não tem mais jeito, é incapaz de se libertar do pensamento de que aquilo que se considera a causa dos maiores males do Brasil é justamente a solução para os seus problemas, de forma geral um Estado indutor de crescimento econômico e redução das monstruosas desigualdades sociais que envergonham o país perante o mundo.

Partido novo, ideias velhíssimas, daquelas que, se aplicadas, vão fazer o jovem publicitário amparense ficar até sem ter como pôr gasolina em seu carro e tomar as suas cervejinhas.

Mas talvez ele tenha salvação: diz que se horrorizou com a informação de que Luciano Huck se filiou ao tal partido e deverá ser candidato ao Senado pelo Rio de Janeiro.

Até os liberais têm os seus limites. (Carlos Motta)



A boa vida do senador cassado

22 de Junho de 2017, 11:06, por segundo clichê


O site Congresso em Foco publica reportagem exemplar sobre como é a Justiça brasileira, as relações de poder, e o mundo da política.
O protagonista é o ex-senador goiano Demóstenes Torres e o seu título já diz muito sobre o que vem a seguir: "Afastado do Ministério Público desde 2012, Demóstenes recebeu R$ 2,6 milhões sem trabalhar."
O texto é longo, mas vale a pena ser lido:

Desde que foi afastado das atividades no Ministério Público, em outubro de 2012, o ex-senador Demóstenes Torres (GO) já recebeu R$ 2,6 milhões sem trabalhar, considerando-se o salário de procurador mais os benefícios como gratificações natalinas e férias, além de indenizações e outros pagamentos extras. Uma média de R$ 45 mil por mês.
Como mostrou ontem o Congresso em Foco, ele vai pedir ao Senado para que anule sua cassação por envolvimento com Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, porque a Justiça considerou nulos os grampos telefônicos que embasaram os processos criminais e o seu julgamento político. Inelegível até 2027, o ex-senador quer retomar o direito de se candidatar já em 2018 a uma vaga na Câmara dos Deputados. As chances de o Senado considerar o pedido, porém, são mínimas.
Em nome da mulher, Flávia Coelho Torres, o ex-senador abriu um restaurante e um escritório de advocacia, ambos em bairros nobres de Goiânia. A preferência de Demóstenes pela advocacia tem muito a ver com a rejeição que ele enfrenta entre os colegas do MP-GO. Em agosto de 2012, 82 promotores de Justiça, procuradores do Trabalho e procuradores da República em Goiás assinaram manifesto pedindo ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), em caráter liminar, o afastamento dele em razão das acusações que o derrubaram no Senado.
O Ministério Público goiano é comandado atualmente pelo procurador Benedito Torres, irmão de Demóstenes. A relação entre os dois ficou abalada desde o escândalo do caso Cachoeira. Segundo relatos de amigos, o ex-senador cassado não perdoou até hoje as declarações dadas na época pelo irmão na tentativa de se distanciar das denúncias. Na ocasião, Benedito também era o procurador-geral de Justiça de Goiás, cargo que exerceu pela primeira vez entre 2011 e 2013.
Também citado em gravações telefônicas, o procurador-geral de Justiça teve processo disciplinar arquivado pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) em 2013. Prevaleceu entre os conselheiros o entendimento de que os autos não traziam indícios de que ele cometera falta funcional. O irmão do ex-senador foi inocentado pelo TJ-GO em dezembro de 2012.
Depois de deixar a Procuradoria-Geral de Justiça, Benedito emplacou um aliado como sucessor e foi eleito presidente da Associação Goiana do Ministério Público (AGMP) por três vezes. Em fevereiro deste ano, teve a maior votação na lista tríplice do MP-GO e foi alçado novamente ao cargo pelo governador Marconi Perillo. Um das propostas de Benedito para o novo mandato é ampliar o combate à corrupção e ao crime organizado, reforçando a equipe responsável pelas investigações e a estrutura nessa área.
