Lula, Gorbachev, Pelé: os jornalistas também tietam
agosto 25, 2017 10:21A recepção calorosa que o ex-presidente Lula vem recebendo em suas andanças no Nordeste, com direito a abraços, beijos, selfies, gritos e choros - um banho de povo, enfim - me fez lembrar da vez em que visitou o Estadão na campanha eleitoral de 2002.
Depois de almoçar com diretores do jornal, ele foi à redação. Era começo da tarde e ela estava cheia. Ciceroneado pelo redator-chefe, Lula cumprimentou todos os jornalistas, um por um. Todos.
E em seguida foi para o Jornal da Tarde, que funcionava do outro lado do corredor, e para a Agência Estado, um andar acima, repetindo o que havia feito no Estadão.
O seu principal adversário naquela eleição, o notório José Serra, também visitou o jornal naquela campanha eleitoral, repetindo o roteiro de Lula. E foi depois disso que a diferença entre os dois se acentuou para o pessoal do Estadão.
Serra exibiu, na sua passagem pela redação, toda a exuberância de seu peculiar estilo de se relacionar com os seres humanos, um estilo que causou profunda impressão em alguns profissionais - e um choque em outros.
Entre esses últimos estava, o editor de economia de então.
- Gosto muito do seu caderno - disse Serra a ele, para em seguida completar:
- Depois da "Gazeta Mercantil" é o que mais leio.
Outra vítima de sua "franqueza" foi uma experiente repórter de política:
- Nossa, como você engordou! - constatou.
O auge daquela didática tarde foi quando viu uma velha conhecida, na ocasião editora de uma coluna de amenidades:
- Puxa, você está menos corcunda! - elogiou.
Foi um dia em que a autoestima da redação chegou a níveis baixíssimos.
As visitas dois dois políticos ao Estadão renderam muitos comentários, muito ti-ti-ti, nas rodas que se formaram no cafezinho, e certamento alguns votos de indecisos.
Mas nem se compararam ao frisson causado por outros três visitantes, personalidades díspares, que, literalmente, pararam, por alguns minutos, o trabalho da redação.
Um deles foi o padre Marcelo Rossi, no auge de sua popularidade, que se viu cercado por dezenas de pessoas - fãs, fieis? - logo que foi avistado no corredor que dividia o Jornal da Tarde do Estadão.
Outro foi o ex-secretário-geral do PC da URSS, último líder da extinta nação, Mikhail Gorbachev, que depois de aposentado percorria o mundo dando palestras.
Quando surgiu na redação, dezenas de curiosos, de contínuos a jornalistas de todos os calibres, o cercaram. Gorbachev parou diante de uma mesa, sorriu o sorriso dos predestinados, sentou-se na cadeira vaga e pegou um dos jornais que ali se achavam amontoados. Ao abri-lo, o espoucar de flashes parecia fogos de artifício.
E não deu nem tempo de avisá-lo que havia escolhido o jornal errado: Gorbachev posava para a imortalidade do Estadão passando os olhos numa Folha!
A balbúrdia daquele momento foi tamanha que ninguém ligou para a gafe. O fato é que Gorbachev se despediu sob uma calorosa salva de palmas e um princípio de confusão, quando uma veterana integrante daquela equipe de bravos jornalistas agarrou a cadeira que o ex-líder havia usado e determinou, entre categórica e histérica:
- É minha, é minha! Ninguém mais vai sentar nela!
Mas foi o terceiro visitante que bateu todos os recordes de tietagem no Estadão, uma cena impressionante de gente correndo de todos os cantos para o centro da redação, onde ficava a editoria de esportes.
- É o Pelé, é o Pelé! - gritavam as pessoas antes de se levantarem das cadeiras e atropelarem tudo o que estava à sua frente.
