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Poeta internado no pavilhão covid-19

29 de Outubro de 2020, 10:03 , por Correio do Brasil - | No one following this article yet.
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Enquanto esperava a conclusão do teste covid-19, o Poeta foi levado à unidade semi intensiva do Pavilhão próprio para os suspeitos e enfermos com daquele vírus. Ele foi sob protestos, alegando que, com a tratamento preventivo nos barris de vinho e complementos enológicos diversos na Itália e em Portugal, seria impossível que tivesse contraído o vírus.

Por António Paixão – de Brasília

Depois de todas os esforços na lua de mel, passada no Albergo delle Rose, em Bonassola, onde o Poeta assistiu sua mulher, Gigi dell’Amore, no estender pelo balcão do lençol com as manchas da melhor pomarola, o casal retornou a São Paulo, diretamente de Lisboa, onde se deliciaram com as pataniscas de bacalhau da chef Carla dos Santos, na Taberna dos Sabores. O almoço fora acompanhado de quantidades navegáveis de vinho verde, presenteados pelos amigos portugueses. “Nem mesmo Cabral singrou por mares tão volumosos”, pensou o Poeta. E foi assim que, durante o voo, o Poeta sentiu-se mal. Seu coração, combalido pelas desilusões da má campanha do S.C. Corinthians Paulista, não aguentou o embate do mano a mano nupcial com a fogosa Gigi e os esforços de intrépido navegador. O apito veio durante o trajeto e soou com a tristeza, aflição e horror daqueles que terminam com as esperanças da Fiel num jogo do Timão.

Internado no Hospital Albert Einstein, o Poeta envia boletimInternado no Hospital Albert Einstein, o Poeta envia boletim

Seguro saúde

Aterrado o avião da TAP, foi o Poeta conduzido à emergência do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, por conta de um seguro saúde fornecido por seu tradicional patrocinador enológico, a vinícola de São Roque. Seu primeiro pensamento foi dirigido ao universo de corações dos poetas brasileiros, que não têm acesso a um tratamento privilegiado como aquele que lhe estava a ser ministrado.

– Você tem sorte de não estar morto – disse-lhe o jovem médico Pedro Cellia, transpirando tanto competência como auto suficiência.

– Foi obra de São Jorge, o velho guerreiro – respondeu-lhe o Poeta.

– Pois bem – respondeu-lhe sorrindo o jovem e simpático médico, “vamos então convoca-lo para me ajudar a lhe manter vivo”.

Feitos muitos exames emergenciais, constatou-se que os velhos e combalidos pulmões do Poeta encontravam-se comprometidos por água.

– Quelle horreur – disse o Poeta.

– Pelas barbas de Baco, não seria vinho? Não uso água nem mesmo para tomar banho, como é público e notório.

– É água mesmo – respondeu prontamente o Dr. Cellia.

– Então posso ver que minha situação é terminal – disse tristemente o Poeta.

– Não se desespere, vamos eliminar toda a água com diuréticos – informou o médico.

– Então há esperança – observou encorajado o Poeta.

Enquanto esperava a conclusão do teste da covid-19, o Poeta foi levado à unidade semi intensiva do Pavilhão próprio para os suspeitos e enfermos com daquele vírus. Ele foi sob protestos, alegando que, com o tratamento preventivo nos barris de vinho e complementos enológicos diversos na Itália e em Portugal, seria impossível que tivesse contraído o vírus.

Foi-lhe informado informalmente que “no Einstein, valem os melhores protocolos científicos. Aqui não aceitamos a cloroquina, o ozônio no cu e nem mesmo o vinho na boca”. “Pois bem, se é assim, eu também não quero um quarto com vista para o Morumbi. Ninguém merece. É o meu protocolo pessoal”, respondeu o Poeta com igual determinação.

Levado ao seu apartamento, em total isolamento, pois nem mesmo Gigi pode acompanha-lo, o Poeta pediu a doce companhia de uma caixa de vinhos portugueses da casta Touriga Nacional, proveniente da região do Douro, com parcimoniosas 12 garrafas. “Nosso isolamento diz também respeito às garrafas de vinho”, foi-lhe dito com firmeza pela afável, cortês e eficiente médica cearense, Dra. Nayana.

“Oxente, como teria dito Suassuna! Vamos então criar aqui no Pavilhão covid-19 a Confraria Virtual do Vinho do Douro!” “De acordo”, disseram prontamente os médicos, médicas, enfermeiras e enfermeiros de plantão, treinados e habituados a lidar com todos os tipos de excentricidades, doidices, loucuras, peculiaridades e esquisitices dos pacientes, causados pelas agruras do isolamento e/ou pela própria doença.

“Como vocês aqui tem protocolo até para mijar e cagar, vou fazer um protocolo para nossa primeira científica degustação vinícola virtual, a PRIMECI-DEVIVI”, disse-lhes o Poeta. Embora tenha começado a redigir o protocolo, não pôde termina-lo, para grande perda dos registros históricos. Isso porque, felizes, as enfermeiras Viviane, Lorineide e Ana vieram a ter com o Poeta sorridentes, apesar de todo o profundo desgaste de sua atuação profissional, e falaram as palavras mágicas: “Deu Negativo! E, Poeta, vamos botá-lo para fora antes de que você queira criar a ala COVID-19 na escola de samba da Gaviões da Fiel”.

Feliz em ser transferido para a unidade coronariana, o Poeta não pode esconder sua emoção e gratidão pelo empenho assistencial e atitude humana de todos aqueles heróis do povo brasileiro, os profissionais da saúde, que se ergueram fortes, solidários e competentes aos desafios dos tempos tenebrosos. “Quisera que nossos homens públicos demonstrassem as mesmas qualidades”, pensou o Poeta com os seus botões.

Unidade coronariana

Ao chegar à unidade coronariana, o Poeta foi recebido amavelmente pelo Professor Dr. Marcos Knobel, que se fazia acompanhar do Dr. Paulo Rosenbaum, presidente da associação de médicos corintianos do Einstein. O Dr. Marcos Knobel, profissional de grande reputação, foi saudado pelo Poeta, que lhe disse de pronto: “Sua tarefa é tão fácil que causa inveja, Professor: o coração corintiano é indestrutível. Vai Corinthians!”

No fundo do apartamento, a fisioterapeuta Vanessa da Fiel abriu um angélico sorriso, por debaixo de seus olhos exaustos, marcados pelos equipamentos de proteção, e por detrás de sua máscara clínica, a dar o sinal de positivo com as duas mãos.

Naquele mesmo dia, o povo chileno, em plebiscito, repeliu com uma expressiva votação de 79% a constituição fascista do monstro Pinochet, mandando-a para o monte de lixo da História.

António Paixão, é jornalista desempregado, enólogo voluntário, humanista, inspirado poeta, comunista e corintiano.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil


Fonte: https://www.correiodobrasil.com.br/poeta-internado-pavilhao-covid-19/

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