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Para refletir e debater (10): Nada muda se não mudar os processos produtivos!

17 de Junho de 2013, 21:00 , por Bertoni - 22 comentários | 1 person following this article.
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Por Sérgio Bertoni

Os protestos realizados nas duas últimas semanas em várias cidades do país abriram um grande debate na sociedade sobre a validade, necessidade, legitimidade e objetivos do movimento.

Na série que publicamos aqui no blog, com 10 artigos de 10 autores diferentes, tem o objetivo de estimular o debate, coisa que em minha humilde opinião está no cerne de todos os protestos, ou melhor, a falta de debate nos últimos 20-25 anos criou uma angústia, uma ansiedade que agora explodem e vem à tona para espanto de alguns e regozijo de outros.

Sem dúvida há vários interesses tentando tomar conta do movimento e "dar o norte" para o mesmo. Mas nem todos ainda entederam que essa coisa de "dar norte", "dar rumo", "dar direção" é coisa de um passado centralista, vertical e autoritário, presente na direita nacional e, infelzimente, em alguns setores de esquerda também.

Mudanças são processos e não milagres

As manifestações que acontecem por todo o Brasil são importantes para o processo democrático e para a reflexão coletiva.

É verdade também que tem gente cantando vitória antes da hora, esquecendo-se que as mudanças são processos e não milagres.

Esquecem-se que é preciso muito mais que algumas manifestações para que as coisas mudem.

Vejam o exemplo da luta gloriosa do povo egípcio. Derrubou Mubarak, mas não colocou nada melhor no lugar dele. Aqui, como no Egito, corre-se o risco de trocar 6 por meia dúzia ou, o que é pior, 6 por 3 ou por nada!!!

Nenhuma mudança, em nenhum lugar do mundo, se deu efetivamente sem a radical mudança dos processos produtivos. Gostemos ou não, até agora foi assim na história. E esta aí a primavera árabe a confirmar o soneto.

E aqui temos o desafio maior: criar um sistema produtivo onde o ser humano seja o sujeito e o centro de toda ação socio-econômica e cultural, e não apenas uma mera peça na engrenagem do sistema, seja ele qual for.

Construção coletiva

Os protestos que aí estão deixam claro uma coisa:

Não dá mais para fazer as coisas sem debater, sem discutir, sem construir coletivamente.

A moçada, a seu modo, da sua forma, reivindica o direito de ser cidadão, de ter direito à livre expressão de ideias, de participar dos processos de decisão e construção do país.

Um jovem petista, amigo meu, publicou - eufórico - em seu perfil de uma determinada rede social que nunca havia se sentido tão cidadão.

Uma frase apenas, mas que diz muito.

Este jovem não é um babaca de classe média como dizem alguns, nem faz parte da massa cheirosa como dizem outros.

É um jovem trabalhador que rala o dia inteiro trabalhando e ainda tem forças para enfrentar a universidade a noite.

É da classe trabalhadora, da Senzala e não da CasaGrande!

E como eles há centenas e milhares de jovens que inclusive votaram em Dilma e que participam dos protestos.

Entender e participar

Infelizmente, algumas pessoas ligadas ao PT, em lugar de entender o que está acontecendo e se envolver no movimento para que a direita não deite e role, comete o mesmo erro da esquerda verticalista e centralista de 1968 que condenou as manifestações "É proibidio proibir".

Acorda gente, esse jogo ainda não está jogado e pode ser ganho. Basta colocar um centroavante, bom de bola, abrir pelas pontas (de preferência pela esquerda) e sair da retranca. 

O PT não foi criado pelos trabalhadores que tinham medo, mas pelos que tiveram coragem de dizer chega: à ditadura militar, à carestia, à falta de liberdade, à falta de diálogo,e à falta de debates e de alternativas para a classe trabalhadora.

O PT não foi criado para jogar na retranca!

Dilma pode ser a grande beneficiada com esta onda de protestos

Sim, Dilma pode ser a grande beneficiada se souber dar uma resposta de acordo com as tradições do PT e das lutas dos movimentos sociais e sindical.

Não precisa reprimir, nem desqualificar, nem cooptar ninguém.

Basta mexer na parte que lhe toca: desonerar impostos federais que incidem sobre o transporte e EXIGIR a contrapartida dos empresários e governos locais, obrigando-os a repassar a desoneração para as passagens, reduzindo seus valores imediatamente, sob pena de perca do direito de concessão.

Além dissso, Dilma precisa abrir um debate nacional sobre a qualidade do transporte coletivo e estimular a criação de empresas PÚBLICAS para administrar o setor de transporte coletivo.

Se hábil, conseguirá abrir a caixa preta das tarifas de transporte em todo o país, que esconde excusos interesses de determinados grupos empresariais e seus aliados políticos. Assim chamaria para si o discurso anticorrupção e tiraria mais uma bandeira das mãos da direita falsomoralista.

É proibido proibir está de volta!

Em minha opinião, o mais doido de tudo isso é ver parte da juventude de 1968 condenando as manifestações da juventude de 2013.

Principalmente porque ambos movimentos pegaram os verticalistas e centralistas de calças curtas.