Em seu escritório, Demóstenes também tem recebido políticos. Em maio, o vereador mais antigo da Câmara de Goiânia, Anselmo Pereira (PSDB), ex-presidente da Casa, o visitou “em encontro amigável para discutir assuntos da Região Metropolitana”, conforme divulgou o tucano nas redes sociais. O vereador é mais um entusiasta da volta do ex-senador à política. Anselmo abrigou parte da equipe de Demóstenes na Câmara Municipal depois da cassação no Senado.
Novo abrigo
O ex-senador já poderia ter se filiado a algum partido, mas, segundo amigos, ele aguarda o desenrolar da crise política no país para ver como as legendas vão se sair das denúncias. “Ele não tem pressa. Tem muita coisa acontecendo e ninguém sabe como ficará o cenário para o ano que vem”, diz Chiquinho. Já houve convite oficial de pelo menos três siglas pequenas (PMN, PHS e PSL) que confirmam o interesse. Mas Demóstenes fala em várias ofertas, inclusive para presidir diretórios.
Ao que tudo indica, a opção será por um partido da base de apoio do governador Marconi Perillo (PSDB), com quem mantém boa relação, embora com um “pé atrás” das duas partes. “É uma relação em que ninguém confia em ninguém”, resume um jornalista ligado ao ex-senador. Em entrevista conjunta ao jornal O Hoje e à Rádio 730, de Goiânia, em outubro do ano passado, Demóstenes fez elogios ao candidato da base à sucessão de Marconi, o vice-governador José Eliton (PSDB), e disse que o governador tem vaga garantida no Senado nas eleições do ano que vem. Mas, em conversa com aliados, ele reclamou de cortes na entrevista e os atribuiu à influência do governo na imprensa goiana.
Na ocasião, Demóstenes afirmou que acreditava ter 80% dos votos que alcançou quando foi eleito pela primeira vez, em 2002. Em sua estreia nas urnas, depois de deixar a Secretaria de Segurança Pública na primeira gestão de Marconi, ele recebeu 1,2 milhão de votos. Votação que quase dobrou oito anos depois, com 2,1 milhões de votos, um recorde no estado. O ex-senador alega que a população compreendeu que sua cassação foi uma “artimanha” de inimigos políticos, especialmente o PT e o ex-presidente Lula, seus principais alvos quando era parlamentar. Não foi o que acharam seus colegas de partido, que exigiram sua saída do DEM na época, nem do então bloco oposicionista no Senado. Ele foi cassado, em votação secreta, por 56 votos a 19.
Aliados do ex-senador alegam que o caso envolvendo seu nome virou fichinha perto dos escândalos revelados a partir de 2014 com a Operação Lava Jato. Dizem, ainda, que ele tem em mãos pesquisas que indicam boa aceitação pelo eleitorado em Goiás. Esses números, porém, nunca vieram a público. Em pesquisas de 2013 para o Senado realizadas pelo instituto Serpes para o jornal O Popular, de Goiânia, o nome dele era lembrado sempre por menos de 1% dos entrevistados nos levantamentos espontâneos. Percentual bem inferior ao dos principais adversários.
Viagens à Itália
Com as atribuições no restaurante e no escritório, a família Torres diminuiu o ritmo de viagens, intenso nos últimos anos. Em janeiro de 2014, imagens dele circulando de mãos dadas com a esposa Flávia pelas ruas de Florença, na Itália, viralizaram na internet, despertando comentários sobre a impunidade no Brasil. No ano passado, a advogada, com quem está casado desde 2011, e a chef de cozinha Aline Torres, filha do primeiro casamento dele, inauguraram o restaurante Viela Gastronomia em um casarão no Setor Sul, um dos bairros mais tradicionais da capital goiana. Aberto primeiramente como espaço de eventos, funciona agora para almoço e jantar, tendo a cozinha italiana como especialidade. Em releases, o estabelecimento promete aos clientes “uma verdadeira viagem à Itália sem sair de Goiânia”.
