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Os 143 processos de pastores da Igreja Universal contra J. P. Cuenca

January 15, 2021 17:39 , by Correio do Brasil - | No one following this article yet.
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Vivemos um momento que precede o fim da liberdade de imprensa. Pouco a pouco, os principais jornalistas brasileiros são processados e se procura criar no Brasil um clima de autocensura nos profissionais da imprensa. Por isso, nossa reação de jornalistas deve ser coletiva e coordenada. É nesse espírito de apoio a J. P. Cuenca que o Direto da Redação transcreve trecho de sua entrevista à revista Piauí e jornal Folha de São Paulo. Para assim juntos fazermos frente aos 143 processos instaurados por pastores evangélicos de todo Brasil da Igreja Universal contra o jornalista.

O objetivo de tais processos é o de acabar com o jornalismo crítico

Em junho do ano passado, após publicar um tuíte satírico criticando a família Bolsonaro e a Igreja Universal, o escritor J. P. Cuenca, 42 anos, viu-se réu em uma série de processos de injúria, movidos contra ele por pastores em várias regiões remotas do país, como as cidades de Tomar do Geru (Sergipe) e Ouro Preto do Oeste (Rondônia).

A mesma tática já havia sido utilizada, sem sucesso, por pastores dessa igreja contra pessoas que a criticam. Seu objetivo é lançar a defesa num périplo absurdo pelo país, de Norte a Sul, enquanto transforma a vida do escritor numa via-crúcis judicial.

16 DE JUNHO DE 2020, TERÇA-FEIRA_ Às 16h55 de mais uma tarde dedicada à procrastinação durante a quarentena, escrevo em minha página no Twitter: “O brasileiro só será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tripas do último pastor da Igreja Universal.”É uma paráfrase de um ditado atribuído aos iluministas Voltaire e Diderot, mas que tem sua origem nas confissões do abade francês Jean Meslier (1664-1729).

Ao longo dos séculos, o dito foi recriado sem cessar por gente dos mais variados espectros ideológicos, a partir da seguinte formulação: “O homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre.” Meslier, entretanto, se expressou em tom mais pessoal em seu diário editado por Voltaire: “Eu gostaria, e este será o último e o mais ardente dos meus desejos, eu gostaria que o último rei fosse estrangulado com as tripas do último padre.”

O provérbio iluminista me veio de supetão, quando eu terminava de ler uma notícia sobre verbas de comunicação do governo federal canalizadas para os canais de rádio e tevê de grandes igrejas evangélicas, essas fortalezas eleitorais da ultradireita que estão conduzindo o Brasil ao precipício. Indignado com a notícia, reescrevi a frase em modo satírico, como já fizeram tantos ao longo da história, de maneira distraída, como se acrescentasse mais uma boutade às tantas que correm nas redes sociais, como alguém que rabiscasse a toalha de papel de um restaurante ou cuspisse ao passar perto do busto de um general na praça.

Eu sabia que não estava sozinho: boa parte dos conteúdos do Twitter consiste em reações, xingamentos e gozações a políticos e autoridades em geral. A rede social parece particularmente propícia a dar vazão à profanidade com fins de catarse – e também a algo mais elementar. Lembro do estudo feito por um psicólogo britânico que comprovou que as imprecações aumentam a nossa capacidade de suportar a dor.

Ele mandou suas cobaias elencarem duas listas de palavras: a primeira apenas com xingamentos, como os que soltamos ao martelar o próprio dedo; a segunda, com palavras neutras. Depois, mandou os participantes enfiarem a mão num balde cheio de gelo. Os que leram a lista com palavras de baixo calão foram capazes de resistir quase 50% a mais de tempo com a mão no gelo, e não apenas: sentiam a dor provocada pela baixa temperatura de forma menos intensa. Estudos semelhantes foram feitos durante exercícios físicos, com resultados parecidos.

Richard Stephens, da Universidade Keele, na Inglaterra, o acadêmico responsável pelos experimentos, divulgados em 2009 na revista NeuroReport, afirmou que o esconjuro produz uma resposta ao estresse natural, assim como o aumento de adrenalina e de batimentos cardíacos. Tudo isso leva a um tipo de “anestesia induzida pelo estresse”.Tal recompensa, no entanto, às vezes não vale a pena.

