“O burquíni é a tradução de um projeto político, fundado na escravização de mulheres. Isso não é compatível com os valores da França e da República”.
Por Abdul Haikal – do Rio de Janeiro
A frase do primeiro ministro da França Manuel Valls, espécie de “direita do socialismo”, usa retórica islamofóbica para pescar em águas turvas do conservadorismo francês. Tenta roubar eleitores de ultradireita de Marie Le Pan, despindo, literalmente, uma mulher que usava burquíni nas areias da praia Promenade des Anglais.

Na praia de Promenade des Anglais, os franceses enterram a promessa de liberdade, igualdade e fraternidade ao despir uma senhora que usava o burquíni
Ator do teatro de sombras, que nega a verdade aos seus espectadores, o primeiro-ministro usou aparato policial para despojar uma mulher muçulmana de sua cultura, suas tradições e sua dignidade. Para Manuel, um pedaço de pano na cabeça pode afrontar os “valores da república” francesa.
O episódio expôs o dilema de um país busca nas conversas de botequim e fofocas, produzidas por tensões rotineiras das ruas, as teses para reconstrução ideológica de uma identidade em crise. O liberté, egalité e fraternité, de um glorioso passado iluminista, morreu naquela praia.
Valls negou admiráveis avanços civilizatórios, oferecidos ao mundo por seu país, ao reprimir uma das várias manifestações da diversidade cultural humana, reduzindo a dimensão ética da democracia francesa. Desqualificou a política de segurança e as ações anti terror de seu governo. Preferiu acenar para antigos fantasmas da “supremacia racial branca” colonialista, adormecidos nos porões da história francesa e marcados pelo desrespeito às diferenças étnicas, culturais e religiosas durante o mandato francês nas ex-colônias do Oriente Médio e África.
Roupas sempre foram símbolos de resistência cultural de nações colonizadas e oprimidas. Impor o uso ou desuso gera resistência e indignação. O Xa Reza Pahlavi, mandatário de uma ditadura brutal, pingou a última gota d’água da rebelião contra sua dinastia ao proibir muçulmanas de usar o Xador no Irã.
Kamal Ataturk, fundador da Turquia, impôs a modernização do país pela força. Foi odiado por metade da população feminina turca de seu tempo, por ter proibido o uso do véu nas universidades e repartições públicas na década de 30. Até hoje a proibição é lembrada para criticar seus herdeiros políticos.
Na França, a imagem dos policiais armados obrigando a mulher islâmica a retirar o burquíni é emblemática. Incensa preconceito, xenofobia, ódio e medo na busca de apelo eleitoral praticados por um governo incapaz de lidar com as pressões criadas pela imigração, a crise econômica e o desemprego.
Parte da esquerda francesa, órfã de referência ideológica com o fim da Guerra Fria, faz coro com a turba que culpa o Islã e o burquíni por seus problemas. Em seus medos imaginários, vêem um lenço como “ameaça terrorista”.
Manuel Valls avança na institucionalização da islamofobia francesa, aplicando a lei contra o uso do véu, guiado pela mesma cegueira moral que demoniza o Islã no ocidente há vários séculos. Mais do que isso, fecha os olhos à mais autêntica e honesta interpretação filosófica do Alcorão, fundamentado na submissão à paz, defesa da igualdade, justiça social e ajuda aos mais fracos.
A pesquisadora e historiadora britânica e católica Karen Armstrong, maior especialista em religiões do mundo, ensina que em 610 D.C, muito antes da França existir como estado, o profeta Mohammad ensinava um tratamento igualitário entre mulheres e homens, defendendo a solidariedade, a fraternidade e a liberdade como valores sagrados aos fiéis.
Foi no início da era islâmica que a mulher ganhou direito à parte da herança familiar e reparação financeira ao pedir divórcio. Divórcio só adotado no Ocidente mais de 1.200 anos depois. O véu não foi invenção islâmica. Era usado pelas mulheres da elite persa do império Sassânida e pelas católicas Bizantinas. Foi adotado, por exigência das mulheres islâmicas, como item de status social dentro da “umma”, comunidade islâmica, formada pelos companheiros e seguidores do profeta Mohammad. Até hoje é usado por católicas no interior da Itália, Grécia, Espanha e Portugal.
Impor hábitos culturais para combater terrorismo é medida inócua. Eficiente seria a França trazer de volta seus aviões, que bombardeiam populações civis em países alheios, como a Síria, onde matam crianças, mulheres e idosos inocentes.
Diminuiriam o tamanho dos cemitérios, terreno fértil onde radicais do “Islã político” fingem solidariedade fazendo proselitismo do terror para um público de órfãos, viúvos e outros corações enlutados e desesperançados por uma guerra que não começaram.
Abdul Haikal é formado em Comércio Exterior pelo Massachusetts Institute Bussines (MIB), pesquisador sobre Oriente Médio há 30 anos e foi vice-Presidente para o Oriente Médio da Federação das Câmaras de Comércio Exterior.
O post O Islã, a França e o burquíni apareceu primeiro em Jornal Correio do Brasil.


