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"Lágrimas", um disco que retrata o triste "Brasil Novo"

1 de Outubro de 2019, 11:16 , por segundo clichê - | No one following this article yet.
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Nina Wirtti, Paulo César Feital e Lucas Bueno: em "Lágrimas", o amor pelo Brasil
Carlos Motta

A resistência à ditadura militar legou ao Brasil obras de arte que permanecem entre as mais criativas já produzidas. No campo da música popular surgiram o tropicalismo, a turma do Clube da Esquina, os novos nordestinos e uma geração de sambistas com um pé na tradição e outro na modernidade, só para ficar nos exemplos mais conhecidos. Todos esses criadores, consciente ou inconscientemente, produziram músicas que não só refletiram o terrível momento pelo qual o país passava, mas também ajudaram a sociedade a superar as dores causadas pelos opressores da democracia e da liberdade.

Embora hoje a ditadura não seja escancarada como a daqueles tempos, é mais que óbvio que o país vive sob ataque incessante das forças das trevas, essas que tomaram conta das instituições e assaltam suas riquezas, espoliam seu povo, matam seus jovens e arrebentam seus cérebros.

Felizmente há, em todos os setores, quem não se conforme com essa situação, quem grite contra os usurpadores e lute, com as armas que tem, contra essa legião de facínoras. 

É o caso, voltando à música popular, da dupla Lucas Bueno e Paulo César Feital, que lançou recentemente o álbum "Lágrimas", uma porrada no conformismo, uma bofetada indignada na cara daqueles que ousaram dominar um país que caminhava com passos firmes rumo a um futuro de mais igualdade e prosperidade para todos seus filhos.

Feital é nome consagrado na MPB, parceiro, entre tantos outros, de João Nogueira, Nelson Cavaquinho, Hélio Delmiro, Jorge Aragão, Claudionor Cruz, Guinga, Luiz Eça, Roberto Menescal e Altay Veloso, com obra gravada pela fina flor da nossa música popular e consagrado como um dos mais criativos e importantes letristas brasileiros.

Lucas surge como um dos mais talentosos criadores da nova geração. Pianista, violonista, compositor e cantor, já fez parceria com Ana Terra, Moyseis Marques, Chico Alves, Iara Ferreira, Joana Hime e Maria Vilani, a mãe do cantor e compositor Criolo, com quem ele  assina um grande número de canções. 

"Lágrimas" é resultado de um ano de trabalho dos dois e suas dez músicas são um retrato fiel da realidade social e política deste "Brasil Novo", que provoca pesadelos constantes em qualquer um que tenha um traço sequer de consciência. 

No disco, Lucas e Feital, com a ajuda da ótima cantora Nina Wirtti e contando ainda com as participações de Moyseis Marques, Cláudio Nucci, Soraya Ravenle e Vidal Assis, levam a emoção do ouvinte a níveis altíssimos - pelo menos àqueles que têm empatia com os milhões de compatriotas que apenas sobrevivem neste imenso e infeliz país.


"Lágrimas" é certamente um dos lançamentos mais importantes da música popular brasileira dos últimos tempos. E uma conversa com seus dois autores ajuda a entender as razões que os levaram a produzir uma obra tão densa e ao mesmo tempo tão popular:

Como se deu o processo de composição? Foi demorado, como foi a decisão de fazer uma obra totalmente política e "nacionalista"?

Paulo César Feital - O nosso processo de composição acontece pelo apaixonamento, é fácil, quer dizer, não há dificuldade em trazer nossas almas à tona, até porque tenho no meu parceiro um criador fantástico. Não houve decisão por fazer uma obra política, veio naturalmente pelo posicionamento da própria nação, por toda a revolta que nos deu por decisões desastrosas do atual governo, pela exposição vexatória de nosso país a nível internacional. Creio que seja um disco mais social do que político.