Saio do computador para fazer outras coisas e, quando volto ao Twitter, vejo que centenas de eleitores do presidente estão enfurecidos, manifestando-se em minha página com seus modos ruminantes e injuriosos. Nas horas seguintes, eles invadiram meus outros inboxes com ameaças de morte e mais insultos, ataques empreendidos por robôs, seres humanos ou algum elo perdido entre os dois.

Explico a citação numa thread e apago o tuíte original, por orientação de um amigo escritor que é também advogado. Sinto como se tivesse aberto sob os pés um ralo conectado diretamente ao Vale do Flegetonte, um dos rios do Hades, ou à caixa de esgoto de um país inteiro. Tranco minhas contas para evitar submergir no chorume do gado zumbi. No Facebook, como não podem mais fazer comentários, deixam emojis com sorrisos de escárnio nas últimas publicações.

Os fascistas encontraram nas redes sociais o recurso ideal para expressar com alarde todo seu ódio e estupidez. Seguem estimulados pela sensação de que, finalmente, alguém ouve seus grunhidos de hiena, mesmo que seja por meio das caretas de um bonequinho amarelo.Antes de dormir, faço prints das ameaças de morte que recebi durante o dia. Não são as primeiras na minha vida e talvez eu já esteja me acostumando com elas.

18 DE JUNHO, QUINTA-FEIRA_ “Você tuitou mesmo isso?”, pergunta-me por e-mail a editora da sucursal brasileira da Deutsche Welle, rede de mídia alemã para a qual escrevo uma coluna quinzenal. Devido à repercussão, eu logo proponho explicar numa nota no site ou na próxima coluna a sátira que fiz de uma metáfora de quase 300 anos.

Mas ela recusa e me demite, com as seguintes palavras: “Esse incidente torna a sua colaboração conosco insustentável. Postar nas redes sociais que pessoas devem ser enforcadas é abominável. Não importa se é uma citação, uma paráfrase ou feito com sarcasmo.”

O argumento desonesto, vindo de uma pessoa adulta e com as funções cognitivas supostamente em dia, me revolve o estômago. Em nenhum momento eu disse que pessoas “devem ser enforcadas” – e acreditar no contrário é simplesmente desconsiderar a existência de linguagem figurada ou de qualquer capacidade de abstração. A mensagem tacanha me soa ainda pior do que toda a ladainha fascista dos últimos dois dias, digo à minha psicanalista pelo telefone – o alerta da editora chega pelo celular no meio da sessão de análise.

Meia hora depois, é publicado no site um comunicado em que a Deutsche Welle justifica minha demissão, dizendo que a rede se opõe a qualquer “discurso de ódio”. É uma difamação que ecoa as manifestações promovidas contra mim desde terça-feira, em meio a uma campanha de desinformação promovida por atores políticos neofascistas que hoje governam o país abusando, eles sim, de retórica odiosa.

De resto, tenho certeza de que os editores alemães e os beócios que ocupam o Planalto compreendem a metáfora presente na formulação iluminista original: que a igreja e a nobreza (ou outras famiglias) devem se manter afastadas do poder republicano, em prol do povo. A questão aqui não é cognitiva, mas política: o ataque que é feito contra mim é do tipo que tem como objetivo intimidar e inviabilizar vozes críticas a poderosos. No meu caso, usando uma acovardada empresa pública alemã. A operação da Deutsche Welle é um sucesso.

Um dos filhos do presidente, Eduardo Bolsonaro, reproduz a decisão da empresa em suas redes sociais, acrescentado que “ainda há esperança em alguns segmentos da mídia” e me ameaçando de processo. Os deputados neofascistas e seus asseclas celebram publicamente. O tumulto nos meus perfis, que já havia diminuído passados dois dias do tuíte, explode.

Escritores, jornalistas e editores demonstram solidariedade, estupefatos, e são também achincalhados pela turba abominável. Passo a tarde sentado no sofá, imóvel, com o computador no colo, rolando a tela enquanto proliferam comemorações contra mim, vídeos e montagens ofensivas com o meu rosto, ameaças de morte e de processos.

