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Falsa polêmica mobiliza a ultradireita contra Lula

24 de Novembro de 2021, 14:33 , por Correio do Brasil - | No one following this article yet.
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Além da divulgação de notícia deliberadamente falseada, os principais diários do país — todos eles alinhados aos interesses capitalistas — não ficaram atrás da mídia televisiva.

Por Gilberto de Souza – do Rio de Janeiro

Na entrevista que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) concedeu ao diário conservador espanhol El País no início desta semana, a posição do líder popular quanto à “autodeterminação dos povos”, conforme se referiu o entrevistado, tem sido propositalmente mutilada pela mídia conservadora. Há mais de 72 horas, os principais veículos de comunicação ligados à direita e à ultradireita, no caso do canal norte-americano de TV CNN Brasil, divulgam a falsa interpretação de um trecho do diálogo, deslocado do seu sentido natural, quanto à longevidade dos regimes alemão e nicaraguense.

Lula em entrevista ao El PaísAo El País, Lula disse o mesmo que diria um embaixador da Organização das Nações Unidas, mas a mídia distorceu o contexto

Além da divulgação de notícia deliberadamente falseada, os principais diários do país — todos eles alinhados aos interesses capitalistas — não ficaram atrás da mídia televisiva. “Após a reeleição do ditador da Nicarágua, Daniel Ortega, em um pleito de fachada, o ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva (PT) comparou a permanência no poder do latino-americano com a da primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, que completou 16 anos à frente do país europeu”, escreveu o diário conservador paulistano Folha de S. Paulo (FSP), em uma intencional retirada de contexto das afirmações de Lula. Os demais seguiram no mesmo rumo.

Para quem se deu ao trabalho de assistir à toda a entrevista, fica claro que o ex-presidente referia-se a um dos pilares da Organização das Nações Unidas (ONU), justamente o direito de cada país ter o direito de se autogovernar, sem nenhuma interferência de nações estrangeiras. Se a Nicarágua realizou eleições ou se o presidente russo, Wladimir Putin, obteve um outro mandato; se o mandatário chinês segue para a terceira década no comando da superpotência e se o ex-presidente norte-americano Donald Trump acusa o sucessor, Joe Biden, de fraudar o pleito nos EUA; tudo isso é um problema para nicaraguenses, russos, chineses e norte-americanos resolverem, e não os brasileiros.

Editado

Lula afirma, de forma assertiva na entrevista, que não cabe ao Brasil ou a outra nação qualquer, no mundo, intervir na forma como um povo se organiza, seja com Ortega ou Merkel. Cabe a qualquer país, sim, reconhecer ou desconhecer o governo instalado, de acordo com seu ponto de vista econômico, político e social. Nunca, todavia, influir de forma a alterá-lo, dissuadi-lo ou derrubá-lo, como fizeram os EUA aqui no Brasil, em 1964. Ou seja, disse exatamente o que diriam as Nações Unidas, mas a diretriz nas redações retrógradas vai no sentido de distorcer o discurso do eterno adversário ligado aos movimentos sociais.

Ao retrucar a resposta de Lula, a entrevistadora entra com o assunto da prisão de opositores ao regime nicaraguense, como forma de passar a impressão que os presos na América Central seriam diferentes de outras partes do mundo, incluindo o Brasil. O que o entrevistado afirma, com propriedade, é que não lhe cabe julgar o sistema jurídico de uma nação soberana quanto à assertividade das decisões tomadas. Se foram detidos injustamente apenas para não concorrer à Presidência da República, conforme aconteceu com o próprio Lula — e ele diz exatamente isso — Ortega estaria completamente errado. Mas esse trecho da conversa foi premeditadamente extraído, nas edições que se sucederam.

A direção do PT, por sua vez, em face da própria estrutura política da agremiação — disposta em camadas ideologicamente diferenciadas, umas voltadas mais à esquerda e outras ao centro — contestou uma nota pública emitida pela própria legenda, de apoio ao presidente da Nicarágua, o que abriu caminho para a exploração do tema, de forma equivocada, pela maioria dos comentaristas políticos das emissoras neoliberais. A narrativa, portanto, precede a escalada eleitoral que se avizinha, como forma de construir um patamar ideológico contra o adversário petista, sem se importar com a veracidade jornalística.

Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do jornal Correio do Brasil.


Fonte: https://www.correiodobrasil.com.br/falsa-polemica-mobiliza-ultradireita-contra-lula/

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