Atualmente, no Nordeste, bem longe do Estadão, na falta de um Pelé, que não se sabe onde anda, o povo grita, em sua busca pela esperança, "Lula, Lula". (Carlos Motta)
Microempresário foge do crédito e do investimento
agosto 24, 2017 15:17O segundo semestre começou com os micros e pequenos empresários retraídos na busca por crédito. De acordo com dados apurados pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes (CNDL), a demanda por crédito das micros e pequenas empresas (MPEs) atingiu 11,3 pontos em julho, uma queda depois dos 15,2 pontos registrados em junho. Quanto mais próximo de 100, maior é a probabilidade de os empresários procurarem crédito e quanto mais próximo de zero, menos propensos eles estão para tomar recursos emprestados.Expressivos 86% dos MPEs afirmam não ter a intenção de tomar crédito, ante apenas 6% que manifestaram essa intenção. Entre aqueles que não pretendem tomar crédito, 43% dizem conseguir manter o negócio com recursos próprios. Esses empresários mencionam, ainda, a insegurança com as condições econômicas do país (20%) e as altas taxas de juros (17%).
Pouco mais de um terço dos micros e pequenos empresários (34%) consideram difícil o processo de contratação de crédito, diante de 25% que avaliam como fácil. Entre os que consideram difícil, o excesso de burocracia e as exigência dos bancos são o principal entrave, mencionado por 46% desses empresários. Em segundo lugar aparecem as taxas de juros elevadas (36%). A contratação de empréstimo (25%) e financiamento (20%) em instituições financeiras são os tipos de crédito mais difíceis de ser contratado – para 14% é o crédito junto a fornecedores. Por outro lado, uma fatia importante considera fácil (25%), sendo o bom relacionamento com o banco a principal razão (46%).
O micro e pequeno empresariado brasileiro também tem se mostrado pouco interessado em realizar investimentos em seus negócios. O indicador de propensão a investir registrou 27,7 pontos em julho, pouco acima dos 26,6 pontos observado em junho, o que configura estabilidade dentro da margem considerada pelo estudo. O indicador também leva em consideração uma escala que varia de zero a 100, sendo que quanto mais próximo de 100, mais o empresário tende a realizar investimentos.
Em termos percentuais, 67% dos micros e pequenos empresários não pretendem investir nos próximos três meses, sendo uma das principais razões a desconfiança diante da crise (30%). Além desses, 40% disseram não ver necessidade de investir, 12% investiram recentemente.
Família vende tudo
agosto 24, 2017 10:51
Carlos Motta
Conheci um sujeito, não era propriamente meu amigo, mas estudei com ele alguns anos, nos antigos ginásio e colegial.
Um cara normal, brincalhão até em demasia, que não se destacava em nenhuma matéria da escola, mas que chamava a atenção por algo, que nós, seus colegas, meio que admirávamos, meio que gozávamos dele por causa daquilo: tinha a mania, acho que o termo certo é esse mesmo, mania, de vender coisas.
Explico melhor, não só vender, como comprar.
Funcionava assim: ele sabia que um de nós tinha, por exemplo, uma vitrola - para quem não sabe, era assim que a gente chamava, naquele tempo, o toca-discos - quebrada, fazia uma oferta ridícula por ela - às vezes até ganhava algum desses trastes - e não sabíamos como, consertava a bicha e a vendia por um preço que, para a gente, era extraordinário.
Ficávamos sabendo dos seus negócios porque ele não fazia nenhuma questão de escondê-los.
Ao contrário, vivia se gabando deles.
Acabado o colegial, perdi de vista esse meu colega vendedor de coisas.
Encontrei com ele, depois, apenas duas vezes.
A primeira foi num restaurante.
Ele me viu, foi até à minha mesa, nos cumprimentamos, e apontou a sua família, que almoçava perto de uma janela, esposa e dois filhos, pré-adolescentes.
Perguntei o que estava fazendo da vida e vi, então, seus olhos brilharem:
- Continuo comprando e vendendo, só que agora coisas maiores, carros, terrenos, até imóveis. Naquele esquema, você se lembra, de dar uma reformada, uma consertada, e ter um bom lucro.
E continuou, por alguns minutos, a falar das vantagens do seu negócio.
- Na maior parte das vezes não pago imposto, não tenho firma, e assim o lucro é maior ainda.
Encerrada a conversa, se despediu.
Fui reencontrá-lo poucos anos depois.
Voltava para casa e tive de fazer um desvio por umas ruas perto de onde trabalhava por causa de umas obras.
E acabei passando justo em frente onde esse meu colega de escola morava com seus pais no tempo em que estudávamos juntos.