Assim como os jovens de 1968 estavam cansados das formas de se fazer política então, os jovens de 2013 também querem novas formas de participar da vida do país.

Querem horizontalidade, querem democracia direta, querem liberdade, sem chefes nem caciques.

Querem sentir-se cidadãos. E isso é maravilhoso.

Mas será que daqui a 40 anos os jovens manifestantes de hoje estarão criticando os manifestantes de então pela sua falta de propostas e objetivos???

Será que aprenderemos algo?

Será que aproveitaremos as lições históricas???

Infiltrados agiram para desacreditar o movimento

Quem participa dos movimentos sociais e populares há anos sabe que os orgãos de segurança sempre conseguem infiltrar seus agentes nestes movimentos. Muitas vezes os agentes são os caras mais bacanas e ativos, gente porretamente revolucionária, pelo menos no discurso.

E vimos nas manifestações recentes que, para alegria do PiG de da Polícia de Choque, meia dúzia de gatos pingados fizeram baderna em Sampa e em Curitib, na calada da noite.

Durante a passeata em Curitiba vários troncudinhos metidos a valentões provocaram os manifestantes que rapidamente reagiam com a palavra de ordem "Sem violência", isolavam os caras e os retiravam da passeata.

Como não conseguiram nada durante a manifestação esperaram o movimento esvaziar para  tentar invadir o Palácio Iguaçu e provocar a Polícia de Choque. E conseguiram seu objetivo. Alguns relatos dão conta de que estes provocadores estavam monidos de bombas, ou seja, prepararam-se anteriormente para a baderna.

Não se trata aqui de criminalizar o movimento, mas sim de diferenciar os manifestantes dos baderneiros infiltrados que querem fazer crer que o Brasil precisa de uma ação violenta para colocar ordem na casa. Trata-se da ação de uma minoria que, desconfiamos, ser a mesma minoria violenta que em 1964 levou o Brasil a 21 anos de obscuridade a a mais de 40 anos de atraso em seu desenvolvimento social, político e econômico.

Horizontalidade e Intolerância

Uma coisa chamou atenção nos protestos, além das reivindicações, houve muita horizontalidade e... intolerância. Sim, intolerância!

Manifestantes hostilizaram aqueles que portavam bandeiras de seus partidos.

Um vitória da horizontalidade, mas também da intolerância.

Uma contradição, não?

Sim, uma contradição, pois a Horizontalidade só existe com a participação de tod@s e com o respeito às distintas posições.

Movimento sem objetivos?

Seria natural se os objetivos das manifestações recentes não fossem exatamente os mesmos de grupos formados em outras épocas e já tradicionais no espectro político, social, cultural e econômico.

Porém, reunião realizada em 15/06 para discutir a organização dos atos do transporte em Curitiba, teve como pauta:

- bandeiras da luta;

- formação de comissões; e

- trajeto da passeata.

Decidiu-se que o ponto de pauta prioritário é a redução e congelamento da tarifa em R$ 2,60 e domingueira R$ 1,00.

Os outros pontos são:
- contra repressão e criminalização dos movimentos sociais,
- abertura da caixa preta da URBS,
- mobilidade urbana e direito à cidade,
- contra o projeto do ônibus rosa,
- contra os crimes da copa,
- pela transparência do subsídio,
- contra a precarização dos trabalhadores do transporte,
- passe livre estudantil,
- pela criação da empresa estatal de transporte coletivo.

Será que estas reivindicações são coisa da direita?

Será que são problemas que afetam apenas os jovenzinhos babacas e despolitizados da massa cheirosa?

Ou será que parte da esquerda está se deixando levar pelo comodismo e esquecimento?

Por isso, nossa proposta aqui não é encontrar nem dar respostas fáceis, mas abrir o debate e a reflexão de forma que juntos possamos evoluir e fazer o Brasil avançar junto com os brasileiros e latinoamericanos.


Tags deste artigo: direito a ter direitos liberdade de expressão governo democracia manifestações debate juventude organização mobilização

22 comentários

  • 351928 96 20120730130335 minorjurubebadigital
    18 de Junho de 2013, 9:45

    tarifa zero

    Serginho,
    Vamos pautar o debate sobre a tarifa zero, tem um espaço muito interessante tarifazero.org que busca trazer o olhar da reflexão sobre os problemas das cidades com a chamada mobilidade urbana. No geral, em concordância com seu texto tenho muito a preocupação que essa geração nao se deixe levar como massa de manobra por oportunistas e demagogos.


    • Ciber500x500 minorBertoni
      18 de Junho de 2013, 10:00

      Nada acontece por acaso

      A moçada não é necessariamente de direita como alguns amigos nossos querem nos fazer crer.

      A moçada está aberta e quer o debate. Só irão para a direita se a esquerda se comportar como dona da verdade, autoritária e impositiva. Se dialogar, se debater, se construir coletivamente, ganha aliados importantes.

      Quando à tarifa zero: é um debate importante, assim como o de transporte coletivo e público de qualidade.

      O que não dá é pagar caríssimo por uma merda de uma pau-de-arara que as empresas privadas insistem em chamar de ônibus urbano.


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