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Sem acesso a recursos naturais, não temos uma identidade, afirma ativista indígena do Chade

10 de Agosto de 2018, 15:24 , por ONU Brasil - | No one following this article yet.
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Hindou Ibrahim defende direito à migração dos povos indígenas que praticam o nomadismo. Foto: Associação para as Mulheres e Povos Indígenas do Chade

Hindou Ibrahim defende direito à migração dos povos indígenas que praticam o nomadismo. Foto: Associação para as Mulheres e Povos Indígenas do Chade

“Se não pudermos acessar e proteger nossos recursos naturais e o meio ambiente, não temos uma identidade e não temos orgulho”. É assim que a ativista indígena Hindou Ibrahim, da etnia Mbororo, do Chade, descreve a privação de direitos, terras e modos de vida tradicionais, um problema que ameaça culturas e povos originários de diferentes partes do mundo.

Em entrevista à ONU Meio Ambiente, para o 9 de agosto, Dia Internacional dos Povos Indígenas, a militante defende o reconhecimento de práticas ancestrais, como a migração nômade.

Recém-nomeada exploradora emergente da National Geographic, Hindou Ibrahim coordena a Associação de Mulheres e Povos Indígenas Peul do Chade e é copresidente do Fórum dos Povos Indígenas sobre Mudanças Climáticas.

ONU Meio Ambiente: Qual é a sua mensagem para jovens indígenas de comunidades de nômades sobre o futuro? É realista pensar que a migração pode ser parte das sociedades modernas?

Eu sou apaixonada por esse tema e falarei sobre isso no Fórum Global de Paisagens, organizado pelas Nações Unidas em Nairóbi, em 29 de agosto. Como povos nômades, nós nos deslocamos bastante. Esse movimento é nosso meio de proteger o meio ambiente, permitindo que os recursos naturais se regenerem entre períodos e estações de migração. Nós interagimos com os animais, pássaros, água e estações, deslocando-se constantemente. Nosso povo tem um rico conhecimento tradicional sobre a função do ecossistema e sobre como equilibrar recursos naturais limitados. Quanto aos jovens, eles devem proteger os direitos dos indígenas de interagir com a terra, com os recursos e com o território e, ao mesmo tempo, proteger os direitos coletivos a terra e leis costumárias.

ONU Meio Ambiente: Como as mudanças climáticas afetam comunidades indígenas como a sua?

Sabemos que as mudanças climáticas estão fazendo nossa reserva de recursos naturais encolher. Nossa estratégia de adaptação é migrar para áreas onde os recursos são mais abundantes. Temos de ser mais tolerantes com a migração humana e com comunidades de nômades que dependem da terra para ter subsistência. Países desenvolvidos consideram que a migração humana, não importa o motivo – ambiental, político, econômico -, tem de ser impedida. Em vez disso, temos de implementar regulações adequadas e reconhecer as necessidades das comunidades migratórias – seja porque estão fugindo de desastres climáticos ou migrando com seus animais de criação.

ONU Meio Ambiente: Em muitos países, comunidades de nômades são encorajadas a se fixar em algum lugar para ter acesso mais fácil a educação e saúde. Você aceita esse tipo de solução?

No Quênia, Chade e muitos outros países, somos forçados a nos estabelecer, mas nossos recursos naturais estão diminuindo e se movendo. Em alguns locais sedentários, os animais vivem aglomerados: eles contraem doenças e destroem o equilíbrio do nosso ecossistema. Isso causa conflito. Temos de incluir deslocamento e migração em planos de desenvolvimento: precisamos de escolas móveis, hospitais móveis e energia móvel, como, por exemplo, a energia solar.

Para nós, desenvolvimento não
tem a ver com prédios altos com 20 andares,
televisões exibindo os mesmos
filmes ou Coca-Cola.

Essas soluções existem mesmo. Temos um modo diferente de viver: temos a dádiva do conhecimento tradicional para fazer previsões sobre o clima, para nos adaptarmos às estações ou usar remédios tradicionais. Essas lições nos ajudam a sobreviver e a poupar nossos recursos. Temos de nos concentrar em preservar essa dádiva, aprendendo e compartilhando-a com outros, a fim de ajudar a nossa próxima geração a se adaptar às mudanças climáticas e outras ameaças que poderemos enfrentar.

ONU Meio Ambiente: Você acha que se estabelecer é uma parte inevitável do desenvolvimento?

Qual o significado de desenvolvimento? Significa globalização ou o bem-estar das pessoas? Para nós, desenvolvimento não tem a ver com prédios altos com 20 andares, televisões exibindo os mesmos filmes ou Coca-Cola. Desenvolvimento tem a ver com acesso a direitos básicos, como educação e saúde, combinados ao nosso conhecimento e nossos remédios tradicionais. Enquanto jovens indígenas, não deveríamos ter de escolher entre desenvolvimento e nossa herança migratória. Todos nós, jovens, queremos um celular. Temos o direito de ir à cidade e arranjar um emprego. Mas as pessoas que trabalham nos centros urbanos não põem leite na mesa do café da manhã ou mantêm a terra em equilíbrio. Hoje, temos uma desigualdade: as áreas urbanas têm acesso a energia, hospitais e escolas. Deveríamos ter esses recursos nas zonas rurais também.

ONU Meio Ambiente: O que precisa ser feito para te ajudar a preservar seu modo de vida indígena?

Se não pudermos acessar e proteger nossos recursos naturais e o meio ambiente, não temos uma identidade e não temos orgulho. A comunidade internacional deve adotar resoluções de modo que comunidades indígenas tenham acesso aos recursos naturais e possam compartilhá-los. Devemos definir e reconhecer, com clareza, corredores de migração, com pontos de descanso e abastecimento de água, a fim de prevenir conflitos. Temos de reconhecer padrões migratórios e o direito de se deslocar como direitos migratórios. Devemos ser mais tolerantes com a migração e geri-la adequadamente. Países desenvolvidos também devem tomar medidas imediatas para conter a mudança climática e emissões danosas porque elas têm impacto em nossos estilos de vida indígenas. Esse é o nosso modo de vida, e temos de lutar para sustentá-lo.


Fonte: https://nacoesunidas.org/sem-acesso-a-recursos-naturais-nao-temos-uma-identidade-afirma-ativista-indigena-do-chade/

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