Curioso, olhei para a casa, e como ainda era dia, estava claro, pude ler uma placa, tamanho daquelas de "vende-se", só que nessa a mensagem era mais ampla - "Família vende tudo", dizia ela.
Não aguentei.
Estacionei o carro, e fui dar uma olhada mais de perto.
Mal cheguei em frente da casa, vi o meu antigo colega sentado numa cadeira, no fundo da garagem.
Fui até ele, apertamos as mãos, e, sem sequer perguntar, ele foi logo contando a história:
- Veja só o que é a vida, meu amigo. Estava bem até outro dia, mas tive um azar daqueles. Comprei um carro de uma senhora, velhinha, que precisava do dinheiro. Estava inteirinho, uma beleza. Fiz uma oferta, paguei bem pouco, ela precisava do dinheiro... Disse "esse eu não vendo, vai ficar para mim". Pois bem, num belo dia, estava viajando com a família toda, e numa curva, o carro saiu de lado, brequei, e nada. Acabei capotando, o carro amassou todo, foi perda total, e nós quatro, eu, minha mulher e meus dois filhos, saímos feridos. Eles tiveram só alguns cortes, algumas contusões, um braço e outro quebrados, mas eu... Me lasquei, tive uma fratura complicada numa perna, fiz duas cirurgias. Conclusão: gastei um bocado com tudo isso, e ainda não estou bom, a perna dói, não consigo andar direito, uso até uma bengala.
- Mas você não tinha plano de saúde? - perguntei.
- Tinha nada, sempre fui daqueles que ganhavam dinheiro e gastavam tudo ou quase tudo. Trabalhava tanto, fazia tantos rolos, que acabava esquecendo dessas coisas. O dinheiro entrava e saía...
Ele contou ainda que seus pais haviam morrido e ele tinha herdado aquela casa. E que, depois de tentar tudo, havia chegado à conclusão de que não havia outro jeito a não ser vendê-la, com tudo o que estava nela, para poder tocar a vida.
Fui embora triste, confesso.
Nunca mais vi esse meu antigo colega de escola.
De vez em quando bate uma vontade de saber como ele está, se ele ainda compra e vende coisas, como ele tem se virado nesta baita crise que o país vive.
Afinal, os seus negócios nem de longe podem concorrer com os dos espertos negociantes que hoje ocupam o Palácio do Planalto.
Incrível, inacreditável: para Meirelles, juro mais alto é juro mais baixo!
agosto 23, 2017 17:33É difícil de acreditar, mas a informação é da Agência Brasil, porta-voz oficial do governo golpista.
A gente lê e não acredita - como é que pode um ministro de Estado dizer uma bobagem dessas e ninguém da imprensa contestá-lo?
O alegre ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, espanca a lógica com o cinismo característico de quem se julga invulnerável a críticas ou simples objeções.
Para ele, pagar juros maiores significa pagar juros menores!!!
Vai abaixo o trecho da notícia. É ler para crer:
"Segundo Meirelles, a TLP beneficiará toda a economia porque, ao tornar os juros do BNDES mais próximos das taxas de mercado, tornará o crédito mais barato para toda a sociedade. 'A TLP irá diminuir o custo do crédito para todos e não apenas para os devedores do BNDES [que atualmente pagam taxas subsidiadas]', acrescentou.
De acordo com o ministro, a nova taxa aumentará a transparência dos gastos com subsídios e melhorará o poder do Banco Central (BC) de controlar a política monetária (definir a quantidade de dinheiro em circulação na economia). Com isso, ressaltou Meirelles, o Banco Central poderá cortar os juros mais rápido.
'Com a TLP, os subsídios do crédito passam a constar no orçamento, com maior transparência e equidade na definição de políticas públicas. A TLP vai ajudar a reduzir as taxas de juros, aumentando a eficiência da política monetária no controle da inflação', concluiu o ministro.
Aprovada no início da tarde desta quarta-feira (23) na comissão mista que discute o tema, a MP 777 institui uma taxa que substituirá a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP). Em vez de ser fixada a cada três meses pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), a TLP será definida com base na inflação oficial pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mais os rendimentos da NTN-B, título do Tesouro corrigido pela inflação.
