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ARTIGO: os rohingya são vítima de limpeza étnica; o mundo está falhando

12 de Julho de 2018, 18:43 , por ONU Brasil - | No one following this article yet.
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Crianças rohingya aguardam distribuição de assistência humanitária em Cox's Bazar, em Bangladesh. Foto: UNICEF/Patrick Brown

Crianças rohingya aguardam distribuição de assistência humanitária em Cox’s Bazar, em Bangladesh. Foto: UNICEF/Patrick Brown

Por António Guterres*

Crianças pequenas mortas na frente dos pais. Meninas e mulheres vítimas de estupro coletivo enquanto seus familiares eram torturados e assassinados. Vilarejos queimados.

Nada poderia ter me preparado para os relatos assustadores que ouvi na semana passada em Bangladesh de refugiados rohingya que fugiram de assassinatos e da violência generalizada no estado de Rakhine, em Mianmar.

Um homem, membro desse grupo étnico majoritariamente muçulmano, desmoronou em lágrimas ao descrever como seu filho mais velho foi morto a tiros na frente dele, sua mãe brutalmente assassinada e sua casa incendiada. Disse ter se refugiado em uma mesquita, mas foi descoberto por soldados que abusaram dele e queimaram o Alcorão.

Essas vítimas do que foi corretamente chamado de limpeza étnica estão sofrendo uma angústia que só pode criar mágoa e raiva nos visitantes. Suas experiências horríveis desafiam a compreensão, mas são a realidade de quase 1 milhão de refugiados rohingya.

Os rohingya sofreram um padrão de perseguição — foram privados dos direitos humanos mais básicos, começando pela cidadania — em seu próprio país, Mianmar.

Os abusos sistemáticos dos direitos humanos pelas forças de segurança em Mianmar no ano passado foram projetados para incutir terror na população rohingya, deixando-a com uma escolha terrível — ficar, temendo a morte, ou deixar tudo para sobreviver.

Depois de uma jornada angustiante para ter mais segurança, esses refugiados agora estão tentando lidar com as duras condições do distrito de Cox’s Bazar, em Bangladesh, resultado da crise de refugiados que mais cresce no mundo.

Bangladesh é um país em desenvolvimento com recursos que estão sendo utilizados até o limite. No entanto, enquanto países maiores e mais ricos em todo o mundo estão fechando as portas para os estrangeiros, o governo e o povo de Bangladesh abriram suas fronteiras e corações para os rohingya.

A compaixão e a generosidade do povo de Bangladesh mostram o melhor da humanidade, salvando milhares de vidas. Mas a resposta à crise precisa ser global.

Um Pacto Global para os Refugiados está sendo finalizado pelos Estados-membros das Nações Unidas para que os países da linha de frente, como Bangladesh, não sejam deixados sozinhos na resposta a ondas de fuga por sobrevivência.

Por enquanto, as Nações Unidas e as agências humanitárias estão trabalhando ao lado dos próprios refugiados e das comunidades de acolhida para melhorar suas condições. Mas muitos mais recursos são necessários para evitar o desastre, enquanto uma crise de refugiados exige um compartilhamento global da responsabilidade.

Um apelo humanitário internacional de quase 1 bilhão de dólares só foi financiado em 26%. Esse déficit significa que a desnutrição prevalece no campo. Isso significa que o acesso à água e ao saneamento está longe do ideal. Isso significa que não podemos fornecer educação básica para crianças refugiadas. Não menos importante, significa medidas inadequadas para aliviar o risco imediato representado pelas monções.

Casas improvisadas construídas apressadamente pelos refugiados agora estão ameaçadas por deslizamentos de terra, exigindo ação urgente para encontrar locais alternativos e construir abrigos mais resistentes.

Muito tem sido feito para enfrentar esses desafios, mas ainda há riscos graves por causa das dimensões da crise.

Viajei a Bangladesh com o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, e cumprimento sua liderança na mobilização de 480 milhões de dólares do banco em subsídios aos refugiados rohingya e seus anfitriões. No entanto, é preciso que a comunidade internacional faça muito mais.

Manifestações de solidariedade não são suficientes; o povo rohingya precisa de assistência genuína.

Apesar de tudo o que enfrentaram em Mianmar, os refugiados que encontrei no Cox’s Bazar não perderam a esperança. “Precisamos de segurança e cidadania em Mianmar. E queremos justiça para o que nossas irmãs, nossas filhas, nossas mães sofreram”, disse uma mulher distraída, mas determinada, enquanto gesticulava para uma mãe embalando seu bebê, resultado de estupro.

A crise não será resolvida da noite para o dia. Ao mesmo tempo, a situação não pode continuar indefinidamente.

Mianmar deve criar as condições para o retorno dos refugiados com plenos direitos e a promessa de viver em segurança e dignidade. Isto requer um investimento maciço — não apenas na reconstrução e desenvolvimento de todas as comunidades em uma das regiões mais pobres de Mianmar, mas também na reconciliação e respeito pelos direitos humanos.

A menos que as causas da violência no estado de Rakhine sejam abordadas de forma abrangente, a miséria e o ódio continuarão a alimentar o conflito. O povo rohingya não pode se tornar vítima esquecida. Precisamos responder a seus apelos por ajuda com ação.

*Secretário-geral da ONU


Fonte: https://nacoesunidas.org/artigo-os-rohingya-sao-vitima-de-limpeza-etnica-o-mundo-esta-falhando/

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