Por Celso Lungaretti, de São Paulo:

Encontro digno de un western, episódio digno de filmes de Glauber Rocha ou de uma peça de Molière, O Tartufo?
A coisa chegou a tal ponto que Moro divulgou uma mensagem em vídeo pedindo à sua torcida organizada para se desmobilizar. Eis um trecho:
“Eu tenho ouvido que muita gente que apoia a Operação Lava Jato pretende vir a Curitiba manifestar esse apoio…
Eu diria o seguinte, esse apoio sempre foi importante, mas nessa data ele não é necessário. Tudo que se quer evitar, nessa data, é alguma espécie de confusão e conflito.
Acima de tudo, não quero que ninguém se machuque em eventual discussão ou conflito nessa data. Por isso, a minha sugestão é a de que não venham. Não precisa. Deixem a Justiça fazer o seu trabalho“.
A mim, contudo, o espetáculo da próxima 4ª feira fez lembrar um filme bem diferente dos westerns: um clássico do cinema político italiano!
Se o leitor estranhar, dou-lhe toda razão. É que, como o Raul Seixas, devo ser mesmo um chato. Pelo menos no sentido desta estrofe de Ouro de Tolo, o primeiro grande sucesso do Raulzito: “Mas que sujeito chato sou eu/ Que não acha nada engraçado/ Macaco, praia, carro/ Jornal, tobogã/ Eu acho tudo isso um saco”.
Tenho certeza de que, vivo, ele estaria achando também a torcida contra e a favor da Lava-Jato um saco…
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| Estes atores até que são esforçados… |
E a que filme italiano, afinal, me refiro? A Esse Crime Chamado Justiça (1971), o título brasileiro de In Nome Del Popolo Italiano, do grande Dino Risi (*).
Diretor de obras-primas como Perfume de Mulher (a distância entre o original italiano e o remake estadunidense é a mesma que existe entre o genial Vittorio Gassman e o correto Al Pacino), Risi foi mestre das comédias impregnadas de críticas sociais e uma visão compassiva da realidade.
Não dá sequer para imaginarmos um ator que expressasse, com a mesma dignidade de Gassman, a desorientação e fragilidade do personagem quando finalmente cai sua máscara.
| …mas não chegam nem perto destes! |
Assim como não nos vem à cabeça ninguém melhor do que Marlon Brando para transmitir a profunda repulsa pela desumanidade que inspira a frase “o horror, o horror!”, em Apocalypse Now; ou outro que não Gregory Peck fazendo as alegações finais da defesa do negro injustiçado em O Sol É Para Todos.
Foi também Gassman quem interpretou o repulsivo empresário de Esse Crime Chamado Justiça. É investigado por um procurador honesto (Ugo Tognazzi), por suspeita de haver assassinado a amante.
No curso do inquérito, vêm à tona sucessivos casos de pessoas destruídas pela ganância e insensibilidade predatórias do empresário.
Finalmente, quando tudo aponta para sua culpa, cai nas mãos do procurador uma carta que comprova não ter havido crime, mas sim suicídio.
| Não haveria lugar melhor que um tribunal para tal espetáculo? |
Tenho a impressão de que Moro se vê exatamente como o procurador honesto. E que ele tenha do Lula uma imagem tão negativa (embora por outros motivos) quanto a que o personagem do Ugo Tognazzi tinha do personagem do Vittorio Gassman.
Sou totalmente contrário ao maniqueísmo, como deve ser qualquer revolucionário que conheça o bê-a-bá do marxismo e do anarquismo. Então, desprezo as emoções primárias do big gundown e a banalidade das teorias da conspiração que pululam de lado a lado.
Vejo no episódio da próxima 4ª feira apenas o encontro de dois personagens que geralmente agiram de acordo com seus valores, mas que, em determinadas circunstâncias, sentiram-se no direito de serem infiéis a eles, ultrapassando limites que jamais deveriam ter ultrapassado.
Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.
O post Moro x Lula, deus e o diabo na terra do sol apareceu primeiro em Jornal Correio do Brasil.



