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Inversão de valores

19 de Junho de 2017, 15:00 , por Jornal Correio do Brasil - | No one following this article yet.
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Me aporrinhei a toa com aquelas freiras do Sion, ensinando boas maneiras embora tirassem a cruz do nosso pescoço se achassem por algum motivo,  que não merecíamos Jesus.

Por Maria Lúcia Dahl, do Rio de Janeiro:

Quem aceita hoje as regras das freiras do Sion?

Um belo dia acordo, já faz algum tempo, e tudo tinha mudado, uma inversão de valores.

Tive que me adaptar. Aprender uma porção de coisas, na marra. Com a experiencia.

Experiencia besta essa de aprender tudo o que não devia. Estudei no Sion, debalde. Me aporrinhei a toa com aquelas freiras ensinando boas maneiras embora tirassem a cruz do nosso pescoço se achassem por algum motivo,  que não merecíamos Jesus, colocando-nos num sentimento de culpa eterno, que me levou a primeira psicanálise.

Fiquei sabendo, por  exemplo, que não se retornava mais ligação. Passou a ser chique, dar status. O importante passou a ser inatingível, grosseiro.

Bons tempos aqueles que eu falava com Fellini, em pessoa, na Cineciittà, quando morei em Roma, nos anos 70. “Aqui, senhorita, é o restaurante, mostrava ele, com o braço por cima dos meus ombros, ali os camarins…”

Uma vez liguei também para o George Benson, em Los Angeles, pra mostrar-lhe uma fita da Adriana Calcanhotto, e ele retornou a ligação, interessado. Minha irmã me diz: “para de contar essas coisas  que vão achar que você  é a Princesa Anastácia, que acabou no hospício feito louca.”

Ontem vi uma retrospectiva  de um show da Nara Leão, na TV, linda, cantando “Com açúcar, com afeto”. Hoje não tem mais açúcar. Foi substituído pelo dietil. O afeto então, corre-se dele, como o diabo da cruz. Também não há mais ninguém que cante com aquela delicadeza que fazia até carcará ficar sutil.

Secretária eletrônica só servia mesmo pra pessoa se esconder, ficar quietinha, ouvindo o palhaço deixar o recado. “Tá pensando que eu vou responder? Ah, coitado!” Celular é pra ficar fora de área. Antigamente, não. Gente bem educada tinha, não só que dar o retorno assim que chegasse em casa e a empregada, nervosa com a possibilidade de errar e perder o emprego, contasse quem ligou, como também tinha que telefonar pra agradecer a festa ou a reunião que tivesse ido na véspera.

Para os homens valia também ligar para a moça no dia seguinte a uma transa, mesmo que fosse pra fazer uma gracinha e dizer: “oi, tô aqui” Agora não. Ninguém tá mais aí pra nada Isso de os homens ligarem no dia seguinte, acabou faz tempo. Foi substituído por um “a gente se vê”  muito vago, com um beijinho nos lábios depois de uma suposta noite de  paixão sem texto nenhum, quando se ia levar o cara na porta.

Depois virou um beijinho na testa, já com o pé no elevador e mais tarde um gesto que poderia dizer: “tchau, trouxa, foi bom!”, sem beijinho nem texto  explícito que não tem gancho para um próximo capítulo, muito ,menos pra novela. Também não havia possibilidade de virar filme por que não monta. Não tem edição, falta roteiro, sequencia, diálogo.

Vive-se um trailer do que poderia ter sido, um flash, uma hipótese. Outro dia, uma amiga minha jovem,  concordou em ir até o apartamento do cara, contanto que ele ligasse no dia seguinte. Combinaram assim. No dia seguinte ele ligou, como havia combinado e quando ela perguntou: “e aí, quando é que a gente se vê de novo?” Ele respondeu:.”‘Ah, assim  também é demais! Isso eu não prometi pra você.”

Mas não houve só uma mudança negativa. De positivo há a vantagem de que hoje em dia mulher pode ligar pra homem, coisa inadmissível naquela época longínqua do Sion, quando mulher tinha de ser inatingível, cobiçada de longe, de preferencia  passando de helicóptero, dando adeus.

Isso quando o auge da transgressão no colégio era matar aula na Sears ou no Jardim Botânico, em vez de matar o colega de carteira na sala de aula ou a professora, no recreio com uma rajada de balas. Mas, cá entre nós, se mal que me pergunte, o que é que adiantou mulher poder ligar pra homem, se o telefone está fora de área e ninguém responde as ligações? Conclui-se então que celular, whatsapp, e-mail, servem pra gente se proteger do outro e não pra se comunicar com ele nessa era da comunicação. Quando perguntei, outro dia a filha de uma amiga por que ela não ficava de novo com o garoto da festa, se foi tão bom,ela respondeu categórica>
“Repeteco não preenche álbum de figurinha…”

Transa-se todas as possibilidades de sexo, droga e rock´n roll, mas o afeto continua encerrado no peito há tanto tempo que perdeu-se a chave substituída por um controle remoto.

Maria Lúcia Dahl , atriz, escritora e roteirista. Participou de mais de 50 filmes entre os quais – Macunaima, Menino de Engenho, Gente Fina é outra Coisa – 29 peças teatrais destacando-se- Se Correr o Bicho pega se ficar o bicho come – Trair e coçar é só começar- O Avarento. Na televisão trabalhou na Rede Globo em cerca de 29 novelas entre as quais – Dancing Days – Anos Dourados – Gabriela e recentemente em – Aquele Beijo. Como cronista escreveu durante 26 anos no Jornal do Brasil e algum tempo no Estado de São Paulo. Escreveu 5 livros sendo 2 de crônicas – O Quebra Cabeça e a Bailarina Agradece-, um romance, Alem da arrebentação, a biografia de Antonio Bivar e a sua autobiografia,- Quem não ouve o seu papai um dia balança e cai. Como redatora escreveu para o Chico Anisio Show.Como roteirista fez recentemente o filme – Vendo ou Alugo – vencedor de mais de 20 premios em festivais no Brasil.

Direto da Redação, editado pelo jornalista Rui Martins.

 

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Fonte: http://www.correiodobrasil.com.br/inversao-de-valores/

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