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Cultura

30 de Agosto de 2016, 13:39 , por Blogoosfero - | No one following this article yet.

Chame o ladrão

15 de Março de 2018, 10:16, por segundo clichê
 
Carlos Motta


Em 1974, 44 anos atrás, Chico Buarque lançava o samba "Acorda Amor", atribuído à dupla Leonel Paiva - Julinho da Adelaide, nomes que o genial compositor usava para enganar a censura - para quem não sabe, naqueles dias o Brasil vivia mergulhado numa feroz ditadura patrocinada pelos nossos homens de bem e pelos bravos e heroicos militares que nos salvaram das garras do cruel comunismo.

"Acorda Amor" fala, em tom debochado, do medo que o personagem tem de ser levado embora pela "dura", pelos "homens", numa "muito escura viatura", algo então muito frequente - a repressão contra quem não achava que este era um país que ia para a frente não era brincadeira.

No refrão, o pobre coitado pedia ao seu amor para chamar o ladrão.

E no fim, a advertia: "Acorda, amor/Que o bicho é brabo e não sossega/Se você corre, o bicho pega/Se fica não sei não/Atenção!/Não demora/Dia desses chega a sua hora/Não discuta à toa, não reclame/Clame, chame lá, chame, chame/Chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão/(Não esqueça a escova, o sabonete e o violão).

Como se vê por esse samba do Chico, as décadas foram passando e o Brasil continuou o mesmo.


Acorda, amor
Eu tive um pesadelo agora
Sonhei que tinha gente lá fora
Batendo no portão, que aflição
Era a dura, numa muito escura viatura
Minha nossa santa criatura
Chame, chame, chame lá
Chame, chame o ladrão, chame o ladrão
Acorda, amor

Não é mais pesadelo nada
Tem gente já no vão de escada
Fazendo confusão, que aflição
São os homens
E eu aqui parado de pijama
Eu não gosto de passar vexame
Chame, chame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão
Se eu demorar uns meses
Convém, às vezes, você sofrer
Mas depois de um ano eu não vindo
Ponha a roupa de domingo
E pode me esquecer
Acorda, amor
Que o bicho é brabo e não sossega
Se você corre, o bicho pega
Se fica não sei não
Atenção!
Não demora
Dia desses chega a sua hora
Não discuta à toa, não reclame
Clame, chame lá, chame, chame
Chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão
(Não esqueça a escova, o sabonete e o violão)



Dores e tristezas que um dia ainda vão findar...

14 de Março de 2018, 10:17, por segundo clichê



Carlos Motta


Não há na música popular brasileira um compositor com uma obra de tanta marca social e política como Geraldo Vandré.

Legítimo representante da era dos festivais, é de sua autoria o hino de resistência à ditadura militar, a eterna canção "Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores", ou simplesmente "Caminhando", gravada por um sem número de intérpretes desde a sua primeira apresentação pública, no 3º Festival Internacional da Canção, em 1968 - a música, preferida pela massa que lotou o Maracanãzinho na final do certame, ficou em segundo lugar, atrás da bela "Sabiá", da dupla Tom Jobim-Chico Buarque.

Antes, em 1966, Vandré havia dividido, com Chico Buarque ("A Banda"), o primeiro prêmio do Festival de Música Popular da TV Record, com a também icônica "Disparada", parceria com Théo de Barros, interpretada por um emocionado Jair Rodrigues. 

Naquele mesmo ano, Vandré faturou outro festival, o da TV Excelsior, para o qual havia inscrito a marcha-rancho "Porta-Estandarte", parceria com Fernando Lona, que foi defendida pela dupla Airto Moreira e Tuca.

A canção aborda a mesma temática das mais famosas "canções de protesto" de Vandré, mas com versos menos explícitos e uma melodia triste - é como se seus autores, sob a tremenda carga emocional de viver num país sem liberdade, ainda ousassem entrever, naqueles escuros dias, uma pequenina luz de esperança.


"Eu vou levando a minha vida enfim/Cantando e canto sim/E não cantava se não fosse assim/Levando pra quem me /Certezas e esperanças pra trocar/Por dores e tristezas que bem/Um dia ainda vão findar."
 

 

É isso. Não há mal que nunca acabe.


https://www.youtube.com/watch?v=OvuPIs4atY0

Olha que a vida tão linda se perde em tristezas assim
Desce o teu rancho cantando essa tua esperança sem fim
Deixa que a tua certeza se faça do povo a canção
Pra que teu povo cantando teu canto
Ele não seja em vão
Eu vou levando a minha vida enfim
Cantando e canto sim
E não cantava se não fosse assim
Levando pra quem me ouvir
Certezas e esperanças pra trocar
Por dores e tristezas que bem sei
Um dia ainda vão findar
Um dia que vem vindo
E que eu vivo pra cantar
Na avenida girando, estandarte na mão
Pra anunciar



Um hino contra a destruição do Rio

12 de Março de 2018, 9:57, por segundo clichê


Carlos Motta


Uma das mais lindas cidades deste maltratado planetinha, o Rio de Janeiro, agoniza, implora por mais cuidados e por mais amor.