Atualmente, o Tesouro Nacional cobre a diferença entre a TJLP, que está em 7% ao ano, e a Selic (juros básicos da economia), hoje em 9,25% ao ano. Ao ser mais próxima da taxa Selic, a futura taxa de juros, que entrará em vigor em 2018, reduzirá os gastos do governo com esse subsídio. A medida provisória pode ser votada ainda hoje (23) pelo plenário da Câmara dos Deputados."
Para evangélicos, capitalismo é solução para problemas do capitalismo
agosto 23, 2017 17:03Pesquisa desenvolvida para a tese de doutoramento em Antropologia Social do antropólogo Carlos Andrade Rivas Gutierrez, defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, analisou a reflexividade evangélica a partir da produção crítica e da construção de projetos de vida de fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). De acordo com o estudo, orientado pelo professor Ronaldo Rômulo Machado de Almeida, a crescente necessidade de participação em diversos âmbitos, além do religioso, tem exigido desse segmento a incorporação de novos saberes e competências. Esse repertório ampliado, por sua vez, tem transformado o modo como os evangélicos refletem sobre si mesmos e acerca de diferentes mundos, entre eles o da própria religião, o da política e o do trabalho.
Gutierrez conta que escolheu a IURD para investigar a reflexividade dos evangélicos porque a igreja apresenta características próprias. De acordo com o Censo de 2010, trata-se da quarta maior denominação evangélica do Brasil, ficando atrás, respectivamente, da Assembleia de Deus, Igreja Batista e Congregação Cristão do Brasil. “Além disso, a IURD conta com um amplo aparato midiático, composto pela Rede Record, Portal R7, estações de rádio e editora. Também possui forte ligação com o Partido Republicano Brasileiro (PRB), sendo que seus fiéis compõem a maior parte de dos quadros diretivos e dos parlamentares da legenda”, elenca.
Na pesquisa, o antropólogo concentrou a análise sobre a reflexividade dos evangélicos com base em três temas: política, empreendedorismo e gênero. “Apesar de fiéis e pastores de outras igrejas evangélicas também refletirem sobre essas questões, na Universal essa prática está muito mais sistematizada. Além da citada ligação com o PRB, a igreja promove, por exemplo, reuniões específicas e cursos para empreendedorismo e gênero”, explica Gutierrez. O pesquisador se refere a algumas iniciativas da IURD, como a realização de reuniões entre empresários e de cursos de gestão financeira. “A igreja também mantém um programa denominado IntelliMen, voltado a formar ‘homens melhores’. A ideia é buscar uma terceira via entre o macho e o ‘afeminado’, ou seja, um homem cavalheiro, gentil, polido, educado e respeitador”, relata Gutierrez.
Durante cinco anos, o autor da tese acompanhou essas e outras atividades patrocinadas pela Universal, especialmente em São Paulo. “Realizei mais de cem idas a diversos cultos da igreja, onde entrevistei fiéis, obreiros, pastores e bispos. As entrevistas mais longas e detalhadas foram com os membros, o que me possibilitou um amplo acesso a esse universo e a seus projetos de vida”, pontua o pesquisador. Segundo Gutierrez, por meio do método da “observação participante” ele pode presenciar diversos momentos em que os evangélicos produziam julgamentos, críticas e opiniões com relação à política, à religião, à estrutura de classes no Brasil, à desigualdade econômica, às diferenças entre gêneros e, consequentemente, aos planos que traçam para o próprio futuro, tendo em vista as condições objetivas em que vivem.
O pesquisador diz que encontrou dificuldades para obter as informações pretendidas. “A Universal é uma instituição muito fechada e que sofreu ataques sistemáticos nos anos 90, principalmente da mídia. Por isso, seus membros são bem desconfiados com relação a pesquisadores. Demorou um certo tempo até que eu pudesse conquistar a confiança de alguns interlocutores, que me ajudaram muito ao me colocar em contato com outras pessoas e também ao dividirem suas vidas comigo. De todo modo, privilegiei situações públicas, ou seja, abertas a quaisquer pessoas, em que pude observar in loco o processo de produção de críticas e julgamentos”.