Lucas Bueno: Houve três processos de composição distintos na feitura do álbum. Um foi compor a melodia para receber letra do parceiro Feital, outro foi fazer junto, de fato, sentados em volta de uma mesa, um processo extremamente prazeroso, de imenso aprendizado. O último e curioso processo foi com o baião "Pão com Goiabada" e o jongo "Setembrina", duas parcerias póstumas, onde terminei ambas as melodias que já tinham uma primeira parte, letra e melodia, de Feital com o saudoso bamba João Nogueira.

Vocês pretendem continuar nessa linha de composição de forte conotação social e política?

Feital: Jamais abandonei e tampouco abandonarei essa composição de conotação sociopolítica, 70% da minha obra lítero-musical fala do Brasil. A música deve se posicionar na defesa do seu solo, do seu povo, principalmente, que é muito sofrido, torturado.

Lucas: Na minha opinião o papel missionário da arte brasileira é alertar seu povo diante de suas mazelas, denunciar seus algozes, fazer com que o Brasil conheça o Brasil. As “Querelas” proféticas dos craques Aldir e Tapajós ainda ecoam e, infelizmente, “o Brazil tá matando o Brasil”.

Vocês acreditam que a arte, no caso de vocês, a música, é capaz de ajudar, de maneira substancial, na mudança da sociedade?

Feital: Claro que sim, a música sempre esteve na ponta dos questionamentos, vide 64, quando houve uma enorme efervescência cultural protagonizada por quem denunciava e brigava pelo que se instaurou no país.

Lucas: Com toda certeza. A música brasileira é formidável e não sobrevive de saudosismo, os pilares e baluartes influenciaram toda minha geração em demasia, mas também tenho minhas referências contemporâneas, e não são poucas, que podem mudar e munir de conhecimento toda uma sociedade através de sua música. Pena que esses artistas com suas respectivas canções sejam abafados por uma mídia sensacionalista e tendenciosa. A música tupiniquim é cada vez mais surpreendente e esplendorosa, o "mainstream" é inversamente proporcional.

Como vocês veem a relação Estado/cultura? O Estado deve apoiar as manifestações artísticas ou elas devem se abster desse apoio?

Feital: Se a arte promove o país, o Estado deve apoiar. Neste momento a gente vive, na minha opinião, num processo de quase censura ou de censura velada.

Lucas: Nossas maiores riquezas são naturais e culturais, o Estado descaradamente está conseguindo a passos largos ceifar as duas. A primeira pela raiz, literalmente, desmatando o pulmão do mundo sem dó nem piedade, liberando um agrotóxico atrás do outro, entre outras atrocidades. A segunda passa por uma censura velada num país que não é laico faz tempo. Seguiremos resistindo, esperançosos na volta de um presidente que apoie e promova as manifestações artísticas genuinamente brasileiras.

Como está a agenda de trabalho de vocês, quais seus planos?

Feital: Acho que meu relacionamento com o Lucas é para a vida inteira, pretendo continuar minha obra com ele. Um compositor que chegou na minha vida num estado de surpresa, é, sem dúvidas, um dos grandes expoentes da nova música brasileira, um gênio harmônico, melódico e um excelente letrista. Quero sempre tê-lo ao meu lado.

Lucas: Ganhei um novo amigo de infância, um mestre, não largo mais desse parceiro de jeito e maneira. Temos muito que compor, temos muito o que denunciar, o disco “Lágrimas” é só o primeiro capítulo de uma obra que canta o nosso amor por um Brasil que existe e resiste.


Link para audição de "Lágrimas" no youtube:
www.youtube.com/playlist?list=PL5ApX0XCwI9jxXYd8_iAjNKT_5aDVODTS  

Link para audição de "Lágrimas" no Spotify:

open.spotify.com/album/6SuTQ4Q54EPWngbV5SvcGi  
Fonte: http://segundocliche.blogspot.com/2019/10/lagrimas-um-disco-que-retrata-o-triste.html

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