O Rio já foi tema de um sem número de canções, a maioria a exaltar as suas belezas, e a elas deve grande parte de sua fama de "cidade maravilhosa".

Uma das canções, porém, se destaca: composta pelo trio Moacyr Luz, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro, três craques, três artistas apaixonados pela terra em que nasceram, "Saudades da Guanabara" é um hino, um apelo à razão, um grito desesperado pela redenção de uma cidade que é muito mais que um ajuntamento de pessoas, mas um estado de espírito, um reflexo da alma de um Brasil que a despeito de tudo que lhe fazem de mal, teima em resistir à destruição.

https://www.youtube.com/watch?v=hfQkzhfZlqA

Eu sei
Que o meu peito é lona armada
Nostalgia não paga entrada
Circo vive é de ilusão (eu sei...)
Chorei
Com saudades da Guanabara
Refulgindo de estrelas claras
Longe dessa devastação (...e então)
Armei
Pic-nic na Mesa do Imperador

E na Vista Chinesa solucei de dor
Pelos crimes que rolam contra a liberdade
Reguei
O Salgueiro pra muda pegar outro alento
Plantei novos brotos no Engenho de Dentro
Pra alma não se atrofiar (Brasil)
Brasil, tua cara ainda é o Rio de Janeiro
Três por quatro da foto e o teu corpo inteiro
Precisa se regenerar
Eu sei
Que a cidade hoje está mudada
Santa Cruz, Zona Sul, Baixada
Vala negra no coração
Chorei
Com saudades da Guanabara
Da Lagoa de águas claras
Fui tomado de compaixão (...e então)
Passei
Pelas praias da Ilha do Governador
E subi São Conrado até o Redentor
Lá no morro Encantado eu pedi piedade
Plantei
Ramos de Laranjeiras foi meu juramento
No Flamengo, Catete, na Lapa e no Centro
Pois é pra gente respirar (Brasil)
Brasil
Tira as flechas do peito do meu Padroeiro
Que São Sebastião do Rio de Janeiro
Ainda pode se salvar



A cidade onde a pobreza é crime

7 de Março de 2018, 10:14, por segundo clichê

 
Carlos Motta
 
Os vereadores da cidade paulista de Jundiaí, mais de 400 mil habitantes, IDH de 8,22 (muito elevado), PIB de mais de R$ 36 bilhões, localizada a apenas 60 quilômetros da capital, acabam de aprovar um projeto de lei do Executivo que torna crimes as atividades de pedintes e artistas de rua em semáforos.
 
Já os comerciantes do Centro vêm pedindo às autoridades providências para afastar os mendigos e sem-teto que, de uns tempos para cá, resolveram habitar a região, prejudicando os negócios da gente de bem.
 
Pelos comentários nas redes sociais, muitos moradores de Jundiaí apoiam a decisão dos vereadores que, como o prefeito, acham que a pobreza é crime.
 
Quanto aos artistas, eles fazem o que podem para se expressar e sobreviver.
 
Alguns são mestres nos malabares, mesmo nos locais mais improváveis, como as ruas, onde exibem o frágil equilíbrio de suas vidas; outros, por meio de música e poesia, retratam a triste realidade que veem.
 
Como Chico Buarque e Francis Hime em "Pivete":
 
 
No sinal fechado
Ele vende chiclete
Capricha na flanela
E se chama Pelé
Pinta na janela
Batalha algum trocado
Aponta um canivete
E até
Dobra a Carioca, olerê
Desce a Frei Caneca, olará
Se manda pra Tijuca
Sobe o Borel
Meio se maloca
Agita numa boca
Descola uma mutuca
E um papel
Sonha aquela mina, olerê
Prancha, parafina, olará
Dorme gente fina
Acorda pinel
Zanza na sarjeta
Fatura uma besteira
E tem as pernas tortas
E se chama Mané
Arromba uma porta
Faz ligação direta
Engata uma primeira
E até
Dobra a Carioca, olerê
Desce a Frei Caneca, olará
Se manda pra Tijuca
Na contramão
Dança para-lama
Já era para-choque
Agora ele se chama
Emersão
Sobe no passeio, olerê
Pega no Recreio, olará
Não se liga em freio
Nem direção
No sinal fechado
Ele transa chiclete
E se chama pivete
E pinta na janela
Capricha na flanela
Descola uma bereta
Batalha na sarjeta
E tem as pernas tortas
 