Foi lá que Andressa Mendonça, mulher de Cachoeira, comemorou o aniversário de 35 anos, em março. No mês seguinte, Aline deixou a sociedade para cuidar de outros projetos e ter mais tempo disponível para viagens e estudo, de acordo com informações de assessores. Segundo amigos mais próximos e funcionários do restaurante, Demóstenes anda sorridente e voltou a fazer piadas e gracejos como era bem comum antigamente.
Briga com Caiado
Mesmo tendo caído em desgraça, ele coleciona poucos desafetos na política em Goiás. O principal é o senador Ronaldo Caiado (DEM), que sucedeu Demóstenes como uma das principais vozes da oposição ao PT no Senado. O ex-senador, que era considerado afilhado político de Caiado, rompeu o silêncio que durou quase três anos em um artigo publicado no jornal Diário da Manhã, em março de 2015, com ataques ao ex-padrinho político. Ele acusou o atual líder do DEM de fazer parte da rede de amigos de Cachoeira, sugerindo que ele havia recebido dinheiro do contraventor. E envolveu até o presidente nacional do DEM, José Agripino Maia (RN). O artigo, em tom agressivo, foi uma resposta à entrevista de Caiado à revista Veja, em que dizia que Demóstenes era a grande decepção em sua vida e “um traidor”.
À época, Caiado interpelou judicialmente o ex-senador, que não respondeu ao pedido de esclarecimentos. Embora a assessoria do senador tenha dito na ocasião que prepararia queixa-crime por calúnia, injúria e difamação e ação por danos morais, não houve ação na Justiça. O gabinete de Caiado informou que ele registrou representação no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), o que trouxe mais desgastes para o ex-senador no colegiado. Nos bastidores, aliados do líder do DEM apostam que a chance de Demóstenes retomar a elegibilidade para disputar ano que vem é zero. E chamam de “lorota” a tentativa de recuo do Senado.
Súplicas não atendidas
Até surgirem gravações e outros indícios de que atuava em defesa dos interesses de Carlinhos Cachoeira, Demóstenes era um dos nomes mais respeitados do Senado brasileiro. Um empedernido defensor da ética na política e duro combatente da corrupção. Destacava-se no bloco dos senadores considerados éticos à época como Pedro Simon (PMDB-RS), Jefferson Peres (PDT-AM) e Eduardo Suplicy (PT-SP). Assim que surgiram as primeiras denúncias de envolvimento dele com o contraventor, 44 colegas se revezaram no plenário para defendê-lo. Mas o apoio se esvaiu à medida que as investigações apontavam que a relação entre os dois extrapolava a amizade.
Três meses depois, o ex-líder do DEM foi cassado pelo plenário, acusado de mentir, receber vantagens indevidas e utilizar o mandato em favor de Cachoeira. Implacável com parlamentares suspeitos de irregularidades, Demóstenes provou do próprio veneno. Em seu discurso de defesa no plenário, pediu perdão àqueles que ofendeu, segundo ele, de maneira leviana. “Por favor, me deem a oportunidade de provar que sou inocente, não acabem com a minha vida, não me deixem disputar outra eleição em 2030 para senador.” De nada adiantou a súplica.
O caso rendeu uma CPI no Congresso e denúncias contra os governadores Marconi Perillo e Agnelo Queiroz (PT-DF), além de outros deputados. Acusado de explorar uma rede de caça-níqueis e jogos de azar e de fazer lobby para empreiteiras, Cachoeira, acumulou condenações e prisões desde então. Tornou-se personagem frequente de operações policiais.