No que se refere à dimensão da política, continua o autor da tese, a reflexividade dos evangélicos indicou uma preocupação destes em esconder o pertencimento à Universal em seus projetos políticos. “Mas, ao mesmo tempo, eles revelam a filiação institucional na presença de evangélicos. Há todo um cuidado para não utilizar termos e formas argumentativas consideradas, por eles, religiosas. Assim, para justificar suas posições, lançam mão de argumentos de outros campos, como do liberalismo clássico. Além disso, há uma forte recriminação aos militantes de esquerda, considerados, em muitos casos, como baderneiros e pessoas que não têm interesse em promover consenso, mas apenas de levantar bandeiras sem se preocupar com o aspecto prático da política”, pormenoriza Gutierrez.
No que toca ao mundo do empreendedorismo, indica a pesquisa, os membros da Universal costumam refletir sobre assuntos como capitalismo e desigualdade no Brasil. A crítica que fazem a esses temas é complexa, como aponta o autor da tese. “Ao mesmo tempo em que condenam o trabalho assalariado, associando-o à exploração, à miséria e à humilhação, eles percebem a saída dessa situação no próprio capitalismo, ao ocuparem a posição de empreendedores. Assim, ao construírem seus projetos de vida, percebem que a única forma de melhora possível, dado o seu contexto de vida, é criar o negócio próprio”, afirma.
Nesse exercício de reflexão, continua o antropólogo, os membros da Universal também fazem análises e considerações sobre a própria vida, o que inclui as humilhações sofridas e a necessidade de mudar o próprio destino, mais uma vez a partir de uma ação empreendedora. “A igreja contribui nesse sentido, ao trazer conhecimentos e ferramentas, como técnicas de gestão e de marketing. Os pastores recriminam os fiéis que ficam somente orando, recusando-se a aprender e a lançar mão de recursos administrativos para profissionalizar os seus negócios”, revela Gutierrez.
Por fim, a questão do gênero também faz parte das reflexões dos membros da IURD. Como já mencionado, muitos deles participam do programa IntelliMen. O autor da tese procurou analisar, a partir dessa experiência, como os homens produzem classificações em torno dos gêneros masculino e feminino. “Detive minha análise na construção, por parte dos evangélicos, de seus projetos de vida como homens, por meio de suas conversações internas. A conversação interna nada mais é do que uma forma de reflexividade em relação ao próprio ‘eu’. De certa forma, a tese buscou realizar uma ‘sociologia da mente’, isto é, quebrar a barreira entre as ciências sociais e a psicologia e compreender como, ao estruturar planos em nossas mentes, pensamos na expressão de nossa identidade e também nas condições em que estamos inseridos”.
No caso do gênero especificamente, acrescenta o pesquisador, há todo um relato da conversa interna dessas pessoas a respeito de suas desilusões como homens, a problematização de vícios e comportamentos, um desejo de mudança e a adoção de toda uma monitoração e reflexão sobre o que os leva a ser de determinado jeito e o que fazer para mudar. “Ainda na questão de gênero, há todo um esforço para deixar de ser rude e, na perspectiva desses atores, machista, ajudando a mulher em certas tarefas. O construir-se como um IntelliMen envolve ainda não olhar ou desejar mulheres, não se masturbar, não consumir pornografia, tornar-se disciplinado e aprender a ser um bom companheiro. Indubitavelmente, esse programa produz transformações no mundo da vida e também no cotidiano dessas pessoas, uma vez que elas abandonam círculos de amizade, rompendo contextos de sociabilidade, o que se configura todo um panorama novo para esses indivíduos. É interessante que a reflexão em torno do gênero revela que apesar de acreditarem que há características inatas no que concerne a homens e mulheres, percebem também como muitas coisas são imposições sociais e culturais, tais como a ‘cultura da macheza’, o que buscam transformar”, assinala Gutierrez.
Durante o doutorado, o pesquisador contou com bolsa de estudo concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Parte do programa de pós-graduação foi cumprida na École des hautes études en sciences sociales (EHESS), na França. Atualmente, Gutierrez se encontra naquele país, onde atua como pesquisador associado do Centre d'études des mouvements sociaux, da École (CEMS). (Manuel Alves Filho/Jornal da Unicamp)