Ou Théo de Barros, com seu "Menino das Laranjas" ( na voz de Elis Regina):
 
 
Menino que vai pra feira
Vender sua laranja até se acabar
Filho de mãe solteira
cuja ignorância tem que sustentar
É madrugada vai sentindo frio
Porque se o cesto não voltar vazio
A mãe já arranja um outro pra laranja
E esse filho vai ter que apanhar
Compre laranja
Menino que vai pra feira
É madrugada vai sentindo frio
Porque se o cesto não voltar vazio
A mãe arranja outro pra laranja
E esse filho vai ter que apanhar
Compra laranja, laranja, laranja doutô
ainda dou uma de quebra pro senhor
Lá no morro
A gente acorda cedo e é só trabalhar
Comida é pouca e muita roupa
Que a cidade manda pra lavar
De madrugada
Ele menino acorda cedo, tentando encontrar
Um pouco pra poder viver
Até crescer
E a vida melhorar
Compra laranja, doutô
Ainda dou uma de quebra pro senhor
Compra laranja, doutô
Ainda dou uma de quebra pro senhor
 
Emprego, que é bom, nada. E assim o Brasil se afasta, celeremente, da civilização.



Taiguara, a voz mais censurada pela ditadura

3 de Março de 2018, 10:36, por segundo clichê



Carlos Motta


A ditadura militar instaurada no Brasil em 1964 e que caiu de podre 20 anos depois perseguiu implacavelmente inúmeros artistas que ousaram se opor a ela - ou simplesmente adotaram uma liberdade estética fora dos padrões oficiais. Na música popular, os casos mais notórios são os de Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque.

Nenhum cantor e compositor, porém, foi tão perseguido quanto o talentosíssimo Taiguara, que nos anos 60 e 70 do século passado foi figura constante nos festivais de música e paradas de sucesso, com as suas canções e voz despudoradamente românticas - ao mesmo tempo em que, em seus shows e entrevistas, dizia cobras e lagartos do regime que suprimia as liberdades do povo brasileiro.

A jornalista Janes Rocha, que escreveu um livro sobre o artista, levantou 81 composições de Taiguara vetadas pela censura.

Dois discos, “Imyra, Tayra, Ipy” e “Let the children hear the music”, gravado em Londres, foram inteiramente proibidos depois de lançados.

A barra era muito pesada naqueles tempos de "Brasil, ame-o ou deixe-o"...

Taiguara morreu em 1996. Doze anos antes, lançou uma obra-prima, o disco "Canções de Amor e Liberdade", absolutamente político, um grito de revolta, um testemunho de um grande artista sobre uma época que envergonha a espécie humana.

É um disco de rara coerência, com melodias calcadas em ritmos regionais, letras que soam como lindos poemas libertário e arranjos criativos.

Uma das faixas, "Voz do Leste", tem a participação da excelente dupla sertaneja Cacique e Pajé. "Anita", um bolero, é dedicada à filha de Luís Carlos Prestes, o eterno "Cavaleiro da Esperança"; o clássico "Índia" ressurge com a letra original traduzida; "Estrela Vermelha", com melodia do avô de Taiguara Graciliano Silva, é de um lirismo emocionante...

Que falta faz um Taiguara neste Brasil Novo!

https://www.youtube.com/watch?v=1tfWmF6eHY0&t=64s

Voz do Leste

Sou Voz Operária do Tatuapé
Canto enquanto enfrento o batente co'a mão
Trabalho no ritmo desse Chamamé
Meu pouco Salário faz minha ilusão

Sou voz operária do Tatuapé
Vivo como posso e me deixa o patrão
E enquanto respira dessa chaminé
Meu povo se vira e não vê solução

No teatro da vergonha
aonde a verdade não se diz
Tem quem representa a massa,
quem ri da desgraça
E quem banca o infeliz

Tem até burguês que sonha
que entra em cena e engana a atriz
Tem quem sustenta a trapaça
e depois que fracassa
amordaça o país

Tem quem sustenta a trapaça
E depois que fracassa,
Amordaça o país.

Já meu drama é o da cegonha...
quase morre o meu guri...
Sobra pr'o Leste a fumaça
e a peste ameaça
O ar do Piqueri

Pior que a matança medonha
é o desemprego pra engolir...
Seja no peito ou na raça,
esse teatro devasso
Alguém tem que proibir...

Seja no palco ou na praça
Essas peças sem graça
vão ter que sair.
(sair de cartaz...)

Sou voz operária...



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