O barbeiro e a prisão do Lula

22 de Junho de 2017, 10:45, por segundo clichê


O meu barbeiro, aqui na pequena, religiosa e conservadora Serra Negra, tem uns 70 anos de idade, conhece um monte de gente, adora uma fofoca, está na posse de vários segredos da alta, média e baixa sociedade local, e conta "causos" com a naturalidade típica dos barbeiros de antigamente - quando barbeiros eram barbeiros, e não cabeleireiros. 

Acredito em quase tudo o que fala, pois, afinal, ele é muito mais bem informado do que eu - sabe-se lá quantas pessoas sentam em sua cadeira diariamente, muitas ali apenas para fazer as mais íntimas confidências entre uma tesourada e outra?

Foi o meu barbeiro quem disse, por exemplo, que os negócios na cidade estão meio parados já há algum tempo. 


Seu instituto de pesquisa são os restaurantes vizinhos, populares, que cobram uns R$ 15 a refeição completa, quantos pratos o freguês glutão quiser encher.

- O movimento caiu pela metade, me disse há pouco mais de mês.

Ontem, ele me contou a última, tão logo me assentei para que podasse minhas madeixas:

- O pessoal está falando que estão para prender o Lula, o Aécio e aquele outro...

- O Temer, completei.

- É, ele mesmo. O Lula, me disseram, está em não sei que lugar, nem um pouco preocupado com isso...

Depois, certamente com base em suas inúmeras fontes, disse que o pessoal da cidade estava sem dinheiro e coisa e tal.

Graças à sua perícia e aos meus ralos cabelos, a conversa acabou logo em seguida. Paguei os R$ 20 do serviço e nos despedimos.

Enquanto o "Nove Dedos" não vai preso, hoje, ao começar a ver as notícias na internet, fiquei sabendo que outra pesquisa eleitoral vê ele e aquele deputado fascista que odeia tudo o que não rende votos num eventual segundo turno da eleição presidencial de 2018. 

A vontade de votar em Lula, segundo esse levantamento, cresceu ainda mais, na mesma proporção em que é massacrado pela mídia, pelos lava-jatos, por aspirantes a lava-jato, e por todos os que desejam, do fundo de seus bondosos corações, que o Brasil continue a ser, eternamente, o campeão mundial da desigualdade social.

Os outros candidatos da direita, de acordo com a pesquisa, estão no time dos nanicos: Geraldo, o nosso querido governador, segue firme em sua estratégia de aparecer o menos possível no noticiário para continuar no poder; Marina, a verde Marina, deve estar camuflada em alguma floresta que tanto adora; Aécio chora e bebe e jura aos seus, cada vez mais raros, amigos, que a sua carreira não terminou - e por aí vai.

Além do abominável fascista, os anti-Lula têm outro nome para votar, se houver eleição no ano que vem, o do prefeito paulistano,esse incrível representante da espécie humana que respira marketing e vive acelerado.

No fundo, todo mundo sabe que a única diferença que os distingue são as blusas de cashmere e os tênis da badalada grife Osklen que o alcaide adora.

Pois é.

Na minha próxima ida ao barbeiro, o "Apedeuta" provavelmente já estará na cadeia, pagando pelo crime de possuir um apartamento "triplex" na badalada Guarujá, que nunca foi, não é, e nunca será, seu.

O deputado viúvo da ditadura e o prefeito almofadinha, em vista disso, se sentirão bem mais aliviados.

Afinal, seus projetos de transformar o Brasil num imenso Paraguai - não o atual, mas aquele do general Stroessner -, ou, parafraseando o poeta, num imenso Portugal - não o atual, social-democrata, mas aquele do carola Salazar -, estarão com o caminho livre para se concretizar.

Depois disso, quem sabe, os restaurantes vizinhos ao meu barbeiro poderão aumentar o preço de suas refeições, e ele mesmo cobrar mais pelo seu serviço - e suas preciosas informações. (Carlos Motta) 



O voo dos pássaros e o comportamento dos homens

21 de Junho de 2017, 14:13, por segundo clichê


Morar numa cidade tranquila como Serra Negra, interior de São Paulo, faz com que a gente observe com muito mais atenção certas coisas que antes, na confusão da metrópole, passavam despercebidas.

O voo dos pássaros é uma delas.

Vejo, da janela do quarto que transformei num escritório, os urubus planando, com uma graça incomparável, em círculos cada vez maiores - o céu, azulíssimo, sem nenhuma nuvem, destaca seus vultos negros.

Algumas vezes o topo do edifício de frente ao meu recebeu a visita de altaneiros gaviões.
Pousados na beirada da caixa d'água, observavam, com a atenção dos predadores, tudo ao seu redor. 

Depois, se lançavam ao espaço, num voo que lembra o dos urubus, suave, com a impavidez dos fortes.


Ao contrário, as andorinhas parecem tomadas de um frenesi inexplicável. 

Dão voltas impossíveis, sobem e descem como malucas, batem as pequenas asas desesperadamente, da mesma maneira que as verdes, ruidosas e escandalosas maritacas, que surgem em bandos de manhãzinha. 

Outro dia um casal de tucanos surgiu nesse prédio da frente. 

Os dois ficaram juntos alguns minutos, depois cada um foi para uma extremidade do telhado. 