Não me lembro de outra vez que tenha sentido vontade de vomitar ao ler alguma coisa – bem, talvez em certos trechos de Notas do Subsolo, de Dostoiévski, quando era adolescente.Cedo ou tarde, esse governo vai acabar. Como sempre ocorre. Mas esses indivíduos continuarão habitando o mundo, exatamente como antes. No fim do dia, minha analista me manda uma mensagem: “Estou saindo de férias do consultório nessa próxima semana. Retorno em agosto.”

29 DE JUNHO, SEGUNDA-FEIRA_ Um jornalista perguntou hoje ao porta-voz da primeira-ministra Angela Merkel se a minha demissão teve motivos políticos, durante a coletiva de imprensa semanal do governo alemão. Bastante constrangido, o porta-voz respondeu que naquele momento não podia dar detalhes sobre o assunto.

Funcionários e ex-empregados da Deutsche Welle têm me escrito da Alemanha, prestando solidariedade e informando reservadamente que minha demissão ocorreu por ordem direta do Ministério das Relações Exteriores alemão, pressionado pelo governo brasileiro via embaixada em Brasília. Perco o dia em comunicações com conhecidos na diplomacia brasileira.

Dizem que essa administração do Itamaraty é pródiga em comunicar-se internamente usando expedientes paralelos e fora do radar – ou seja, não há nenhuma esperança de que exista algum telegrama ou comunicação oficial arquivada sobre meu caso. Mais de um deles comenta que, para manter seus postos no governo, os diplomatas devem oferecer provas de fidelidade. Talvez minha cabeça tenha sido uma delas.

A paráfrase de um provérbio iluminista feita por um escritor comuna e obscuro vira um pequeno affaire d’État numa coletiva de imprensa em Berlim, sendo que, desde a campanha eleitoral, membros de um governo miliciano de extrema direita no Brasil ameaçam seus opositores de execução (“fuzilar a petralhada”, “mandar a oposição para a ponta da praia”).

Além disso, usam slogans nazifascistas em redes oficiais, como “Brasil acima de tudo”, adaptação de Deutschland über alles (Alemanha acima de tudo), frase adotada por Hitler, e “O trabalho, a união e a verdade vos libertará”, que ecoa o slogan Arbeit macht frei (O trabalho liberta), afixado na entrada dos campos de concentração nazistas. Sem falar em Ya hemos pasao! (Já passamos), frase dos franquistas usada pelo assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, um tal Filipe Martins, ao cumprimentar um dos filhotes do presidente no Twitter.

E houve ainda o ex-secretário da Cultura Roberto Alvim fazendo cosplay de Goebbels em rede nacional e a desfaçatez do ministro Paulo Guedes, citando nominalmente o ministro da Economia nazista, Hjalmar Schacht, como um exemplo a ser seguido, ao se referir ao plano de reconstrução econômica de Hitler, que incluiu mão de obra servil e militarizada.

É tudo muito ridículo, embora não tenha graça.

26 DE JULHO, DOMINGO_ No fim do dia, respondo ao e-mail de um advogado alemão indicado por um jornalista da própria Deutsche Welle. Estamos entrando com um pedido de acesso à informação para que a empresa revele as mensagens trocadas sobre o meu desligamento – de acordo com a lei europeia, tenho o direito de acessar documentos de órgãos públicos que tenham o meu nome. Depois disso, pretendemos pedir a publicação de uma desculpa pública, corrigindo o comunicado cretino deles, e uma indenização.

1º DE SETEMBRO, TERÇA-FEIRA_ O advogado alemão me escreve, dizendo que a Deutsche Welle se nega a fornecer a comunicação interna com o meu nome. Mas deve haver uma notícia boa dentro dessa: se negam é porque têm algo a esconder. Como estamos ainda na fase de comunicações extrajudiciais, o advogado diz que a melhor forma de pressioná-los é recorrendo à Justiça alemã, o que implica custos. Não cogito desistir.

J. P.Cuenca, É escritor e diretor de cinema. Publicou Descobri que Estava Morto (Tusquets), eleito melhor romance de 2017 pelo Prêmio Literário Biblioteca Nacional

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.


Source: https://www.correiodobrasil.com.br/os-143-processos-de-pastores-da-igreja-universal-contra-j-p-cuenca/

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