Com aqueles bicos amarelos enormes pareciam contrariar as leis da aerodinâmica quando se jogaram no ar.

Mas seu voo é fácil, parece até o dos urubus e dos gaviões.

De vez em quando aparecem pássaros estranhos, de formas bizarras, como a nos lembrar que a diversidade e complexidade da natureza são desafios constantes para o intelecto sempre curioso do homem.

Mas, por mais que tente ser original em suas conquistas, especulações e descobertas, a natureza ainda guia os passos da espécie humana.

É o caso deste Brasil de hoje, à beira de um desastre de proporções inimagináveis.

As nossas lideranças, ou aqueles a quem foi destinado cuidar dos destinos da nação, se portam tais quais os urubus, gaviões, tucanos, andorinhas, maritacas, e outros pássaros indistinguíveis aos olhos do leigo, que povoam os arredores do meu prédio.

Alguns voam em ziguezague, sem saber aonde ir; outros apenas pairam nas alturas, observando o movimento da massa ordinária e preparando suas próximas ações.

E há os que, como as corujas, preferem ficar entocados de dia para dominar a noite com seus voos velozes e pios agudos.

É a hora em que saem à caça, mortais, implacáveis, tão diferentes da imagem bonachona com que se mostram de dia. (Carlos Motta)



Desunidos, venceremos!

20 de Junho de 2017, 11:29, por segundo clichê


O incidente aeroideológico protagonizado pela jornalista Miriam Leitão dias desses trouxe à tona um velho debate das esquerdas brasileiras: a global recebeu a solidariedade de boa parte do chamado "campo progressista", enquanto a outra porção não só continuou a esculachá-la, como estendeu a bronca àqueles que a defenderam.

Já ouvi umas mil vezes que, por mais que pareça o contrário, o pessoal da direita está sempre unido quando é preciso, e o da esquerda briga até quando concorda em alguma - rara - coisa. 

Por isso, toda essa discussão sobre achar certo ou não dar um escracho na multicomentarista não surpreendeu quem acompanha, ao menos minimamente, a política nacional.

A divisão das esquerdas é histórica, vem desde sempre.


Um partido como o PT, por exemplo, é, desde sua fundação, uma tremenda zona. 

Há de tudo entre seus militantes: trotskistas, stalinistas, maoistas, cristãos, observadores de OVNIs, adoradores do Sol, porra-loucas de variados graus.

Escolha um tipo - e você vai encontrar lá.

Na Jundiaí da minha juventude, lembro bem, nas primeiras reuniões do diretório local do PT, no início dos anos 80 do século passado, o pau comia solto entre aquela dúzia de idealistas que tentava, missão impossível, levar uma mensagem socialista à sociedade mais que conservadora da cidade.

Metade do pessoal era ativista do grupo, uma quase seita, que se denominava "Convergência Socialista", que acabou saindo do partido para fundar o seu próprio, o maluquíssimo PSTU, e a outra metade era a dos "burgueses", vários estudantes e jornalistas, um arquiteto, um médico, um publicitário...

Não havia jeito de essas duas turmas entrar num acordo, qualquer coisa suscitava uma discussão interminável, parecia que os adversários não estavam fora da minúscula sede do diretório, saqueando a cidade, mas sim ali, naquele momento, prontos para se atracar, para resolver as diferenças no melhor estilo John Wayne.

Isso foi há muito tempo.

E parece que nada mudou.

Nem o horror vivido pelo Brasil atualmente parece capaz de unir as esquerdas, ou de fazer com que elas concordem pelo menos em algum ponto, sei lá eleições diretas, ou qualquer coisa que nos faça acreditar que o pesadelo vai acabar algum dia.

Sempre há uma Luciana Genro para ser do contra, ou um bicão tipo Ciro Gomes a criar polêmicas.

Enquanto isso acontece, os tubarões nadam tranquilos no mar da desesperança nacional, abocanhando, despreocupadamente, cardumes inteiros de apetitosas sardinhas.

O oceano teima em se manter revolto, os capitães dos barcos não veem terra à vista, e os gritos de socorro são abafados pelos trovões de pesadas nuvens que prenunciam cataclismas. (Carlos Motta)



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